“A Europa não aprendeu com a Argentina”, diz Joseph Stiglitz

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Por: André | 16 Agosto 2012

Convocados pela Faculdade de Ciências Econômicas, Joseph Stiglitz e a presidente Cristina Fernández de Kirchner questionaram o caminho econômico escolhido pela Europa para sair da crise. O Nobel elogiou a política argentina de crescimento e a colocou como contraexemplo da europeia.

A reportagem é de Javier Lewkowicz e está publicada no jornal argentino Página/12, 14-08-2012. A tradução é do Cepat.

“Os países da Europa não aprenderam com a Argentina. E o resultado foi que para enfrentar a crise aplicaram um conjunto de políticas que pioraram as coisas rapidamente”, afirmou nesta segunda-feira o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, diante uma grande plateia de funcionários, militantes e a própria Presidente, Cristina Fernández de Kirchner, com quem compartilhou uma conversa no Museu do Bicentenário da Casa Rosada, sobre crises de dívida. O economista elogiou o rumo da política adotada pelo Governo desde 2003 e criticou a postura neoliberal que explica a crise da dívida na Europa a partir de um excessivo gasto público, que propõe salvar os bancos e deprimir a demanda agregada. “Néstor Kirchner sabia disso quando, na ONU, defendeu que os mortos não pagam as dívidas. Era preciso crescer para pagar”, disse Cristina na conversa com o Nobel.

Stiglitz é professor na Universidade de Columbia e se inscreve na corrente dos novos keynesianos. Do ponto de vista teórico, distingue-se das posturas mais ortodoxas porque destaca os problemas derivados das imperfeições do mercado e insiste na necessidade da regulação estatal. Desde o estouro da crise das hipotecas subprime e da crescente fragilidade na Europa, Stiglitz cobrou protagonismo por criticar a saída que o neoliberalismo propõe e se converteu, junto com outro Prêmio Nobel, Paul Krugman, em farol da opção heterodoxa no contexto atual. Ambos elogiam as dinâmicas da economia argentina desde 2002, que saiu da crise com políticas expansivas e conseguiu transferir para os credores parte da perda gerada pela convertibilidade, através da reestruturação da dívida.

“Desde a década de 1980 houve mais de cem crises de dívida em todo o mundo. Pensávamos que os mercados funcionavam, mas a verdade é que as ideias do Consenso de Washington estavam equivocadas. Essas receitas derivaram em sérias crises de dívida, com consequências brutais para as sociedades. Neste tipo de crise se tende a criticar quem fez empréstimos. Mas todos os empréstimos têm dois lados. O credor tem tanta responsabilidade quanto quem faz o empréstimo. Talvez o credor seja inclusive mais responsável”, analisou o economista, ideia retomada depois por Cristina, ao afirmar que “o credor tem a expertise sobre quem pode devolver o dinheiro”.

“Depois da crise argentina, falou-se muito da criação de um esquema de desendividamento, um código de falência internacional. De modo similar à Lei de Falências para o âmbito privado, um mecanismo de reestruturação de dívidas soberanas. George Bush – ex-presidente dos Estados Unidos – vetou essa ideia. Agora a falência está sobre o tapete outra vez, mas não nas economias emergentes, mas na Europa”, disse Stiglitz.

O Nobel comparou alguns dos problemas que as economias mais frágeis da Europa atravessam com a situação argentina em 2001-02. Mencionou entre as semelhanças o alto nível da dívida em relação ao Produto Interno Bruto e à existência de uma paridade cambial fixa. “Os países da Europa não estão numa zona monetária ótima. São economias muito diferentes que procuram compartilhar uma moeda. Com a união monetária, resignaram o mecanismo do tipo de câmbio e da taxa de juros e não a substituíram”, indicou. O economista afirmou que os problemas da dívida pública nos países da periferia da Europa não foram causados por um excessivo endividamento estatal. O que aconteceu, ao contrário, foi que, diante da crise, os governos assumiram as dívidas do setor privado, em especial dos bancos. “Os mesmos dirigentes que culparam o governo foram os que insistiram em que o Estado deveria assumir o problema dos privados”, completou.

“Nos Estados Unidos e na Europa não seguimos as regras capitalistas, porque tivemos resgates massivos do sistema financeiro. Os bancos aterrorizaram os governantes dizendo que sem resgates o capitalismo teria acabado. Mas isso teria sido bom, porque teria terminado essa força de mau capitalismo”, criticou o norte-americano. Na mesma linha, Cristina, depois, analisou que “o que se está fazendo agora, restringir o consumo e que as pessoas não tenham condições de comprar a geladeira, o carro ou a casa, não é capitalismo. Há uma distorção, passou-se do eixo da produção para o capitalismo de banqueiros”.

Stiglitz advertiu que o problema da dívida é o sintoma de distorções mais profundas. “Em grande medida, a crise é causada por uma estrutura econômica com falhas fundamentais. O formato atual, a arquitetura da Eurozona, não funciona”, analisou. Ao abordar a resposta à crise, a similitude com a Argentina converte-se em um contraexemplo. “Não aprendemos da Argentina. E o resultado é que aplicaram um conjunto de políticas que pioraram as coisas rapidamente. Quando a crise começou, a Grécia tinha um nível de dívida de 110% do PIB e depois passou para 250%. Diminuíram o Produto Interno Bruto matando a economia e aumentaram a dívida através de juros altos”, enfatizou.

“Muitos países responderam à crise com políticas de austeridade. A lógica que utilizam é que a dívida é o resultado de muitos gastos. Por isso, a solução é gastar menos. Contudo, a Espanha, por exemplo, estava em posição de superávit antes da crise. A queda causou o déficit e não o contrário. A Europa está confusa em relação a este tema da austeridade. Geraram um problema de falta de demanda agregada. Se o governo corta gastos, diminui a demanda e aumenta o desemprego. Como a produção diminui, diminuem os ingressos. A austeridade diminui o ritmo da economia. Os benefícios do ajuste fiscal são sempre uma desilusão. Não existe economia que se tenha recuperado com austeridade”, indicou Stiglitz.

O Nobel explicou que “a Argentina modificou o tipo de câmbio e reestruturou a dívida para sair da crise. Se tivesse tomado apenas uma dessas medidas, não teria resolvido o problema. A mesma lição vale para a Europa”. Finalizou com outro elogio: “A Argentina mostrou que não foi fácil, mas que é possível responder à crise. Que quando se administra bem este processo, a economia tem possibilidades de seguir em frente”.

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