Atraído pela teoria do bolo, Stiglitz exagera na dose

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26 Julho 2012

"Devo mencionar quão mal produzido é "The Price of Inequality" como livro. Um bom quarto do texto tem a forma de notas de rodapé. A lição segundo a qual um ocasional simples gráfico vale mais que mil palavras foi ignorada. Não há um único gráfico ou mesmo tabela. Achei mais fácil observar a tendência para maior concentração de renda num gráfico em "How Much Is Enough" (quanto é bastante), de Robert e Edward Skidelsky, que trata apenas incidentalmente desse assunto. Isso me lembra produtores de programas de rádio tão receosos de enfadar seu ouvintes com temas de economia política que acabam por deixá-los ainda mais confusos", escreve Samuel Brittan, do Financial Times, em artigo reproduzido pelo jornal Valor, 24-07-2012

Eis o artigo.

Durante a maior parte de minha carreira na mídia, permaneci indiferente ao "patrulhamento igualitário". Recordo-me do falecido Lionel Robbins, importante economista britânico e ex-chairman do "Financial Times", dizendo: "Igualdade de oportunidades para concorrer a recompensas iguais. Que ideal para colocar diante de um jovem!" A despeito disso, sempre acreditei termos o dever de ajudar, coletivamente, se necessário, os desafortunados da renda e riqueza. Mas não creio que a melhor maneira de fazê-lo seja despojar aqueles que estejam no topo, porque eles simplesmente não têm os recursos para essa finalidade; e mesmo um modesto efeito de desincentivo invalidaria a tentativa.

Grande parte da hostilidade voltada contra "os ricos" baseia-se em inveja. Para que as pessoas nos estratos inferiores fossem realmente ajudadas, a maior parte do restante de nós teria de dar sua parte, seja contribuindo para os pagamentos da previdência social ou financiando serviços públicos como saúde e educação, que embutem um elemento redistributivo.

"Quando os fatos mudam, eu mudo de ideia" é uma banalidade frequentemente atribuída a John Maynard Keynes, embora não haja evidências de que ele alguma vez tenha dito isso. (O que pode ter dito é: "Quando mudo de opinião, deixou isso bem claro".) No entanto, há momentos até mesmo para uma banalidade. A posição esboçada acima fazia sentido no início da década de 1980, quando a parte das rendas pessoais embolsada por 1% de mais ricos correspondia a 7-8% do total, tanto nos EUA como no Reino Unido. É muito menos plausível quando a proporção sobe para 18% nos EUA e caminha para isso no Reino Unido. Poderia ser uma fase passageira, mas isso parece improvável. É particularmente difícil de justificar, após uma década em que a renda real da família americana mediana caiu 7%. Se houve uma maré crescente, certamente não levantou todos os barcos.

Joseph Stiglitz é professor na Universidade Columbia e um ganhador do Prêmio Nobel de Economia - honraria que muitas vezes vejo citada por admiradores de economistas de diferentes inclinações políticas quando pretendem dar discussões por encerradas. A primeira vez em que ele chamou a atenção de um público mais amplo fora do meio acadêmico foi quando, como economista-chefe do Banco Mundial, no fim de 1999, lançou um duro ataque contra a "terapia de choque" do Fundo Monetário Internacional ditada a países em desenvolvimento endividados - e demitiu-se um mês antes de seu mandato expirar. Revisitando esse episódio, até mesmo os partidários do livre mercado devem admitir que o Fundo fez-se desnecessariamente vulnerável a tais críticas.

A partir de então, Stiglitz tem sido um perseguidor implacável do que denomina "a direita". "The Price of Inequality" (o preço da desigualdade) é um livro longo, mas, a menos que algo tenha me escapado, não deixa sua própria posição ética muito explícita. Se você considera renda ou riqueza como um bolo a ser dividido por uma autoridade central, como uma mãe corta um bolo para seus filhos, então, de fato, há uma presunção em favor de igualdade. Se você acredita em alguma versão da teoria do direito a justiça, na qual o que cada pessoa recebe de outras é uma recompensa por serviços prestados, então são medidas redistributivas que precisam ser justificadas. Se qualquer das teorias fosse levada à sua conclusão lógica, teríamos um inferno na terra.

Stiglitz é, implicitamente, mais atraído pela teoria do bolo. Embora a estridência e o azedume deste livro reflitam o estado atual da política nos EUA, a análise básica segue praticamente a linha do pensamento econômico dominante e está centrada em torno do termo "renda". A palavra não significa apenas o que os inquilinos se recusam a pagar ao senhorio em "La Bohème". Refere-se a qualquer coisa que uma empresa ou indivíduo pode obter acima de um retorno normal de mercado. De fato, alguns analistas políticos preferem falar de "extração", em vez de criação. A tese é de que, através de uma mistura de ações lobistas, mau uso de regulamentação, captura da política pelo empresariado e muito mais, as "rendas" foram levadas para níveis mais e mais elevados.

Além disso, o "1% do topo" está se consolidando na forma de uma elite hereditária. Curiosamente, isso é quase idêntico à tese recentemente defendida por Luigi Zingales, um economista defensor do livre mercado que deixou sua Itália natal com destino à Chicago Business School para escapar ao "capitalismo de compadrio" e terminou encontrando-o ganhando força nos EUA.

Quando se trata de remédios, Stiglitz não surpreende. Suas ideias iniciais, como conter a tomada de riscos financeiros excessivos, tornar os bancos mais competitivos e transparentes e reduzir os poderes dos executivos-chefes, podem ser atraentes a muitos membros conservadores da Comissão do Tesouro da Câmara dos Comuns do Reino Unido. Mas quando ele passa a defender alíquotas máximas de impostos superiores a 70%, medidas ativas para administrar a balança comercial, restrições à globalização e restauração dos poderes dos sindicatos, minha simpatia começa a minguar. Há uma discussão a ser travada sobre todas essas questões. Mas, assim como Samuel Johnson, em seus relatórios parlamentares, se esforçou para garantir que os "cães whigs [liberais, no Reino Unido, em oposição aos "tories", conservadores] não levassem a melhor", Stiglitz tenta fazer o mesmo em relação a atitudes não intervencionistas. Considero as propostas de Zingales mais estimulantes em "A Capitalism for the People" (um capitalismo para o povo) em defesa de "uma agenda pró-mercado, mas não pró-empresariado".

Finalmente e infelizmente, devo mencionar quão mal produzido é "The Price of Inequality" como livro. Um bom quarto do texto tem a forma de notas de rodapé. A lição segundo a qual um ocasional simples gráfico vale mais que mil palavras foi ignorada. Não há um único gráfico ou mesmo tabela. Achei mais fácil observar a tendência para maior concentração de renda num gráfico em "How Much Is Enough" (quanto é bastante), de Robert e Edward Skidelsky, que trata apenas incidentalmente desse assunto. Isso me lembra produtores de programas de rádio tão receosos de enfadar seu ouvintes com temas de economia política que acabam por deixá-los ainda mais confusos.

 

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