“O relato policial diz muito sobre a organização social que o produz”, afirma historiadora

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Por: André | 22 Janeiro 2013

Analisar como uma sociedade constrói os relatos sobre a delinquência num determinado período da história é o tema da pesquisa que a historiadora Lila Caimari abordou em três livros de sua autoria: Apenas um delinquente, A cidade e o crime e Enquanto a cidade dorme, seu último trabalho, em que indaga sobre as relações que travam entre si jornalistas e policiais nos anos 1930, e que serão determinantes para as versões sobre “os baixos fundos” que começarão a se difundir na imprensa comercial desses anos. É a época em que aparecem os pistoleiros motorizados, os capangas a serviço dos políticos paroquiais e quando as “forças da ordem” estabelecem a noção territorial que separa a Capital da Região Metropolitana. “É um tempo de forte conflitividade social e política, e os relatos policiais começam a ser redigidos com um jargão eufemístico que opera como um forte legitimador do comportamento repressivo da instituição”, explica esta acadêmica nascida em Río Negro e graduada na Universidade de La Plata, doutora no Instituto de Estudos Políticos de Paris e pesquisadora do Conicet, que, além disso, é professora da Pós-Graduação na Universidade de San Andrés. “O trabalho da polícia diz muito sobre uma organização social”, assinala Caimari.

A entrevista é de Leonardo Castillo e está publicada no jornal argentino Página/12, 15-01-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em Enquanto a cidade dorme, você analisa a evolução do crime e como é refletido pelo relato policial e pelo jornalismo nos anos 1930. Por que se interessou por este período?

É um recorte que se impôs de forma praticamente inesperada. Eu acabava de pesquisar durante anos uma série de problemas referentes à questão criminal e o surgimento das teorias positivistas vinculadas ao seu tratamento, sobretudo no tema carcerário e penal. Me interessava como esse tema era tratado pelo jornalismo comercial que emergia no final do século XIX e começo do século XX. É nesse período que surge a problemática do imigrante como um sujeito “perigoso” no marco de crescentes núcleos urbanos. É o tempo do lombrosianismo [relativo a Cesare Lombroso (1835-1909), psicopatologista e criminologista italiano] e de concepções similares que buscam na história pessoal do delinquente as razões que o levavam a violar a lei. Analisando as incipientes seções policiais dos jornais da época, encontrava-se muito material que permitia uma abordagem sobre esta problemática, embora fosse feita a partir de uma perspectiva folhetinesca. Com isso, trabalhei sobre o entrecruzamento que se dava entre o crime, a ciência e o relato da imprensa escrita. Esse foi o tópico que abordei em Apenas um delinquente, que foi publicado em 2004. Mas o que comecei a notar quando estava terminando esse projeto foi que nos anos 1920 se produz uma mudança naquilo que é a figura dominante do delinquente representado no imaginário coletivo. Aparece o pistoleiro motorizado, em definhamento da briga marginal dos subúrbios. Aí notei que havia um processo interessante que podia mostrar como se iam gestando mudanças na polícia e no trabalho dos jornalistas que cobriam as ocorrências policiais. Foi isso que tentei refletir em Enquanto a cidade dorme.

Como muda nesses anos o relato da imprensa escrita em relação ao crime?

No relato da mídia aparece a noção de uma cidade de Buenos Aires como transbordada, invadida por gente que veio de outros lugares e carece de uma ocupação estável. Percebe-se a construção de uma alteridade social, algo que é preciso cuidar. Paralelamente, nos anos 1930 há uma convergência muito forte de fenômenos políticos e sociais tingidos de práticas violentas. É algo que está relacionado com a resistência ao golpe de José Félix Uriburu e os levantamentos radicais. Por outro lado, registra-se um forte aumento da violência do Estado. Há perseguições e execuções que têm como alvo comunistas e anarquistas expropriadores. Este repertório da violência vai se dilatando também para a política paroquial, onde aparecem personagens armados, guarda-costas, capangas, enfim, pistoleiros arregimentados pelos caudilhos locais. Ruggierito, um caudilho local a serviço do intendente de Avellaneda, Alberto Barceló, é uma figura emblemática daqueles tempos de política brava. São as questões que a imprensa começa a refletir nas crônicas policiais, que ganham cada vez mais espaço nas páginas dos jornais.

A cobertura dos fatos policiais começa a tornar-se sensacionalista?

Na realidade, a exploração do fato policial por parte da imprensa é um fenômeno próprio do jornalismo comercial. Sempre existiu. Hoje se critica o fato de que a mídia dê tanta repercussão aos crimes, mas, a rigor, as coisas nunca foram muito diferentes. É um fenômeno que se verifica não apenas em Buenos Aires, é algo comum às grandes urbes. As histórias e crônicas sobre o crime vendem bem, e isto é algo que também acontecia nos anos 1930.

Nesses anos o crime começa a ser entendido como uma forma de ascender socialmente?

O aparecimento de armas mais sofisticadas, leves e automáticas, juntamente com a irrupção do automóvel, permitem a realização de golpes cada vez mais espetaculares. O crime muda, passa-se da briga ao assaltante que age em quadrilha. Emerge o pistoleiro motorizado. São os tempos de personagens emblemáticos, como o Pibe Cabeza. Os assaltos tornam-se espetaculares e planejados. É um processo que pode ter feito com que alguns sujeitos passassem do crime de pouca importância aos grandes assaltos. Desse ponto de vista, pode-se dizer que há no crime uma busca de ascensão social, que, além disso, está refletido no cinema da época, sobretudo nas produções de Hollywood.

Neste último livro, você conta como nesses anos se começa a marcar também a oposição entre a Capital Federal e a Região Metropolitana de Buenos Aires em termos territoriais e culturais. Por que se produz esse fenômeno?

Essa oposição entre ambos os territórios está hoje muito naturalizada, mas nem sempre existiu e se iniciou como construção nesse período. Tem a ver com as mudanças urbanas que ocorrem, fundamentalmente, pela imigração que provém do interior do país, alentadas por um processo incipiente de industrialização, que depois, na segunda metade de 1940, com o peronismo, vai ganhar muita força. Mas a divisão entre a cidade e a região metropolitana está organizada em algo mais concreto, e é uma mudança nas práticas policiais sobre o território que vigia. Só na década de 1930, a Polícia da Capital (o antecedente da Federal) desenha um organograma que lhe permite administrar sua área de intervenção. Fixam-se limites, e o que vem de fora da General Paz é visto como um problema, algo que se deve vigiar, manter na linha. Em definitiva, esta ação da polícia termina sendo filtrada para o trabalho dos jornalistas, que também começam a perceber a região metropolitana como algo externo.

E como se insere aqui a figura do pistoleiro?

É uma figura que acaba sendo muito funcional a todo este processo. Os pistoleiros começam a ser descritos como personagens que vêm de fora da cidade, dos subúrbios, e chegam para delinquir. Nas crônicas começa a estar presente a ideia de que Buenos Aires é um lugar rodeado de zonas de baixa legalidade. A região metropolitana é descrita na imprensa como uma zona de anomia, de baixa estatalidade, onde os efetivos da polícia bonaerense não respondem aos comandos de La Plata, mas às lógicas de caixa impostos pelos caudilhos locais, sobretudo na zona de Avellaneda, Lanús e na região Norte. São lugares próximos à Capital onde se instalam indústrias e se registra um alto grau de conflitividade social, mas também se desenvolvem circuitos do ócio, vinculados à prostituição e ao jogo clandestino, que são muito concorridos pelos portenhos.

Muda então a noção territorial dos “baixos fundos”?

Efetivamente, até então, o circuito de marginalidade ociosa se encontrava no porto da cidade. Mas a partir dos anos 1930, desloca-se para a região metropolitana. É um processo real, mas que também vai se construindo na medida em que a polícia da Capital começa a se mostrar mais eficiente, profissional, em comparação com a ineficiência de seus colegas bonaerenses. E essa é uma construção exitosa, que persiste até nossos dias, sobretudo pelas grandes deficiências históricas que a Polícia da Província sempre exibiu para se organizar e controlar sua jurisdição. A noção da profissionalidade da Federal origina-se nesse período e é o que tentei refletir.

A figura do vigilante da esquina, como um agente estatal paternalista e amigo dos moradores do bairro, também é algo que se origina nessa época?

É uma figura associada ao crescimento dos bairros portenhos e ao desenvolvimento policial. É um personagem despolitizado, horizontal, que se encontrava em permanente contato com os moradores, mas que exercia uma forte presença territorial, a ponto de conhecer tudo o que acontecia no bairro. São tempos de torturas, perseguição e aplicação da Lei de Residência, que permitia a expulsão dos estrangeiros que exerciam atividades políticas. Então, utiliza-se o vigilante como uma contrafigura com o propósito de criar mística na tropa que se incorpora à força e lançar uma ponte de reconciliação com a sociedade.

Quais são as outras estratégias de proximidade desenvolvidas pela polícia?

É interessante ver como a polícia, em suas comunicações e sumários, vai se apropriando da linguagem popular para gerar empatia com a população. É uma maneira de minimizar o impacto das denúncias de corrupção que são formuladas, fundamentalmente, pelo jornal Crítica. Mas a relação que se estabelece entre o jornalismo e a polícia nem sempre foi conflitiva. É certo que os vínculos variam em função da ideologia de cada jornal, mas muitas vezes se estabeleceu um casamento por conveniência que estimo que ainda deve estar vigente.

Que relação estabeleceu com a polícia o jornal Crítica, dirigido pelo Natalio Botana?

É um jornal que explorou como nenhum outro a informação policial. Era um sensacionalismo que muitas vezes tinha um requinte carnavalesco. As notas eram acompanhadas de historinhas, fotonovelas e até elementos ficcionais. Crítica era o jornal do povo e muitas vezes, a partir dele encabeçava as denúncias contra a polícia, que estavam a cargo dos vários escritores de esquerda que trabalhavam em sua redação. Mas ao analisar a produção do Crítica, percebe-se que teve que se prover de muita informação que era fornecida pelos canais institucionais da polícia, e isso era algo que acontecia também com os outros jornais.

Essa vinculação de trabalho entre a polícia e o jornalismo surge nos anos 1930?

Na realidade é mais antiga. No final do século XIX, quando foi construído o edifício central da Polícia, na rua Moreno, já havia uma sala de jornalistas. Esse era um dado da modernidade. A instituição entende que deve lidar com o jornalismo e que é conveniente dar-lhe um lugar. Assim é como se estabelecem relações profissionais entre policiais e jornalistas, para além dos conflitos que podem surgir. É que a polícia está parada na cova de Ali Babá, do que são as histórias truculentas e obscuras que o jornalismo comercial ambiciona conseguir, que, por sua vez, tem a potestade de potencializar ou arruinar a carreira de vários oficiais em ascensão. Essa é a natureza do vínculo que se funda.

Quais são as coisas que a polícia diz sem se dar conta e que aparecem estampados nos jornais?

Me parece que é tudo aquilo que se conta quando a polícia não tenta convencer de que na realidade aconteceu outra coisa. Na grande nota ou nas novidades, o discurso policial aparece mediado pelo relato dos jornalistas. Ao contrário, nas informações menores, que dão conta de crimes menores, o discurso da força aparece de forma mais direta e ali se filtra o olhar policial, que é sumamente anedótico. É aí onde me interessa aprofundar para conhecer o ponto de vista da instituição. Ali emerge com maior clareza a ideologia policial, que internamente impõe o espírito de corpo, uma concepção que, por exemplo, serve para justificar as repressões a trabalhadores organizados. É uma construção muito artificiosa, em que se nota muito argumento e história e também a utilização de um jargão eufemístico fortemente legitimador.

É essa construção interna que vai justificar a repressão que se aplica depois do golpe militar de 6 de setembro de 1930, que derrocou Hipólito Yregoyen?

Sim, começa com Uriburu, mas se consolida graças a uma reforma realizada durante o governo de Agustín P. Justo, que chega ao poder mediante a fraude eleitoral, em 1932. Outorga-se à polícia a potestade de aplicar editos que se empregam para exercer a repressão. Aí se nota como as normativas urbanas são utilizadas para desenvolver um férreo controle social. E isso vai perdurar através das décadas posteriores.

É então que surgem as cooperadoras policiais?

Sim. É através das cooperadoras e das coletas que se financia o custo dessa reforma policial. A Bolsa de Comércio de Buenos Aires e diversas câmaras empresariais contribuem com grandes somas para equipar a polícia da Capital. É uma forte reação aos grandes assaltos a bancos e roubos de pagadores e aos crescentes conflitos envolvendo operários. Mas também são feitas coletas nos bairros para dotar de mais pessoal as comissárias. Isso nos demonstra que a sociedade não é um sujeito passivo diante do poder coercitivo do Estado. Houve, nos anos 1930, muita repressão, mas também muitos pedidos para que a repressão fosse exercida.

É difícil ter acesso aos arquivos policiais?

Realmente. Diria que é mais fácil para um historiador ter acesso ao material sobre a época colonial do que à documentação guardada pela Federal, que é uma organização muito zelosa de resguardar seu passado. Na Argentina, é muito difícil construir uma histografia sobre a polícia, é algo que também se verifica em outros países. Mesmo assim, vale a pena o esforço. O relato policial diz muito sobre a organização social que o produz.

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