Carta aberta ao Papa Francisco. Artigo de Claude Dagens, bispo de Angoulême

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03 Outubro 2013

Todos percebem duas insistências particularmente fortes nas palavras de Francisco: a prioridade da renovação da vida cristã com relação às reformas institucionais e o apelo a não colocar os problemas morais e as soluções disciplinares no lugar do essencial, que se encontra na Revelação de Jesus Cristo Salvador. Essas duas insistências são profundamente reveladoras e também muito tradicionais.

Publicamos aqui a carta aberta de Dom Claude Dagens, bispo de Angoulême, na França e membro da Academia Francesa. A carta foi publicada no jornal La Croix, 30-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro Papa Francisco,

No dia seguinte à sua eleição, em março de 2013, o nosso amigo cardeal francês Roger Etchegaray lhe enviou uma poesia na qual expressava com fineza a sua alegria e a sua confiança. Permita-me expressar-lhe hoje o meu vivo reconhecimento pelas reflexões que o senhor quis confiar à revista dirigida pelos seus irmãos jesuítas.

Todos percebem duas insistências particularmente fortes nas suas palavras: a prioridade da renovação da vida cristã com relação às reformas institucionais e o apelo a não colocar os problemas morais e as soluções disciplinares no lugar do essencial, que se encontra na Revelação de Jesus Cristo Salvador. Essas duas insistências são profundamente reveladoras e também muito tradicionais.

Todos aqueles que leram “Verdadeira e Falsa Reforma na Igreja”, do padre Yves-Marie Congar, sabem que, ao longo do curso da história, as reformas na Igreja são inseparáveis de um trabalho em profundidade que restaura a Jesus Cristo o seu lugar central na fé e na vida cristã. Bento, Francisco, Inácio e muitos outros foram dados por Deus para suscitar aquela renovação espiritual que prepara as transformações das estruturas.

Obrigado por repetir a nós que "a primeira reforma deve ser a da atitude" e que "os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se". Que belas descobertas e que belos encontros nos esperam, então, nessas estradas abertas!

Quanto à moral cristã, a partir do Evangelho e das cartas do apóstolo Paulo, ela deriva da Revelação de Cristo que "veio procurar e salvar o que estava perdido" (Lucas 19, 10). Obrigado, Papa Francisco, por ter nos dito isso com clareza: "Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos" e "devemos encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder o frescor e o perfume do Evangelho".

Mas podemos, a partir de agora, como o senhor aconselhou aos bispos do Brasil, praticar a pastoral não só da acolhida, mas do caminho, à luz do relato dos peregrinos de Emaús, formando "uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém".

Obrigado, caro Papa Francisco, por nos encorajar a esse trabalho contínuo de presença e de discernimento. Mas o mais bonito das suas reflexões me parece estar ainda mais não na abertura ao mundo, como já dissemos às vezes de maneira ingênua, mas sim no seu apelo à abertura exigente do coração e da inteligência, que impede toda propensão à introversão e à desconfiança, e até mesmo ao sonho de "ocupar espaços de poder".

Espero que a sua advertência seja ouvida: "As queixas nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda 'bárbaro' acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje".

Essa concepção tão tradicional da presença de Deus na história me faz pensar no padre De Lubac e na sua Meditação sobre a Igreja, escrita por volta de 1953, em uma época em que ele era posto à dura prova. Esse homem de coração e de inteligência, então, tirou das fontes cristãs esse modo aberto de entender a fé, que deixa espaço para a incerteza humana para dar todas as suas chances àquilo que Deus nos revela e nos dá.

Caro Papa Francisco, eu ainda teria muitas coisas a lhe dizer, agradecendo-lhe por ter falado daqueles pintores, daqueles músicos e daqueles escritores que o senhor ama. Muitas vezes eu contemplei o quadro de Caravaggio em San Luigi dei Francesi, e aquele raio de luz que vai de Jesus ao publicano Mateus, "aquele pecador sobre o qual pousou o olhar de Jesus".

Eu também gosto muito, não muito longe dali, na igreja de Santo Agostinho, da Nossa Senhora dos Peregrinos, ainda de Caravaggio. Nos braços de sua mãe, o Menino Jesus irradia luz, e Maria se volta àquele homem e àquela mulher idosos que estão ajoelhados diante dela. O homem e a mulher, ambos, rezam, mas de modos diferentes. O homem está curvado, implorante, e veem-se os seus pés descalços no chão. A mulher, ao invés, está como que em diálogo com Nossa Senhora, olha para ela, lhe agradece, enquanto o homem se volta ao Menino que o abençoa.

O mistério da nossa humanidade está aí: a presença iluminadora de Jesus, o amor da sua mãe e aquele belo abandono do homem e da mulher que vivem um momento de eternidade. Eis o mistério da Igreja: na noite da qual surge a luz, nós não deixamos de caminhar, e Deus está ali, e a sua bênção nos acompanha!

Obrigado, caro Papa Francisco, por estar conosco nesse caminho aberto! Que o Espírito Santo lhe conceda abri-lo ainda mais, em nome da misericórdia de Cristo!

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