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15 Fevereiro 2013

Bento XVI disse e "mostrou em ato" que a figura eclesial está sempre historicamente em devir. São palavras que sugerem, portanto, a possibilidade de inovar também uma instituição complexa e secular como a Igreja Católica Romana.

A opinião é da teóloga italiana Serena Noceti, professora da Faculdade Teológica da Itália Central, em artigo publicado no jornal L'Unità, 13-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Bento XVI, tendo se tornado papa depois de ter dedicado a sua vida a pensar a fé como teólogo e como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, desenvolveu o seu ministério acima de tudo em torno da força da palavra. A palavra como suporte de um magistério decidido e de autoridade, voltado a definir a doutrina da verdade em um contexto sociocultural, principalmente europeu, de céleres mudanças e de contornos cada vez mais fluidos, em uma modernidade tardia que vê no devir contínuo e na lógica do "outro possível" a figura mais profunda da sua identidade e natureza.

Se o seu antecessor havia confiado ao gesto e a atos simbólicos de impacto imediato, à visibilidade do corpo e não só às palavras, a sua mensagem ao mundo, Joseph Ratzinger, tendo se tornado papa, manteve a palavra (dos textos escritos e da pregação) como meio principal para o seu comunicar.

Na conclusão do seu pontificado, ele põe uma palavra solene "com plena liberdade, declaro renunciar ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro", que – com força performativa – poderia gerar cenários inéditos para a vida da Igreja Católica.

A história registra outros casos de renúncia por parte de pontífices, mas o sentido e o contexto mais profundo dessa passagem devem ser traçados na visão eclesiológica do Concílio Vaticano II, que define, indubitavelmente, um contexto diferente do ocorrido com Celestino V ou para outros papas.

O modo de pensar o episcopado, a relação entre papa e colégio dos bispos, a articulação entre Igrejas locais e Igreja universal (e, portanto, o papel da Cúria Romana) saem do evento conciliar e das páginas dos documentos do Vaticano II profundamente repensados.

Mas a decisão de Bento XVI se coloca ainda mais dentro da profunda mudança ocorrida na autoconsciência eclesial e eclesiológica com o Vaticano II: é uma Igreja que se pensa segundo uma historicidade real. O Vaticano II chamou à permanente renovação e à sempre necessária reforma, porque a Igreja é um sujeito que evolui, cresce, se transforma, cujas formas de existência, de pensamento, de gestão do poder e da autoridade, cujas instituições são todas marcadas pela figura fugaz deste mundo (cf. Lumen gentium, 48).

Diante do que, aos olhos do mundo, parecia, no fundo, em grande parte, inamovível, marcado por uma perenidade de formas e de tradições soldadas pela sua secularidade (e, por isso, largamente incompreensível para muitos, mas certamente reconfortantes em uma civilização da mudança e do risco), a palavra de Bento XVI criou um espaço de interrupção real, deslocante e pedagógica, que evoca uma "possibilidade outra" com relação ao usual, capaz, por isso, de produzir uma mudança real.

Ele disse e "mostrou em ato" que a figura eclesial está sempre historicamente em devir. São palavras que sugerem, portanto, a possibilidade de inovar também uma instituição complexa e secular como a Igreja Católica Romana.

É esse o desafio eclesial ao qual o papa remete, em primeiro lugar, o conclave e os seus sucessores, mas também a Igreja inteira em todos os seus componentes. E a sua palavra-ato reenvia ao coração da reforma necessária: de um lado, a grande questão das modalidades de governo na Igreja, as formas de exercício da colegialidade episcopal e o papel específico dos órgãos que estão a serviço da Igreja universal; de outro, o princípio que regenera a Igreja, o anúncio evangélico.

Porque não é suficiente limitar-se a uma adequação das estruturas e dos institutos já existentes, mas é preciso olhar para os processos, para as dinâmicas, que "fazem a Igreja", e orientar sobre eles a necessária renovação das formas eclesiais. Os processos de reforma nunca são indolores e se deparam com uma natural resistência à mudança que marca todas as grandes instituições, ainda mais aquelas ricas em uma história secular: ceder à tentação de repetir o passado, indultar em prudência, ou limitar-se a uma cauteloso hesitação significaria, no fundo, trair a verdadeira natureza da Igreja.

A escolha do Papa Bento XVI ensina, também nisso, a conjugar a consciência lúcida da fragilidade e do limite à igualmente consciente liberdade e esperança.

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