Desigualdade diminui mobilidade econômica

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09 Julho 2013

A elevada e crescente desigualdade de renda nos EUA tem reduzido oportunidades e a mobilidade entre gerações, segundo economistas que acompanham de perto o assunto. Os mais ricos gastam muito mais com os seus filhos do que os mais pobres, e o fosso entre o nível de despesas tem crescido com força nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, o sistema educacional não concentra despesas nos estudantes de famílias com maiores necessidades financeiras.

A reportagem é de Sergio Lamucci, publicada pelo jornal Valor, 08-07-2013.

Estudo do professor Miles Corak, da Universidade de Ottawa, no Canadá, destaca a baixa mobilidade para quem está no topo e na base da distribuição de renda nos EUA. Corak mostra a evolução das chamadas despesas de "enriquecimento" com os filhos realizadas pelos 20% mais ricos e os 20% mais pobres. São gastos com livros, computadores, escola infantil de qualidade e escolas privadas.

No começo dos anos 70, os 20% mais endinheirados destinavam o equivalente a US$ 3.536 por ano com cada filho para essas despesas, pouco mais de quatro vezes o que gastavam os 20% mais pobres. Em meados da década passada, os dispêndios anuais dos 20% mais ricos haviam pulado para US$ 8.872 por criança, quase sete vezes mais que o volume gastos pelos mais pobres. A comparação leva em conta números calculados pelos pesquisadores Greg Duncan e Richard Murnane.

"A capacidade privada para investir em crianças ficou muito mais polarizada nos EUA, ao mesmo tempo em que os gastos públicos não estão compensando essa mudança", disse Corak ao Valor. Os números de gastos com as despesas de "enriquecimento" chamaram a atenção de Paul Krugman, professor de Princeton e Nobel em 2008. "Pode ser que todos esses gastos sejam desperdiçados - mas eu duvido. Nós nos tornamos uma sociedade mais desigual, e também uma sociedade com oportunidades mais desiguais", escreveu Krugman, em seu blog.

Corak ressalta que os EUA gastam um volume de recursos expressivo em educação, mas o dinheiro não favorece os mais pobres. "Com despesas de quase US$ 15 mil por estudante, os EUA gastam mais do que quase todos os países de alta renda. No entanto, o sistema educacional americano não promove a mobilidade na extensão que poderia, porque as despesas tendem a beneficiar quem tem condições econômicas relativamente melhores".

O economista canadense cita um estudo da OCDE mostrando que os EUA são um dos três países da organização que destinam em média menos dinheiro para os estudantes em situação desvantajosa do que para outros estudantes. "Além disso, os melhores professores raramente trabalham nas escolas com mais problemas, o oposto do que ocorre em países com sistemas educacionais de alto desempenho", aponta a OCDE.

O trabalho de Corak tem sido bastante citado como contraponto ao texto "Defendendo o 1%", escrito por Gregory Mankiw, professor da Universidade de Harvard, que foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush. No texto, Mankiw faz a defesa do 1% mais rico da sociedade americana. "A minha leitura é que a maior parte dos muitos ricos conseguem isso por meio de contribuições econômicas substanciais, não por jogar com o sistema ou por se aproveitar de alguma falha de mercado ou do processo político", diz o professor de Harvard.

Mankiw argumenta ainda que mudanças tecnológicas com viés de maior qualificação aumentam a demanda por trabalhadores mais preparados. "Por si mesma, essa força tende a elevar a diferença de rendimento entre trabalhadores qualificados e não qualificados, aumentando, com isso, a desigualdade." O texto de Mankiw será publicado na edição de verão do "Journal of Economic Perspectives" sobre desigualdade e a questão do 1% - o estudo de Corak também fará parte da publicação.

Como Krugman e Corak, o professor Colin Gordon, da Universidade de Iowa, discorda de Mankiw. Ele vê a disparada dos ganhos dos mais ricos como um fenômeno que ganhou força a partir do fim dos anos 1980, liderado por fatores como a crescente desregulamentação financeira e a perda de controle sobre o pagamento dos executivos. Hoje, o 1% mais rico fica com pouco menos de 18% da renda do país, percentual que era um pouco superior a 12,5% em 1989.

Gordon destaca ainda que, especialmente a partir do fim dos anos 1970, os trabalhadores de baixa e média renda perderam espaço, com o declínio dos sindicatos e do salário mínimo em termos reais (descontada a inflação). De 1947 a 1979, o pagamento dos trabalhadores na produção teve aumento real de 97,5%; de 1979 a 2012, houve queda de 1,4%.

No artigo "Economia x política - perigos do aconselhamento de políticas", Daron Acemoglu, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e James Robinson, de Harvard, afirmam que o declínio no nível de sindicalização dos EUA teve várias consequências de economia política, entre elas uma contribuição importante para o aumento da desigualdade de renda.

"Mais especulativamente, também pode ter colaborado para a explosão dos pagamentos a executivos e a rápida desregulamentação financeira".

Acemoglu e Robinson notam que, começando nos anos 1970, políticas que encorajaram o livre comércio aumentaram o nível de competição na economia americana, reduzindo a capacidade de muito sindicatos do setor privado de elevar salários.

Medida do nível de desigualdade na distribuição de renda, o índice de Gini dos EUA mostra uma trajetória de alta clara desde os anos 1980. Em 2011, ficou em 0,477, um nível 18% mais alto que o 0,403 registrado em 1980, segundo números do Escritório do Censo dos EUA. Quanto mais próximo de 1, maior o nível de desigualdade. O indicador americano é superior ao da média dos países desenvolvidos, mas é inferior ao brasileiro. O índice de Gini do Brasil em 2011 ficou em 0,527, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

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