Cúria dividida: Francisco contra o partido romano

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06 Julho 2013

Quatro meses na história bimilenar da Igreja não são um giro de ponteiros. No entanto, para o imutável establishment do outro lado do Tibre, os dias que se passaram desde a renúncia de Joseph Ratzinger (11 de fevereiro) até hoje significaram uma revolução irreversível. Pela primeira vez, a Cúria Romana foi posta para fora do jogo, enfraquecida nos seus poderes. O ponto de ruptura ocorreu com uma decisão de Francisco aparentemente inócua: desertar o terceiro andar do Palácio Apostólico, habitar na residência Santa Marta.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 04-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um simples passo de lado, o do papa, que, no entanto, foi o suficiente para mudar as cartas sobre a mesa, mudar equilíbrios que se consideravam inatacáveis. "Se eu vivesse isolado, isso não me faria bem", disse o papa no dia 7 de junho. Palavras que confirmam que a escolha não foi tomada porque ele considera que o Apartamento seja luxuoso demais, mas sim por motivos estratégicos: lá ele estaria isolado, impossibilitado de governar com a liberdade que ele deseja.

No dia 11 de fevereiro de 2013, a Cúria Romana, poderosa e litigiosa, estava no seu apogeu. Apesar dos escândalos internos, o partido-romano governava com a linha consociativa de sempre: repetidas piscadelas para a margem secular do Tibre, um banco offshore interno capaz de garantir entradas importantes graças ao anonimato oferecido aos clientes mais ricos. Ratzinger, não conseguindo mudar as coisas, põe em andamento a ação de governo mais perturbadora.

Ele renunciou e, de um só golpe, mostrou ao mundo a inadequação de uma estrutura anacrônica, mas, ao mesmo tempo, capaz de se alimentar também contra os interesses da Igreja universal. A tal ponto que o conclave posterior ocorreu totalmente em chave anticurial. Quem pagou o preço disso foi o partido romano: depois de 150 anos, foi eleito ao sólio de Pedro um cardeal proveniente de uma ordem religiosa, um não europeu, pela primeira vez um sul-americano.

Jorge Mario Bergoglio, não deixando os cômodos da residência, dá continuidade ao último gesto poderoso do seu antecessor. A Cúria está confusa. Uma desorientação da qual se teve uma representação plástica no dia 22 de junho: em uma Sala Paulo VI lotada de monsenhores da Cúria para assistir a um concerto de música clássica, a grande cadeira branca do papa permaneceu vazia. Uma ruptura com relação a um mundo que até o último minuto não se deu conta do que estava acontecendo. "Estão dizendo que o papa está chegando a pé de Santa Marta para assistir conosco ao grande concerto", disse confiante Milly Carlucci, convidada para a ocasião.

Enquanto isso, poucos instantes depois, cabia a Dom Rino Fisichella pegar o microfone nas mãos e comunicar a ausência de Bergoglio "por compromissos inadiáveis". Francisco decidiu não se apresentar de última hora, decidiu independentemente de todos, até mesmo do L'Osservatore Romano, que nas mesmas horas em que ocorria o concerto era impresso com a notícia da sua presença.

Nove dias depois, o filme se repete. Faltam sete dias para o encerramento da atividade oficial do papa. Do dia 8 de julho até a viagem ao Brasil (22-29 de julho), todas as audiências estão suspensas. A Cúria se prepara para respirar quando, sem pré-aviso, Francisco anuncia, por meio da Sala de Imprensa e, portanto, passando por cima da Secretaria de Estado, que o seu primeiro dia de férias será em Lampedusa. Uma viagem-relâmpago ao coração do Mediterrâneo que sofre, às margens de uma ilha esquecida por todos, principalmente pelos políticos.

Foi apenas um mês depois da eleição que os curiais se deram conta de que Francisco desertaria o palácio apostólico. Uma conscientização que veio junto com outra decisão perturbadora: a criação de um conselho de oito cardeais encarregado não só de colaborar com o papa na ação de governo, mas também de reformar uma Cúria cujos chefes de dicastério, dentre outras coisas, foram reconfirmados "ad interim".

Oito cardeais para formar um kitchen cabinet em que foi inserido somente um curial, Giuseppe Bertello, presente, no entanto, como expressão do serviço diplomático e não dos próprios dicastérios da Cúria. Quem frequenta as salas do palácio diz que a sede vacante inaugurada pela renúncia de Ratzinger ainda está em vigor.

Os monsenhores vivem dia após dia, conscientes de que no outono europeu a grande reforma terá início. Tarcisio Bertone, secretário de Estado, já encontrou um novo alojamento. Irá habitar em um palacete modesto dedicada a São Bruno, dentro dos muros leoninos. Nisso, ele agiu diferentemente do seu antecessor, Angelo Sodano, que, durante meses, mesmo após a renúncia, permaneceu no grande apartamento situado no palácio apostólico, forçado Bertone a viver como exilado acima dos jardins vaticanos. Ele também, no entanto, assim como Sodano antes dele, tentou resistir à liderança da Secretaria de Estado o máximo possível.

Mas parece que Francisco não o favoreceu. No outono europeu, aquele papel voltará a um diplomata. O escolhido fará com que o "ministério" volte a ser uma mera secretaria papal, como era nas intenções de Paulo VI, quando reformou a Cúria. Não terá mais nenhum papel de mediação com os palácios da política, especialmente os italianos. Tudo isso, dentre outras coisas, pertence já desde agora ao passado. Prova disso é a visita dessa quinta-feira do primeiro-ministro italiano Enrico Letta marcada pela sobriedade.

Francisco em Santa Marta gere a sua agenda sozinho. É ele quem decide quais chefes de Estado irá ver. Os únicos permitidos nos seus aposentos são três sacerdotes: Pe. Alfred Xuereb, Pe. Fabian Pedacchio Leaniz e o Mons. Assunto Scotti. Os dois primeiros o ajudam na secretaria particular. O terceiro, nas missas da manhã.

O papa decide autonomamente também aqueles que ele não vai receber. Entre estes, o arcebispo Adriano Bernardini, embaixador vaticano na Argentina de 2003 a 2011. Próximo de Sodano, quando era embaixador, Bernardini apresentava em em Roma as ternas de nomes para as nomeações episcopais sem quase nunca considerar os candidatos sugeridos por Bergoglio. Entre os dois, em suma, uma certa distância, também de estilo: é espartano o quarto na parte superior do seminário diocesano em que o futuro papa habitava; mais luxuosa, a nunciatura de Bernardini.

Várias vezes Francisco trovejou contra o carreirismo que se aninha nas dobras do episcopado. Para os bispos italianos reunidos na basílica vaticana há um mês e meio, ele proferiu palavras de fogo. Pediu-lhes que se dispam das vestes de princípios da Igreja e vão ao encontro das pessoas. O cardeal Angelo Bagnasco obteve, pouco depois da eleição de Bergoglio, a reconfirmação em seu cargo na Conferência Episcopal Italiana (CEI) até o fim do mandato (2017).

Mas os pactos são claros: muita coisa deve mudar na Igreja italiana. A CEI deve se ocupar do povo de Deus. Não de outra coisa. Certamente, cabe a ela manter as relações com o mundo da política, mas sem buscar favores ou se orgulhar de influências. E principalmente sem dirigir dos bastidores os destinos dos vários governos do país.

É uma Igreja-minoria que o papa quer, apontando para o anúncio do Evangelho (querigma) mais do que ao ensinamento dos princípios. Não por acaso, nesses primeiros meses, ele nunca usou a frase "princípios inegociáveis", que muitas vezes aparecia nos discursos do seu antecessor. E também nunca se deteve nos campos minados que veem a Igreja contraposta à cultura dominante. Aborto, eutanásia, casamento homossexual são palavras que a sua pregação até hoje evitou pronunciar.

A Cúria Romana está esperando. Dois setores, mais do que outros, tremem. O "lobby gay" e o mundo que gira em torno do IOR, o banco vaticano. Bergoglio falou da existência de um "lobby gay" durante uma audiência privada com um grupo de religiosos sul-americanos. Ele estava consciente de que as suas palavras poderiam ser relatadas em um segundo momento ao exterior? Segundo alguns, o grupo religioso sul-americano, que depois as difundiu, poderia ter desempenhado nessa circunstância uma função oficiosa em uma partida efetivamente jogada por Francisco.

Logo, o IOR será reformado.Uma comissão instituída de surpresa pelo papa já levou à demissão do diretor, Paolo Cipriani, e do seu vice, Massimo Tulli. Demitiram-se, certamente, mas nessa quarta-feira eles ainda estavam no seu cargo. Com eles, também o advogado Michele Briamonte, que foi consultor do IOR no período que coincidiu com a demissão de Ettore Gotti Tedeschi. No fim de maio passado, o presidente Ernest von Freyberg declarou que Briamonte não é mais consultor do Instituto. Mas nessa quarta-feira ele estava presente, sinal de que a velha governança custa a se conceber como desautorizada.

É difícil dizer qual julgamento Francisco tem sobre von Freyberg, nomeado por Bertone quando Ratzinger já havia anunciado a sua demissão. Certamente, ele não está contente com a forma pela qual Bertone recrutou outro figurão do mundo financeiro vaticano: o diretor da AIF (Autoridade para a Informação Financeira), René Bruelhart, chamado em novembro passado para tentar resolver os problemas da transparência, ganha 30 mil euros por mês, mais 5 mil de despesas, pela consultoria. Francisco quer uma Igreja pobre e humilde, fiel ao Evangelho sine glossa.

Até mesmo os curiais, na sua veltanschaung, devem fugir do carreirismo. Ele quer pastores ao seu lado, e não funcionários de Estado de carreira.

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