Tradicionalistas atacam novo prefeito da Doutrina da Fé

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07 Julho 2012

A nomeação do bispo de Regensburg, Gerhard Müller, como novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi precedida e seguida pela divulgação – antes através de e-mails anônimos e depois em artigos na web, incluindo o site italiano da Fraternidade São Pio X – de pequenas extrapolações dos seus escritos, que apresentariam posições discutíveis em matéria de fé. As coisas são realmente assim?

O sítio Vatican Insider entrevistou a esse respeito o teólogo Nicola Bux (foto), consultor da Congregação para a Doutrina da Fé.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 05-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Em seu livro de dogmática, Müller escreve que a doutrina sobre a virgindade de Maria "não se refere tanto a propriedades fisiológicas específicas do processo natural do nascimento...".


O Catecismo da Igreja Católica especifica que o aspecto corporal da virgindade está totalmente no fato de que Jesus foi concebido sem sêmen humano, mas por obra do Espírito Santo. Essa é uma obra divina que supera toda compreensão e possibilidade humanas. A Igreja confessa a virgindade real e perpétua de Maria, mas não adentra em particulares físicos, nem parece que os concílios e os padres da Igreja tenha dito algo contrário. É nessa linha, parece-me, que deve ser entendido o que Müller escreveu, o qual não defende uma "doutrina" que nega o dogma da perpétua virgindade de Maria, mas alerta para um certo, por assim dizer, "cafarnaísmo", isto é, aquela forma de pensar "segundo a carne" e não "segundo o espírito", que já havia surgido em Cafarnaum entre os judeus no fim do discurso de Jesus sobre o pão da vida.

Em 2002, Müller, no livro Die Messe - Quelle des christlichen Lebens, falando do sacramento eucarístico, escreve que "o corpo e o sangue de Cristo não indicam componentes materiais da pessoa humana de Jesus ao longo da sua vida ou da sua corporeidade transfigurada. Aqui, corpo e sangue significam a presença de Cristo nos sinais do meio constituído por pão e vinho".

Justamente em Cafarnaum, os termos usados por Jesus, carne e sangue, foram mal compreendidos de modo antropomórfico, e o Senhor teve que reafirmar o seu sentido espiritual, que não quer dizer que sua presença seja menos real, verdadeira e substancial. Veja-se a esse respeito, o Catecismo da Igreja Católica. Santo Ambrósio diz que não se trata do elemento formado pela natureza, mas sim da substância produzida pela fórmula da consagração: a própria natureza é transformada, e por isso corpo e sangue de Jesus são o ser de Jesus. O Concílio de Trento diz que, na Eucaristia, Nosso Senhor está presente "substancialmente", verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele está presente sacramentalmente com a sua substância, um modo de ser misterioso, admissível para a fé e possível por parte de Deus. São Tomás havia dito que o modo da "substância" e não o da "quantidade" caracteriza a presença de Cristo no sacramento da Eucaristia. O pão e vinho, como espécie ou aparências, mediam o nosso acesso à "substância", o que acontece sobretudo na comunhão. No entanto, o Concílio de Trento não vê contradição entre o modo natural da presença de Cristo no céu e o sacramental de estar em muitos outros lugares. Tudo isso foi reafirmado por Paulo VI na sua infelizmente esquecida encíclica Mysterium Fidei. Não bastam os sentidos, mas é preciso a fé. É mistério da fé.

Sobre o protestantismo e a unicidade salvífica de Jesus, em outubro de 2011, Müller declarou: "O batismo é o sinal fundamental que nos une sacramentalmente em Cristo e que nos apresenta como uma Igreja diante do mundo. Por isso, nós, como católicos e cristãos evangélicos, já estamos unidos até no que chamamos de Igreja visível".

Santo Agostinho defendeu contra os donatistas a verdade de que o batismo é um vínculo indestrutível, que não abole a fraternidade entre os cristãos, mesmo quando são cismáticos ou hereges. Infelizmente, hoje, na Igreja, teme-se o debate, mas se procede por teses e ostracismos de quem pensa de forma diferente. Refiro-me à teologia, certamente, que pode ser opinável. No entanto, mesmo o desenvolvimento doutrinal se beneficia do debate: quem tem argumentos convence. Nas acusações a Dom Müller, extrapola-se do contexto: assim é fácil condenar qualquer um. Um verdadeiro católico deve confiar na autoridade do papa, sempre. Em particular, acredito que Bento XVI sabe o que faz. E eu gostaria precisamente de renovar à Fraternidade Sacerdotal São Pio X o seu convite a confiar no papa.

Disse-se que o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não seria muito favorável ao Motu Proprio Summorum Pontificum...

Eu tenho certeza que ele compreende as razões que levaram o papa a promulgá-lo e que atuará segundo o espírito e a letra do motu proprio. Quanto às extrapolações de que falamos, as coisas escritas por Dom Müller pertencem à sua fase de teólogo, e um teólogo não produz doutrina, ao menos imediatamente. Como bispo, ao contrário, ele deve defender e difundir a doutrina não sua, mas da Igreja, e eu acho que ele fez isso. Como prefeito, ele continuará fazendo isso, sob a orientação do papa.

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