As homilias inéditas de Martini

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12 Setembro 2012

Há todo o esforço tenaz e incessante de anunciar a Palavra de Deus, realizado quase até o fim, quando a progressão da doença o obrigou inexoravelmente à afasia, nas últimas homilias do cardeal Carlo Maria Martini.

A reportagem é do sítio Vatican Insider, 11-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Recolhidas e publicadas pela editora Mondadori no livro Colti da stupore. Incontri con Gesu [Tomados de estupor. Encontros com Jesus], nas livrarias italiana a partir dessa quarta-feira, as homilias, até agora inéditas, pronunciadas a partir de 2008 na casa dos jesuítas de Gallarate, contam as últimas meditações da Palavra de Deus do ex-arcebispo de Milão, fino biblista.

Elas se tornam cada vez mais breves, com o passar do tempo, quanto mais esforço requerem a Martini para serem lidas. Nem por isso a síntese tira força da mensagem.

Elas abordam os temas mais variados, da necessária solidariedade para com os pobres aos riscos relacionados com a "tentação do bem aparente", passando pelo uso equivocado da religião para justificar a violência, pela corrupção que se insinua até mesmo dentro da Igreja. E há também um apelo urgente dirigido à humanidade pelo cardeal Martini contra "desastrosas críticas e divisões" que não nos permitem amar "todos os nossos companheiros de viagem" e nos levam "ao conflito". Um apelo que parece idealmente lançado também para a Igreja em seu interior. E que, lido posteriormente, parece quase se referir até às polêmicas e às divergências surgidas sobre a própria figura do teólogo jesuíta à sua morte.

É uma das últimas homilias de Martini, pronunciada em uma das missas dominicais abertas ao público, sempre repletas de fiéis apesar do avanço da idade e da doença do cardeal. Comentando um trecho do Evangelho, o ex-arcebispo de Milão analisa a "sensação que nos toma quando percebemos que estamos no barco com Jesus", "a mesma que nos toma quando alargamos o olhar e nos damos conta de que, na realidade, os nossos companheiros de viagem são muitos outros homens e mulheres, todos aqueles que, de algum modo, tocam a nossa vida".

"É melhor – exorta Martini, que, na mesma homilia, também lembra o seu encontro com um dirigente de fábrica agredido pelas Brigadas Vermelhas – viver em paz com os companheiros de viagem, quem quer que sejam, aprendendo a conhecê-los, apoiá-los e, se possível, até mesmo amá-los. Seria perigoso, inconclusivo e, finalmente, desastroso – destaca – perder-nos em críticas e divisões que nos levariam a viver essa viagem com um contínuo conflito".

Em outra homilia, Martini, referindo-se à figura de Judas, explica que "a corrupção pode penetrar em toda parte, até mesmo nos lugares mais santos. Mas também nos damos conta da existência de certas críticas hipócritas, que têm o objetivo de mascarar a própria culpa".

O esforço de Martini para não se render à doença e levar adiante a sua pregação também é evidenciado pelo editor do livro. "Eu sou uma testemunha – escreve Damiano Modena [padre e secretário pessoal do cardeal Martini] no prefácio – de quanto esforço físico e de quanto sofrimento espiritual custou e custa ao cardeal Martini essa afonia, que foi lentamente piorando até a decisão, depois da homilia da Páscoa de 2010, de não celebrar mais a missa em público. Mas eu também sou testemunha da luta cotidiana, da força de vontade extraordinária, da tenaz serenidade com que, todos os dias, o cardeal rouba vida da doença e dos seus efeitos colaterais, para depois restituí-la sorrindo, em um ato de entrega e de abandono à vontade de Deus".

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