Número de homicídios cresce 300% em cinco anos no México

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25 Agosto 2012

Crimes entre traficantes de drogas, assassinatos entre familiares, entre vizinhos, rixas fatais... Até onde irá a onda de violência que toma conta do México? Em 2011, 27.199 mexicanos foram assassinados, segundo um relatório publicado na última segunda-feira (20) pelo Instituto Nacional de Estatísticas e de Geografia (Inegi). Em cinco anos, a alta dos homicídios chegou a 306%!

A reportagem é de Frédéric Saliba, publicada no Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 24-08-2012.

Essa explosão macabra dos números corresponde à ofensiva lançada, no final de 2006, pelo presidente Felipe Calderón contra os cartéis do narcotráfico. A estratégia frontal do governo parece ter levado a um contágio da violência dentro da sociedade. Após décadas de queda no número de assassinatos, o índice de homicídios disparou nos últimos anos: 24 para 100 mil habitantes em 2011, contra 8 em 2007. O México está em quinto lugar entre os países mais violentos do continente americano, atrás de Honduras (82,1 homicídios para 100 mil habitantes), El Salvador (66), Guatemala (41,4) e Colômbia (33,4).

À elevação dos números se soma a extensão geográfica da violência. Com um índice de homicídios de 131 para 100 mil habitantes, o Estado de Chihuahua (Norte) é o mais violento, seguido por Guerrero (Oeste) e Sinaloa (Noroeste). “O fenômeno se explica pela presença nessas regiões dos narcotraficantes, que brigam entre si e contra o governo pelo controle das rotas das drogas na direção dos Estados Unidos”, explica Edgardo Buscaglia, especialista em crime organizado na Universidade de Columbia e presidente do Instituto Mexicano de Ação Cidadã.

No entanto, os Estados de Jalisco (Oeste), de Oaxaca (Sudoeste) ou do México (Centro), que não têm uma forte presença dos cartéis, não estão mais sendo poupados. “Sob pressão da ofensiva do governo, os cartéis se deslocaram, levando a uma proliferação da violência em todo o país”, explica Buscaglia.

Essa alta na criminalidade é contestada pelas autoridades. “Nosso Estado teve uma queda de mais de 70% dos homicídios entre julho de 2010 e julho de 2012”, declarou, na última terça-feira (21), o governador de Chihuahua, César Duarte. A hecatombe revelada pelo Inegi – 95.632 assassinatos entre 2007 e 2011 – também é refutada pelo governo federal. Segundo a contagem das autoridades, fechada em setembro de 2011, a guerra dos cartéis matou 47.515 pessoas em quase cinco anos. “O Inegi não especifica os tipos de assassinato, associados ou não aos traficantes, ao passo que as autoridades só contabilizam os crimes dos cartéis”, ressalta Luís de la Barrera, especialista em segurança pública na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). “Estamos assistindo a uma guerra de cifras, nas quais o governo minimiza as mortes para justificar sua estratégia frontal contra o narcotráfico”. No dia 2 de agosto, Calderón chegou a anunciar uma queda de 15% nos assassinatos do crime organizado no primeiro semestre.

Ainda que o governo exiba um número recorde de apreensões e de prisões, o sangue não para de correr, sem que os cartéis pareçam estar perdendo força. “A luta do governo levou a uma perda de autoridade do Estado e a uma contaminação da violência dos narcotraficantes sobre os outros conflitos; familiares, amorosos ou de trabalho, que antes não terminavam em crimes”, analisa Luís de la Barrera.

Os cartéis se infiltraram nas administrações públicas, principalmente na polícia. “Essa situação difunde uma cultura da violência e da impunidade dentro da sociedade, é uma epidemia social”, explica Buscaglia. Somente 1% dos 12 milhões de crimes cometidos a cada ano é julgado, segundo a Comissão Nacional dos Direitos Humanos. E o tráfico de armas agrava a situação: 142 mil armas foram apreendidas em cinco anos e meio, sendo 80% delas provenientes dos Estados Unidos, onde sua venda é livre.

Mas, para Ernesto López Portillo, diretor do Instituto para a Segurança e a Democracia, “o fenômeno está arraigado em uma decomposição do tecido social, ligada sobretudo ao aumento da pobreza”. Entre 2008 e 2010, 3,2 milhões de mexicanos passaram para a classe dos mais pobres, elevando seu número de 52 milhões para 114 milhões de mexicanos, segundo o Conselho Nacional para a Avaliação das Políticas de Desenvolvimento Social. Sem contar as deficiências no ensino nacional, com 7,3 milhões de menores de idade analfabetos que não terminaram a escola primária. Pior, o México possui 7,8 milhões de “nem-nem”, os jovens de 15 a 29 anos que nem estudam, nem trabalham.

“A falta de oportunidades e a perda de confiança da população nas instituições constituem um cenário propício ao aumento da violência”, garante López Portillo. Ele explica que somente 10% dos crimes são denunciados à polícia. Recrutas fáceis para o crime organizado, os jovens são as principais vítimas dos traficantes, a ponto de o homicídio ter se tornado a maior causa de mortalidade dos mexicanos com menos de 30 anos.

E de quem é a culpa? “O governo Calderón se concentrou demais na repressão e não suficientemente na prevenção dos crimes para inserir melhor os jovens na sociedade”, lamenta Buscaglia. O Partido da Ação Nacional (PAN, direita) do presidente Calderón pagou o preço por isso nas urnas. Nas eleições presidenciais e legislativas do dia 1º de julho, o PAN foi relegado ao terceiro lugar das forças políticas. Já o presidente eleito, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI, centro), que assumirá o cargo no dia 1º de dezembro, prometeu a diminuição da violência. Será que ele conseguirá?

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