O mistério na concretude da existência. Uma leitura a partir de Inácio de Loyola

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04 Outubro 2012

ensar o Mistério da Igreja hoje, partindo da experiência de Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Este foi o tema da conferência do filósofo francês Paul Valadier (foto abaixo) na tarde desta quinta-feira, 04-10-2012, dando prosseguimento às atividades do XIII Simpósio Internacional IHU – Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica.

Logo no início de sua conferência, Valadier alertou para a necessidade de se atentar para uma
interpretação ligada à história e ao contexto de vida de Inácio de Loyola (1491-1556). É preciso compreendê-lo como um homem de seu tempo, reiterou. Nascido no final do século XV, o jesuíta viveu em um período de crise epocal, marcado por uma transformação profunda do mundo e da igreja. Sua perspectiva insere-se nessa erupção de mudanças radicais, observa Valadier. Para isso, basta lembrar que em 1492 deu-se a descoberta do “novo mundo”, do ponto de vista da Europa que saía aos mares e encontrava povos autóctones em outros continentes, como na América. Essa abertura ao diferente para o velho mundo trazia consigo uma revolução radical para uma cristandade unificada da Idade Média. “Descobrir novas terras com suas culturas tinha um sentido importante para a cristandade, e constituía uma transformação mental difícil de entender. A cristandade, que antes era o centro do mundo, foi descentrada nesse momento”, frisa Valadier.

O Mistério em um paradoxo

É nessa perspectiva que devemos compreender o mundo de Inácio de Loyola. A cristandade é destronada e está, inexoravelmente, dividida pela reforma protestante e calvinista, além de sacudida pela contra reforma católica. Isso constituiu uma divisão cultural e espiritual grandiosa. Outro elemento que deve ser considerado na perspectiva inaciana é que se trata de um período atravessado por fortes guerras de espiritualidade, com uma incisiva influência do Iluminismo. Inácio será, inclusive, acusado de fazer parte dos “iluminados”. Ele poderia até mesmo ser abordado pela Inquisição em função de oferecer os Exercícios Espirituais para pessoas de fora da Igreja.

Inácio insistia na obediência à estrutura hierárquica da igreja, e preocupava-se em ser fiel a ela. Ele não pensava no Mistério em primeiro lugar para não “cair na armadilha” do Iluminismo. Então, propõe que o Mistério da Igreja deveria ser lido numa igreja humana e, portanto, pecadora. A glória de Deus está no rosto do Crucificado, propunha. Isso é mais do que um paradoxo, mas um escândalo. Para Inácio, contudo, o Mistério aparece nessa instituição desviada, pecadora e infiel que é a igreja romana.

Corações transformados

Inácio está consciente do estado corrompido da igreja. Ele sofreu com isso, pois foi levado à prisão. Se ele quisesse ser classificado de modo diferente dos iluminados, precisaria estudar teologia, ser padre e rezar missas. O sacerdócio era, então, uma espécie de carimbo no rosto, pondera Valadier. “Se você é padre, então estaria autorizado a falar. Consciente desse estado de corrupção da igreja, o fundador da Companhia de Jesus insiste na conversão interna, na busca da vontade de Deus em si mesmo. E isso parece se um dos pontos fulcrais dos Exercícios Espirituais. Contudo, trata-se de um aspecto da espiritualidade inaciana”, acrescenta.

Aquele que começa os Exercícios sabe que é pecador, que sua vida não está ordenada de acordo com a vontade de Deus, mas passa a tentar fazê-lo. Essa pessoa é, ao mesmo tempo, pecadora e corrupta, mas não se resigna a essa situação de pecado, pois sabe que a graça de Deus pode alcança-lo e fazê-lo se transformar.

Para Inácio, a reforma da igreja não é algo estrutural, da instituição. A corrupção da igreja e seu pecado são inegáveis, mas não se trata apenas disso. É preciso transformar os corações. Se a igreja é pecadora, é porque não é fiel à mensagem de Cristo. Isso é um contra testemunho.

Mistério descentrado

Há um segundo ponto de insistência de Inácio, e ainda mais forte. Ele dirigiu-se à hierarquia da igreja romana não para criticar ou combater Lutero, mas para lembrar-lhe a vocação apostólica da instituição. Nesse ponto, Valadier cita a perspectiva de se colocar a serviço do Papa. “Não avaliamos bem o quanto estranho e escandaloso isso possa ter parecido àquela época”. Então, Inácio apela ao corrupto que é o chefe da igreja para que ele designe a missão evangelizadora. Não se trata de fidelidade à pessoa do Papa. O sucessor de Pedro tem a tarefa de dar a missão de descentragem de si mesmo.

Tendo isso em vista, Inácio é um homem da igreja, um jesuíta, que chama a instituição a olhar para além de si mesma. Acredito que essa dupla insistência na conversão esteja enraizada no Mistério para descentrá-lo.

Conhecimento das paixões

Outro motivo que faz de Inácio um homem moderno é o fato de que sua espiritualidade está em buscar o espírito de Deus através da condição humana. Uma de suas grandes originalidades é levar a sério sua humanidade para ordená-la de acordo com o espírito de Cristo. Em outras palavras, não se trata de abstrair a condição e o fato de alguém ser mulher ou homem, se tem saúde, ou não. Santo Inácio pensa tão profundamente em levar a sério essa humanidade que os Exercícios Espirituais consistem em analisar seus afetos, pulsões, prazeres, tentações, toda afetividade e psicologia. Não se trata de orar para Deus e deixar de lado suas paixões. O discernimento passa pelo conhecimento de suas paixões, em levar em conta a si mesmo. Isso é uma abertura para a humanidade, levando o homem a sério em sua própria condição. E tal postura se coloca contra o Iluminismo. “A meu ver, aí está a fonte do humanismo inaciano, postando-se contra o Iluminismo. É através da humanidade que descobrimos o santo espírito”.

Tensão permanente

Uma pergunta de cunho notadamente inaciano é questionar-se sobre o que Deus quer de nós na condição em que nos encontramos. Inácio insiste muito na vontade humana através de seus afetos e tentações, devendo ser aí lida a vontade de Deus. É através de minha humanidade que descobrirei, eventualmente, a vontade de Deus. Para Inácio, a graça não cai em cima de alguém, exceto de São Paulo no caminho de Damasco.

O mistério da nossa vocação pessoal é outro aspecto fundamental de Inácio. É preciso abrir-se a esse mistério levando em consideração nossa situação concreta. Trata-se do apelo de Deus para os talentos individuais. O mistério está em descobrir tal talento e aplicá-lo. Cada um deve aplicar seus talentos e assim se descobre o mistério da sua própria vida. Porém, vale lembrar, “não caímos imediatamente na santidade de Deus, mas buscamos vivê-la”.

Valadier finalizou sua exposição argumentando que a vida cristã é feita de tensão permanente e fecunda, pois vive na concretude da existência. É preciso ser humano e buscar, ainda, o espírito de Cristo.

Reportagem: Márcia Junges

Quem é Paul Valadier

Professor emérito de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres), Valadier é licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Escreveu, entre outros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010) e Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001).

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Paul Valadier
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 127 da Revista IHU On-Line, de 13-12-2004

* O futuro da autonomia, política e niilismo. Publicada na edição 220 da Revista IHU On-Line, de 21-05-2007

* “A esquerda francesa está perdida”. Publicada nas Notícias do Dia do site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 27-05-2007

* Narrar Deus no horizonte do niilismo: a reviviscência do divino. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009

* O desejo e a espontaneidade capciosa. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009

* A intransigência e os limites do compromisso. Publicada na edição 354 da Revista IHU On-Line, de 20-10-2010

* A filosofia precisa de mais audácia. Publicada na edição 379 da Revista IHU On-Line, de 07-11-2011

* “A Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio o pluralismo”. Publicada na edição 403 da Revista IHU On-Line, de 24-09-2012

 

Baú da IHU On-Line

Paul Valadier tem duas publicações pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 15 dos Cadernos IHU em Formação

* A moral após o individualismo: a anarquia dos valores. Publicada na edição 31 dos Cadernos Teologia Pública

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