Adolfo Nicolás, Superior Geral da Companhia de Jesus, visita a Unisinos

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18 Julho 2013

Durante quase duas horas, o jesuíta falou sobre o papel das universidades jesuítas na contemporaneidade.

Fotos: Ricardo Machado

Adolfo Nicolás (foto) é espanhol e ingressou na Companhia de Jesus, em 1953. Tem um jeito discreto de ser e agir. Vestido todo de preto e com um discurso impresso em português, Nicolás se desculpou por não falar o idioma do Brasil e pelo seu sotaque espanhol antes de iniciar seu discurso. Durante sua fala, o Superior Geral chamou atenção, entre outros aspectos, para o papel da universidade em uma sociedade tecnocientífica, para os desafios da formação humanística e para a importância do diálogo inter-religioso. A apresentação intitulada A colaboração de jesuítas e leigos nas universidades confiadas à Companhia de Jesus: o diálogo entre o humanismo evangélico e o humanismo tecnocientífico ocorreu no final da tarde da quarta-feira, 18-07-2013, no saguão da Biblioteca da Unisinos, em São Leopoldo.

Nicolás cursou Teologia em Tókio, onde se ordenou sacerdote em 1967. Em seguida estudou Semiologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, concluindo os estudos em 1971. Foi professor de Teologia dos Sacramentos na Universidade de Sofia, em Tóquio, entre 1971 e 2002. No ano de 1993 foi superior provincial da Província da Companhia de Jesus no Japão, cargo que ocupou até a 1999. A partir de 2004 foi o responsável pela Conferência dos Provinciais da Ásia Oriental e Oceania até 2007. Desde 2008 é o Superior Geral da Companhia de Jesus.

Na tarde de ontem, Adolfo Nicolás, Superior Geral da Companhia de Jesus, visitou o Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Ele veio acompanhado por seu assistente, Pe. Marcos Recolóns, pelo Superior Provincial e pelo Reitor da Unisinos, Pe. Marcelo Fernandes de Aquino. No momento da visita, não prevista, realizava-se uma reunião do IHU com os/as colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – Cepat e com Cesar Sanson, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiros estratégicos do IHU.

A síntese da conferência, publicada a seguir, é de Ricardo Machado, jornalista do IHU.

Confira a matéria.

Colaboração

 

O primeiro ponto que Adolfo Nicolás chamou atenção foi para a integração entre jesuítas e leigos, principalmente tendo em conta que os arranjos atuais das universidades da Companhia de Jesus são muito distintos de 60 anos atrás – quando, proporcionalmente, o número de leigos era menor ao de jesuítas. Ele sustentou que este trabalho deve servir ao pensamento integrado entre os religiosos e não religiosos, no sentido de enfrentar os desafios oriundos da sociedade de tecnologias imediatas. “Compartilho a firme conexão de que é a experiência de colaboração que molda nossa identidade”, avalia Nicolás.

Dentro dessa reflexão, o Superior elencou três eixos que devem ser levados em conta no trabalho dentro da universidade. O primeiro está relacionado à aceitação da pluralidade; o segundo está relacionado à formação de uma comunidade entre religiosos e leigos e que aprendam a conviver juntos; por fim, está relacionado a que estes participem da mesma missão. “De nossa parte, dos jesuítas, colocamos à disposição o que somos, nossa experiência espiritual, nossos recursos educacionais.”

Experiência inter-religiosa

O Superior chamou atenção para o trabalho realizado no Japão juntamente com budistas, agnósticos e ateus. Segundo ele, alguns colaboradores budistas entravam mais fundo na missão da educação que os próprios jesuítas. Ao melhor estilo dos orientais, que se valem de metáforas para propagar seus ensinamentos, Nicolás intercalou seu discurso “oficial” a histórias, como forma de ilustrar seu pensamento.

Assim, ele contou que havia na universidade um jovem professor budista que questionava muito uma capela construída no campus. Entretanto, algum tempo depois outro professor budista, este mais velho e experiente, fora ao local e disse ao colega que ele não havia entendido coisa alguma, pois naquele colégio tudo era uma capela. “Isso foi uma lição para todos nós. Um budista deu a melhor explicação sobre o que é a educação jesuíta”, conta Nicolás.

Missão de Deus

Uma das questões que Adolfo Nicolás ressaltou é que, atualmente, se fala na Missão Deus e não da missão da Igreja. “Não é a missão dos jesuítas, mas a missão de Deus. Antigamente falávamos que os leigos estavam fora e que a missão era do clero. Hoje, até o papa diz que a missão de Deus é de todos e todos somos colaboradores em transformar a realidade e o mundo”, frisa Nicolás.

Nessa perspectiva, o Superior lembrou os mais de 30 anos de vivência no Japão para sustentar a importância do diálogo com outras dimensões religiosas e que Deus não está no consenso, senão no coração de cada pessoa.

Em mais uma metáfora, ele recordou um episódio ocorrido após o tsunami que assolou o Japão. “Eu recebi a cópia de uma carta, enviada por uma senhora australiana que vivia na ilha ensinando inglês. Nela lia-se que, durante 15 dias após o tsunami, a senhora encontrava comida na porta de seu apartamento sem saber quem deixava, mas que era um gesto de compaixão de alguém que sabia que ela era estrangeira e que poderia não saber o que fazer naquela situação. Isso mudou a substância do mundo para ela, e isso não é acidental, é Deus operando no coração das pessoas”, relata.

Caminho interior

Adolfo Nicolás fez um retorno ao tempo axial – cinco séculos antes de Cristo – em um esforço de entender processos já ocorridos no sentido de reduzir o sofrimento humano. Ele reiterou que ao menos quatro culturas religiosas distintas – chinesa, indiana, israelense e grega – tentaram um movimento de diminuir o sofrimento humano, contribuindo para uma sociedade menos violenta. “Isso é uma preocupação de todas as religiões. Tentaram rituais, tentaram sacrifícios, etc. Até certo ponto é melhor matar um cabrito que uma pessoa, mas segue a violência, porque se mata em nome de Deus. Então chegaram ao ponto de que o caminho é o caminho interior. Foi justamente o que os cristãos descobriram mais tarde. O caminho de transformação é interior. Se somos transformados interiormente, é essa a experiência que tem seguido nas instituições educativas que seguem transformando a experiência humana”, considera.

O cristão e o budista

Para Nicolás, os cristãos e os budistas dizem que Deus é um mistério. Entretanto, os orientais evitam falar de Deus, pois consideram que, quando fazemos isso, nos tornamos pequenos, além do fato de que as coisas que ignoramos de Deus são sempre mais numerosas que as que conhecemos. “Os budistas nem falam de Deus. Os cristãos, quando se dão conta de Deus, escrevem livros gordíssimos”, brinca o Superior que arrancou risos do público. “Em três dias no Japão você escreve um livro; em três meses no Japão você escreve um artigo; em três anos no Japão você não escreve nada, porque se dá conta da complexidade”, complementa.

A juventude e as ruas

Na avaliação do jesuíta, as manifestações ocorridas revelaram também a generosidade e a compaixão da juventude que, no mês de junho, percorria as cidades brasileiras. Ele lembrou um programa de TV no Japão em que diversos jovens foram convidados a dar depoimentos sobre as razões que os motivavam a fazer intercâmbio e conhecerem outros países. “Os jovens que saíam do Japão para intercâmbio não tinham motivações para além da curiosidade de conhecer outros lugares, mas revelaram que mudaram a relação com eles mesmos conhecendo a realidade sofrível de outras pessoas”, destaca.

De acordo com Nicolás, a reconciliação de uns com os outros passa pela reflexão pessoal e que se dá na inter-relação entre palavra e silêncio. “Silêncio não é mudismo. O silêncio nutre a palavra. Do silêncio se vai à palavra e da palavra ao silêncio. Nossas universidades são chamadas a entender a relação mútua entre silêncio e palavra, que significam comunhão. As tensões e os paradoxos vividos no Brasil deram às ruas as palavras dos excluídos em silêncio e dos malefícios da globalização”, argumenta.

Nossa responsabilidade

 
 

O papel das universidades jesuítas na sociedade da informação, como ressaltou o Superior, é o de assumir a responsabilidade sobre o mundo e o meio ambiente no sentido de garantir, entre outras coisas, o futuro dos povos indígenas ameaçados pela poluição tóxica e o lixo. “Incentivo nossas universidades a pesquisarem para que seus estudos e investigações produzam resultados práticos em nome da sociedade e do meio ambiente”, disse. “É preciso encontrar caminhos nas pesquisas acadêmicas que beneficiem os pobres, os refugiados e os que defendem as causas ambientais. Devemos ir além de nossa experiência espiritual”, conclui.

Para ele, a transversalidade do conhecimento deve passar pela multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridades com vistas à formação integral da pessoa humana. “Recentemente o pontífice se encontrou com o reitor da Universidade Gregoriana de Roma, e depois se encontrou comigo. Nos dois diálogos ele insistiu na importância da periferia, pois a Igreja se vê melhor desde a periferia e precisa de um centro de reflexão para que seja mais profunda. A mim certamente me animou muito insistir no postulado de garantir o pensamento em um mundo ameaçado pela superficilidade. A tarefa que constitui o substantivo universidade está relacionada à ideia de racionalidade, que designa o domínio das atividades práticas a partir das quais ela mesma se reconhece”, argumenta.

Civilização nascente

“É inerente à missão de uma sociedade confiada à Companhia de Jesus que as necessidades materiais não sejam dadas automaticamente pela natureza ao instinto humano, mas depende da questão histórico-cultural; é fruto de um contexto. A partir da conceituação da sociedade sustentável, a primazia pelo econômico teve suas limitações tornadas mais evidentes, mostrando-se incapaz de abranger os aspectos globais da crise cuja voz ressoou nas ruas do Brasil”, frisa Nicolás ao se referir ao projeto civilizatório calcado na sociabilidade humana voltada à produção e satisfação material.

Ele ressaltou que a nascente civilização tecnocientífica mediante a técnica oferece mil opções aos seres humanos, mas que a humanidade só estará livre à medida que transcender a funcionalidade das coisas e alcançar a liberdade de ser. “Um filósofo francês fala de duas liberdades: horizontal e vertical. A horizontal se refere a termos diariamente que escolher o que tomar no café da manhã – sem transcendência. A liberdade vertical é subir a visada e deixar de ver as coisas fora dos interesses da família, do trabalho, de Deus: é a capacidade de mudar o ponto de vista. Escolher uma coisa ou outra é limitador, a verdadeira liberdade é interior”, defende.

Pesquisa contemporânea

Nicolás ressaltou que a pesquisa contemporânea não se volta à revelação de fenômenos, mas à construção de novos seres com a bioengenharia, que consagra a objetificação do objeto, que passou a povoar o espaço humano. “Significar a inteligência da fé é o esforço de uma compreensão conceitual sem ignorar as virtualidades possíveis. É pelo pensamento científico que

 

se esclarecem as relações da forma da vida ética – a responsabilidade por si e pelo outro, que se situa no dever da estrutura da existência”, frisa.

Encerramento

O encontro encerrou com a apresentação de um octeto da Orquestra Unisinos e com os alunos do projeto Vida com Arte da Ação Social da Unisinos.

 

 

 

 

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