Gabriele. O perdão pode esperar

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Por: André | 27 Outubro 2012

O comunicado insolitamente duro que a Secretaria de Estado divulgou após as 14h de hoje [25 de outubro] acompanhado pelo anúncio de que Paolo Gabriele retornando à prisão após receber a sentença definitiva de condenação, surpreendeu muitos observadores, não apenas a advogada de “Paoletto”, Cristiana Arru, e a própria família do ex-mordomo do Papa.

A reportagem é de Andrea Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 25-10-2012. A tradução é do Cepat.

Pelas informações obtidas pelo Vatican Insider, os conteúdos e o tom duro do comunicado da Secretaria de Estado representariam uma resposta a alguns artigos e comentários que foram publicados depois da sentença de 06 de outubro. Ao falar com os jornalistas sobre a sentença de condenação recém pronunciada, o padre Federico Lombardi definiu como “muito concreta” a possibilidade da clemência papal. Efetivamente, nos últimos dias no Vaticano circula o rumor de que Bento XVI há havia tomado uma decisão e que a incógnita era quando a comunicaria. Depois das palavras do porta-voz vaticano, a graça estava dada como certa. Mas evidentemente não era assim.

A interpretação “positiva” de alguns artigos e o fato de que a sentença de três anos foi sensivelmente reduzida, além da circulação de algumas hipóteses sobre a possibilidade de que Gabriele teria continuado a trabalhar no Vaticano, pareciam minimizar muito as responsabilidades do ex-mordomo do Papa, segundo os responsáveis da Secretaria de Estado. Por isso, a dois dias da publicação da sentença, que inclusive reconhece certa “boa fé” por parte de Gabriele, chega a nota seca de hoje.

Uma declaração na qual se precisa que não se pode menosprezar de maneira alguma tudo o que o ex-mordomo fez, porque “houve uma ofensa pessoal ao Santo Padre; violou-se o direito à reserva de muitas pessoas que haviam se dirigido ao Papa em razão das funções que desempenham; prejudicou-se a Santa Sé e as suas instituições; obstaculizou-se as comunicações entre os bispos do mundo e a Santa Sé causou escândalo à comunidade dos fiéis. Enfim, por um período de diversos meses se turvou a serenidade da comunidade de trabalho que diariamente está a serviço do Sucessor de Pedro”. Claro, quanto ao “escândalo à comunidade dos fiéis” poderíamos nos perguntar se não contribuiu de alguma maneira, além do gesto de Gabriele, o próprio conteúdo de alguns documentos publicados.

Na nota da Secretaria de Estado se recorda, falando sobre a graça papal, que é “um ato soberano do Santo Padre” (e como tal não estaria sujeito a pré-condições), mas imediatamente depois se indica que “Não obstante, a mesma pressupõe, razoavelmente, o arrependimento do réu e o pedido sincero de perdão ao Sumo Pontífice e a quantos foram ofendidos injustamente”. É preciso supor, evidentemente, que cada uma das palavras deste comunicado foi aprovada por Bento XVI.

De tudo isto se deduz que a carta que o mordomo escreveu ao Papa (disso falou o advogado Carlo Fusco, antes de abandonar a defesa de seu cliente) não é suficiente. Gabriele, além disso, deve pedir perdão aos demais afetados; em primeiro lugar, o cardeal Secretário de Estado, Tarcisio Bertone, verdadeiro alvo dos “vatileaks”. “O que sinto fortemente dentro de mim – havia dito o ex-mordomo ao final do processo – é a convicção de ter agido por exclusivo e visceral amor pela Igreja de Cristo e por seu líder visível, e, se o devo repetir, não me sinto um ladrão”.

Assim, pois, o comunicado de hoje manifesta uma evidente vontade de mandar uma mensagem forte para corrigir algumas interpretações midiáticas e recordar a gravidade do sucedido e do que fez Gabriele. E também se esclarece que o perdão papal não deve ser dado como certo (e, pelo que parece, o Papa ainda não tomou nenhuma decisão), embora possa ser considerado como uma possibilidade. Esta também é a linha do anúncio, contida na nota, da “demissão” de Gabriele, que não poderá voltar a trabalhar no Vaticano. O esclarecimento de hoje concentra-se na justiça, não na graça. Esta nota da Secretaria de Estado parece, justamente, um comunicado “de Estado” que pretende desmentir as interpretações que dão muito espaço à hipótese do perdão.

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