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10 Julho 2012

Se o conflito sírio terminar com a derrota completa do regime de Assad, como desejado e exigido por Hillary Clinton, o equilíbrio do mapa político da mais explosiva região do globo sofrerá mudanças de enorme alcance.

A reportagem é de Rubens Ricupero e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-07-2012.

O Irã amanheceria isolado e ameaçado a ter de escolher entre ceder ou se tornar a próxima vítima. O Hezbollah e o Hamas perderiam o contato direto com sua fonte de armas e financiamento no Irã através da Síria. O núcleo duro da oposição à estratégia ocidental, muito reduzido após a supressão de Arafat, Saddam Hussein e Gaddafi, praticamente se resumiria a Teerã, uma vez removido Assad.

A Rússia perderia seu último aliado (e base naval) na região e, junto com a China, sairia derrotada do intento de evitar o domínio da área por EUA, Israel e aliados. Num balanço geral, as transformações trazidas pela Primavera Árabe têm mais favorecido do que prejudicado a posição relativa dos americanos.

Imaginava-se que, em caso de sublevação popular, os primeiros regimes a cair seriam as monarquias quase absolutas do golfo, aliadas e dependentes dos EUA.

Não foi o que sucedeu. Dosando concessões moderadas com transferência de renda à população, as monarquias lograram neutralizar as pressões populares. A exceção foi o Bahrein, de maioria xiita dominada por dinastia sunita. Esta não hesitou em esmagar a rebelião com apoio militar direto dos sauditas, sem que as potências ocidentais demonstrassem indignação remotamente comparável à reservada à Síria.

Fora o retardatário Iêmen, a insurreição varreu governos que tinham começado como nacionalistas e reformistas, acomodando-se depois (Egito, Tunísia, Líbia). Pareciam em todo caso pertencer a uma etapa mais avançada de desenvolvimento histórico do que os feudais. A situação que vem emergindo nesses países lembra em alguns aspectos a do Iraque: governos pouco efetivos, divididos por dissensões tribais ou de partidos islamistas, duvidosa capacidade de promover o desenvolvimento de sociedades de expectativas longamente reprimidas.

Para os EUA, o regime de Assad constitui o inimigo ideal: brutal, sanguinário e incompetente. Facilita a montagem de uma união sagrada, capaz de fornecer até aos turcos uma oportunidade de realinhamento com o Ocidente após a quase ruptura com Israel.

Vista em retrospectiva, a invasão do Iraque atirou no que viu e matou o que não viu. Não havia bomba atômica iraquiana nem aliança com o terrorismo. A guerra continua tão imperdoável como sempre foi pelas atrocidades e crimes cometidos.

Involuntariamente, porém, acabou fornecendo o choque exterior que faltava aos fatores internos para desestabilizar o Oriente Médio e romper a longa estagnação e o imobilismo político.

A história se põe novamente em marcha e o quadro está longe de completo. Falta, sobretudo, saber o que vai acontecer ao Irã.

Até agora, a ação se tem concentrado no interior dos países. Cedo ou tarde, a questão que determina a dinâmica regional voltará ao centro do palco: como negociar uma paz satisfatória e durável com Israel. Só aí se vai saber se as mudanças em curso ajudarão a região a finalmente exorcizar seus fantasmas.

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