O desaparecimento do ''padre'' da revolução síria

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09 Setembro 2013

Na sua última aparição, um vídeo enviado no fim do mês de julho, o padre Paolo Dall'Oglio se dirigia aos habitantes de Raqqa, primeira capital provincial libertada pela rebelião síria das mãos do regime de Bashar Al-Assad: "Se Deus quiser, Raqqa será a primeira capital da Síria livre", dizia.

A reportagem é de Christophe Ayad, publicada no caderno Géo & Politique do jornal Le Monde, 29-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Travamos uma luta democrática para derrubar o regime", acrescentava o padre jesuíta naquela breve intervenção filmada por cidadãos jornalistas da cidade. Ele afirmava estar jejuando para o Ramadã em solidariedade com os muçulmanos sírios. Um estranho paroquiano, o padre Paolo, como apenas a Companhia de Jesus soube produzir.

Completamente comprometido em favor da revolução síria, Paolo Dall'Oglio é uma exceção dentro da Igreja Católica, e ainda mais na paisagem cristã síria. Desde a sua expulsão da Síria em junho de 2012, onde ele viveu cerca de 30 anos, o padre Paolo se estabeleceu em Souleimanieh, no Curdistão iraquiano.

Continuamente em viagem e em contato permanente tanto com as diversas facções da rebelião, quanto com as diplomacias envolvidas na questão síria, o padre, que é um dos melhores conhecedores do mundo do seu país de adoção, leva adiante duas batalhas. A primeira contra a ditadura de Bashar Al-Assad, continuadora da do seu pai, Hafez, que Dall'Oglio execra por tê-la conhecido de dentro. A segunda, dentro da Igreja e do mundo cristão, para convencê-los de que não é preciso temer a revolução síria, em particular, e a "Primavera Árabe" em geral. Para esse eclesiástico, só participando das lutas da maioria muçulmana e trabalhando por um Oriente Médio democrático é que os cristãos garantirão o seu futuro nessa região abalada pela violência e pela intolerância.

No fim de julho, o padre Paolo viajou clandestinamente para Raqqa, no nordeste da Síria, para realizar uma mediação entre os jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) – o ramo iraquiano da Al-Qaeda – e as forças curda sírias, em conflito aberto. Essa guerra fratricida, que começou em meados de julho, entre duas forças hostis ao regime sírio, ameaça implodir a rebelião síria e fazer fracassar a revolução.

Tendo chegado no dia 29 de julho a Raqqa, o padre Paolo Dall'Oglio se dirigiu, no dia 1º de agosto, ao quartel general dos jihadistas em Raqqa, na esperança de encontrar o chefe do EIIL, Abu Bakr al-Baghdadi. Ele tinha a intenção de obter a libertação de diversos reféns ocidentais e sírios nas mãos do EIIL.

Desde então, as pessoas que o conhecem estão sem notícias dele. Uns dizem que ele está prisioneiro, outros dizem que ele está morto, sem que seja possível confirmar qualquer uma das informações conflitantes que circulam.

Para muitos, ir ao encontro do EIIL no Iraque equivale a se jogar na boca do lobo, mas Paolo Dall'Oglio, que trabalhou desde o fim dos anos 1970 em favor do diálogo cristão-islâmico (Innamorato dell'Islam, credente in Gesù, Ed. Jaca Book, 2011), nunca teve medo dos islamitas, que ele considera como parceiros para todos os efeitos.

Em fevereiro, ele tinha feito uma longa viagem na Síria rebelde, entrando através do Curdistão, perto de Qamichli, dirigindo-se até Qoussair, na fronteira libanesa. Acolhido por ativistas, tinha passado longos dias na companhia dos jihadistas do Fronte Al-Nosra, o ramo sírio da Al-Qaeda e "gêmeo" do EIIL, para discutir sobre Bashar Al-Assad, Jesus, Maomé, o papa, o Oriente, o Ocidente e os méritos da metralhadora 12.7, apelidada de "dushka" em árabe.

"Eu tenho a impressão de que, em contato com a Síria, o extremismo jihadista se adoça", referia ele, no seu regresso, com um otimismo inabalável. Esse colosso de 58 anos, com a barba grisalha e a saúde mais frágil do que o seu tamanho leva a pensar, sempre foi um homem tanto de ação, quanto de reflexão e de oração. Nascido em uma família comprometida com o sindicalismo agrícola cristão na Itália, ele admite ter levantado o problema da ação violenta no início dos anos 1970, quando o aborto, contrário aos seus valores, foi autorizado. Ele nunca assumiu a recusa às armas e o pacifismo de princípio: para ele, a extrema injustiça justifica o recurso à violência e à revolta.

Sensibilizado muito cedo pela questão palestina por ocasião de viagens à Terra Santa, ele aprendeu o árabe em Beirute, em meados dos anos 1970, em plena guerra civil libanesa. Depois, partiu para estudar o direito muçulmano na Síria, onde o massacre de Hama, em 1982, o abalou. Pouco depois, fundou uma comunidade no mosteiro de Mar Musa, que ele reabriu e colocou novamente nos eixos com alguns jovens cristãos. Mar Musa, cuja epopeia ele conta em um livro (La Rage et la lumière. Un prêtre dans la révolution syrienne, Ed. de l' Atelier, 2013), tornou-se um centro importante do diálogo entre o cristianismo e o Islã.

A personalidade carismática de Paolo Dall'Oglio, ao mesmo tempo caloroso e colérico, atrai jovens de todas as origens, sírios e árabes, assim como ocidentais. Mar Musa torna-se um dos raros espaços de liberdade e de diálogo democrático na Síria de Assad: a psicanalista Rafah Nached é uma frequentadora habitual, e o padre se colocou em análise com ela. Islã, psicanálise, compromisso político: muitas são as "estranhezas" que acabam incomodando dentro da Igreja Católica.

Em meados dos anos 2000, o padre Paolo foi intimado a se apresentar à Congregação para a Doutrina da Fé, na época dirigida por Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI. A ala ultraconservadora, próxima do Opus Dei, fez dele a sua besta negra.

Ele tinha depositado muitas esperanças na eleição do Papa Francisco, assim como ele proveniente da Companhia de Jesus. Ele esperava encontrar nele um aliado diante da hostilidade da maioria da hierarquia cristã síria, inclinada do lado de Bashar Al-Assad, que sempre chantageou os cristãos apresentando-se como seu exclusivo protetor e único fiador da sua sobrevivência na Síria diante dos islamitas.

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