Outono brasileiro coloca o conflito na agenda da nação

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05 Agosto 2013

A sociedade brasileira não está acostumada ao conflito, situação já incorporada em outras nações latino-americanas, como no México, na Argentina e no Uruguai, destacou o cientista político Carlos Gadea, professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) no debate promovido pela instituição, na quinta-feira, 30 de julho, focado nos movimentos que foram às ruas em junho.

"A sociedade brasileira ainda é pouco república e muito imperial, hierárquica", comparou Gadea. O Brasil, prosseguiu, é um dos países lideres no número de assassinato de jovens negros, mas se irrita quando um jovem quebra um vidro numa manifestação.

A reportagem é de Edelberto Behs e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 05-08-2013.

O "outono brasileiro" motivou fatos surpreendentes, polifônicos, que permite vários e diferentes olhares sobre o fenômeno. "As mobilizações de rua são uma contestação à imobilidade de governos, mas também ao mercado de trabalho, de jovens que estão em busca de ascensão social", disse o professor Aloisio Ruscheinsky da Pós-Graduação de Ciências Sociais. O mercado de trabalho, agregou, não é tão gentil quanto possa parecer.

Recorrendo à ilustração de uma "pizza", Ruscheinsky mostrou que 43,8% do que é arrecadado de impostos e taxas são destinados ao pagamento de juros e amortização da dívida pública brasileira. "Os 44% vão para menos de 100 brasileiros e estrangeiros que investem no capital especulativo", apontou, frisando que esse quadro permanece inalterado nas duas últimas décadas e explica em parte as manifestações do outono brasileiro.

"Temos que abandonar as explicações materialistas e procurar as demandas dos jovens que surgem do mundo simbólico, não por arroz e feijão, mas pelo tênis Nike", destacou Gadea. O ator social das manifestações de rua são jovens de famílias de classe C, em ascensão, que querem entrar na órbita do consumo simbólico, avaliou.

É difícil identificar uma bandeira única, pois os movimentos são polissêmicos, multitemáticos, não se consegue perceber uma identidade nas manifestações, analisou o professor Gustavo Paim, do curso de Direito da Unisinos.

Paim apontou contradições ocorridas nas ruas: em Porto Alegre, uma das bandeiras dos manifestantes foi contra a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que restringia o poder do Ministério Público nas investigações criminais. No entanto, manifestantes quebraram  vidraças do prédio do Ministério Público. Pediram maior segurança, entretanto atearam fogo em carro da Brigada Militar. Reivindicaram melhor transporte público, mas queimaram ônibus.

O professor de Direito alertou, contudo, que é preciso enaltecer o movimento democrático das ruas brasileiras, que é uma posição contra o status quo, não é contra os governos federal, estaduais, municipais especificamente, mas ele questiona a democracia participativa. No Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral foi eleito em primeiro turno com 70% dos votos e hoje é um dos políticos mais alvejados pelo movimento das ruas.

Ainda assim, a demonização que se faz dos políticos e dos partidos "não serve para a nossa democracia, não ajuda a democracia", frisou Paim.  O professor Pedro Osório, da Comunicação Social, concordou com o colega do Direito. "Se não fizermos política, não vamos chegar a bom termo na sociedade", afirmou Osório, embora reconhecesse a crise da representação e o esgotamento do projeto do Estado nacional brasileiro. Pesquisa realizada com manifestantes paulistanos dos dias 20 a 22 de junho mostrou que 89% deles não se sentiam representados por qualquer partido político.

Os partidos são incapazes de defender seus projetos políticos e não chegam, com uma ação pedagógica, até os jovens e suas inquietações, observou o professor da Comunicação Social. Ele também teceu críticas ao papel da mídia. "Ela não promove o debate, traz muitas vezes opiniões duvidosas e está ausente na mediação de ideias plurais".

Pedro Osório não se furtou de fazer uma auto avaliação do papel do professor. "Até que ponto somos representativos para os nossos alunos?" - indagou. "Estamos no lugar que pode gerar respostas, pois elas não virão dos partidos nem do Estado. Cabe à universidade apontar caminhos e sugerir o que pode ser feito nesse momento extraordinário que estamos vivendo", destacou.

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