Jesuíta de 92 anos é penalizado após participar de liturgia eucarística com sacerdotisa

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06 Dezembro 2012

Um padre católico que participou de uma liturgia eucarística com uma sacerdotisa no mês passado recebeu ordens de não celebrar mais a missa ou desempenhar outras funções sacerdotais.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 03-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre jesuíta Bill Brennan, de 92 anos de idade, de Milwaukee, disse que o superior de sua comunidade religiosa lhe alertou sobre as restrições no dia 29 de novembro, dizendo que elas vieram a pedido do arcebispo Jerome Listecki.

Brennan, um pároco aposentado e ex-missionário no Belize, participou de uma liturgia no dia 17 de novembro com Janice Sevre-Duszynska, uma mulher ordenada no movimento Association of Roman Catholic Women Priests.

Brennan disse que ele estava hesitante para confirmar a notícia a respeito da perda de suas faculdades porque também foi ordenado a não falar com a imprensa.

"Eu estou colocando em risco a minha existência na ordem jesuíta ao conversar com você", disse Brennan ao NCR. "Mas se eu cometi um pecado grave o arcebispo deve ser responsável para me condenar. Ele deve se pronunciar e ser responsável por isso".

Brennan disse que as restrições incluem:

  • Suspensão das faculdades sacerdotais, proibindo-o de realizar quaisquer funções sacerdotais em público;
  • Evitar o contato com a mídia "através de telefone, e-mail, ou qualquer outro meio";
  • Não aparecer como jesuíta em quaisquer "reuniões, protestos ou manifestações públicas";
  • Não deixar a área de Milwaukee "por motivo algum" sem a permissão do seu superior.

Brennan disse que não teve nenhuma comunicação formal com Listecki.

Jeremy Langford, diretor de comunicações para a província dos jesuítas de Chicago-Detroit, que está se fundindo com a província de Wisconsin, disse em um comunicado na última segunda-feira que a ordem removeu as faculdades sacerdotais de Brennan "após uma conversa com a arquidiocese de Milwaukee".

Os jesuítas "não aprovam nem ratificam" a liturgia eucarística de novembro e "lamentam a participação do Pe. Brennan nela", diz a declaração.

"A província de Wisconsin não tem nenhum plano de tomar qualquer ação adicional", disse Langford em uma entrevista, chamando Brennan de um "jesuíta maravilhoso" que "lutou por grande causas por toda a sua vida".

Julie Wolf, diretora de comunicações da arquidiocese de Milwaukee, disse que as restrições a Brennan foram uma "decisão mutuamente acordada" entre Listecki e o provincial jesuíta de Brennan, o Pe. Tom Lawler.

Brennan comparou o seu apoio à ordenação de mulheres ao apoio ao sufrágio das mulheres: ele lembra que, uma vez, sua mãe não podia votar.

"Eu nasci em 1920", disse Brennan. "Durante todo o tempo que minha mãe me carregou e durante os seis meses depois, ela não podia votar. Essa é a iniciativa real na minha atitude com relação à ordenação de mulheres".

Brennan disse compreender os argumentos de que as mulheres não têm o direito de ordenação e disse que a ordenação é um "privilégio que é concedido aos homens".

"Por que ele não é concedido a ambos?", perguntou o padre. "E a abordagem fundamental que eu tenho é que, afinal de contas, as mulheres têm um papel eminente a desempenhar no trabalho de criação das crianças junto dos homens. E o processo de santificação? Elas não têm nenhuma participação na pregação do Evangelho?".

O Vaticano rotula a ordenação de mulheres na Igreja Católica como uma grave ofensa e diz que os participantes são excomungados latae sententiae, ou automaticamente. A carta do Papa João Paulo II de 1994, Ordinatio Sacerdotalis, efetivamente proibiu a discussão sobre a questão, dizendo que o ensino da Igreja sobre o assunto devia ser "considerado como definitivo por todos os fiéis da Igreja".

Antes de decidir participar na liturgia de novembro, Brennan disse ter discutido o assunto com Lawler. O convite para se unir a Sevre-Duszynska na liturgia estava lhe causando um "problema de consciência real e genuíno", disse Brennan a Lawler.

"Eu não estou tentando desafiar a Igreja", disse Brennan a Lawler, acrescentando que ele vê a ordenação de mulheres como uma questão legítima. "Por que esse privilégio de celebrar a missa e de pregar é um privilégio exclusivo do sexo masculino? De onde tiramos isso? Não vale a pena discutir isso?".

Lawler lhe disse para não participar da liturgia, comentou Brennan.

"Na época, eu ainda estava lutando para tentar decidir o que eu queria fazer, porque, obviamente, eu sabia que eu poderia acabar fora da ordem jesuíta", disse Brennan. "Mas eu senti que esse era um problema terreno, e você não pode acobertar isso com ditames espirituais ou autoritários".

SOA Watch

Roy Bourgeois, outro sacerdote que apoia a ordenação de mulheres, foi notificado sobre a sua dispensa da sua ordem religiosa, os Padres e Irmãos Maryknoll, devido à mesma questão no dia 19 de novembro.

Bourgeois, que atuava com os maryknoll há 45 anos, entrou em uma polêmica com a sua ordem pela primeira vez depois de ter participado da ordenação de Sevre-Duszynska no grupo Womenpriests em 2008.

A Roman Catholic Women Priests é uma iniciativa internacional que ordena tanto homens quanto mulheres. Ela conta entre seus membros com mais de 150 mulheres que foram ordenadas sacerdotisas e bispas pela organização desde que ela começou em 2002.

Brennan copresidiu uma liturgia com Sevre-Duszynska durante o encontro anual do SOA Watch, um grupo fundado por Bourgeois em 1990 para protestar contra uma escola de treinamento das Forças Armadas dos EUA em Fort Benning, Geórgia, anteriormente conhecida como Escola das Américas.

O encontro do SOA Watch, que ocorre em Columbus, Geórgia, a cada novembro, pede o fechamento da escola militar, agora conhecida como Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança. No passado, a escola esteve envolvida em abusos dos direitos humanos na América Latina.

Sevre-Duszynska disse que a ideia de pedir a Brennan para participar da liturgia surgiu inicialmente no encontro do SOA Watch do ano passado, onde ela havia celebrado uma liturgia semelhante com o padre franciscano Jerry Zawada.

Sevre-Duszynska se lembra do seu encontro com Brennan no encontro do SOA Watch em 2010, disse ela, quando os dois faziam parte de um grupo de 29 pessoas que foram presas do lado de fora dos portões de Fort Benning (onde funciona a Escola das Américas) por saírem de uma área designada para o protesto.

A liturgia no evento deste ano foi dedicada às pessoas que correm o risco de prisão por questões de consciência, "que dedicaram suas vidas a trazer o Reino aqui na Terra", disse Sevre-Duszynska.

Natural de Milwaukee, Brennan trabalhou por 17 anos no Belize, quando o país ainda era uma colônia britânica, conhecida como British Honduras. Depois disso, ele atuou nas paróquias da região de Milwaukee, principalmente com as comunidades latinas.

Perguntado se ele estava preocupado com outras restrições que poderiam ocorrer contra ele devido ao seu apoio à ordenação de mulheres, Brennan disse: "Quando você tem um problema de consciência, você tem que seguir a sua consciência e, depois, assumir as consequências. Eu tenho que arcar com as consequências".

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