Alunos de Biologia expressam menos religiosidade que os de Veterinária

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03 Julho 2012

Durante o tempo que coordenou a pós-graduação em Zoologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), entre 2007 e 2010, o biólogo Antonio Carlos Marques desenvolveu o costume de ler os trabalhos de mestrado e doutorado submetidos pelos alunos. Percebeu que vários deles, apesar de tratarem de temas científicos intrinsecamente fundamentados na teoria evolutiva, traziam referências religiosas em seus textos, como agradecimentos a Deus ou citações de trechos da Bíblia. Ficou curioso e resolveu fazer um levantamento sobre o assunto.

A reportagem é de Herton Escobar e publicada no jornal O Estado de São Paulo, 01-07-2012.

O resultado está publicado na última edição dos Anais da Academia Brasileira de Ciência, em artigo científico assinado por Marques, seu colega Rodrigo Willemart e o aluno Ivan Dias, que fez a pesquisa para seu trabalho de graduação no IB.

Eles revisaram as seções de agradecimento, dedicatória e epígrafes de mais de 4,8 mil trabalhos de pós-graduação do IB e da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), publicados entre 1943 e 2009. E verificaram que cerca de 8% dos trabalhos de alunos do IB nesse período continham expressões religiosas, comparado a cerca de 38% da FMVZ.

"Por um lado, é uma porcentagem baixa, comparada ao nível de religiosidade da sociedade como um todo", avalia Marques, referindo-se ao resultado de 8% do IB. "Por outro, é um número alto, se pensarmos que estes alunos são treinados para pesquisar e ensinar disciplinas que têm a evolução biológica como princípio fundamental."

As referências incluem expressões como "agradeço a Deus", "agradeço ao meu anjo da guarda", "dedico a Jesus", além de orações e citações bíblicas, incluindo passagens do livro de Gênesis. "É um antagonismo curioso, ver duas visões contraditórias incorporadas no mesmo documento", diz Marques. Algo que ele considera "inadequado" no contexto de um trabalho científico. "Questões físicas não devem ser misturadas com questões espirituais. Assim como não espero que um padre pregue ciência, não espero que um cientista ensine religião."

Outros pesquisadores não veem problema nas citações. "Acho que tudo bem; as pessoas acreditam no que quiserem", diz o bioquímico Carlos Menck, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, que não participou do estudo. Segundo ele, é normal cientistas acreditarem em Deus ou seguirem algum tipo de religião, como no resto da sociedade. "Você não precisa ser ateu para ser cientista. Só tem de saber separar bem uma coisa da outra", diz.

Menck é o atual presidente da Sociedade Brasileira de Genética (SBG), que na semana passada publicou um manifesto online sobre ciência e criacionismo, com o objetivo de "esclarecer a sociedade brasileira e evitar prejuízos no médio e longo prazo ao ensino científico e à formação de jovens no país".

A preocupação maior do manifesto refere-se ao fato de alguns cientistas com tendências religiosas mais radicais pregarem o criacionismo como se fosse uma ciência e inverterem os papéis, dizendo que a evolução biológica é que não tem fundamentação científica. "Não queremos questionar de maneira nenhuma a religião", esclarece Menck. "Ciência e religião podem caminhar juntas; o que não pode é tratar criacionismo como ciência. Isso, sim, é obscurantismo."

Marques considera que as declarações de fé nos trabalhos são um bom indicador da religiosidade presente no corpo estudantil das respectivas faculdades, já que se tratam de expressões espontâneas dos alunos, não induzidas por entrevistas ou questionários. "Ninguém foi perguntado sobre nada. Esses alunos expressaram sua fé porque quiseram." Por outro lado, ele não tem dúvida de que o resultado de 8% do IB está subestimado em relação ao número real de alunos que seguem alguma religião. O dado representa apenas aqueles que expressaram essa religiosidade por escrito em seus trabalhos.

Afirmação. Na opinião da filósofa e educadora Roseli Fischmann, as citações simbolizam mais uma afirmação de identidade pessoal do que uma expressão de conflito entre ciência e religião.

"É uma forma deles de dizer que 'A ciência é importante para mim, mas não me impede de acreditar em Deus'", avalia Roseli, coordenadora da pós-graduação em Educação da Universidade Metodista e professora da USP. "Na ciência, as coisas têm de ser provadas com dados. A religião é algo no qual você crê ou não crê. Por isso é possível fazer essa conciliação interior sem maiores conflitos."

Uma das curiosidades que surgem do trabalho é a diferença no número proporcional de expressões religiosas das duas faculdades (8% versus 38%). Marques imagina que isso se deva ao fato de a teoria evolutiva permear o ambiente acadêmico do IB de forma mais contundente e abrangente do que na Veterinária.

Por outro lado, é possível que essa cultura evolutiva iniba alunos da Biologia de expressar abertamente sua religiosidade.

"O estudo é muito interessante e teve o mérito de demonstrar, de maneira empírica, a grande diferença de perspectiva entre essas duas realidades. No entanto, tenho reservas quanto ao nexo causal apontado", avalia o educador Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da USP, que também é biólogo. "As duas carreiras atraem jovens com diferenças significativas em relação a crenças religiosas. É possível que o curso de pós-graduação aumente essas diferenças, selecionando os alunos de um tipo mais 'teórico', no caso da biologia, e possivelmente, mais 'prático' no caso da veterinária."

Maioria já concorda com a teoria evolutiva desde a graduação

Será que o estudo da biologia - e, mais especificamente, da evolução biológica - torna as pessoas menos religiosas ou os alunos que procuram a disciplina já são, por princípio, menos religiosos que os outros?

Essa é uma das questões levantadas pelo trabalho publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Para tentar resolvê-la, os autores aplicaram um questionário a cerca de 160 alunos de graduação do Instituto de Biociências e da Faculdade de Veterinária, logo na aula introdutória de biologia, no qual eles tinham de escolher entre uma explicação evolutiva, criacionista ou de design inteligente para a origem do homem. Entre os alunos das biociências, 79% concordaram com a explicação evolutiva, comparado a 49% da veterinária.

"De início, achávamos que a diferença verificada na pós-graduação se devia à eficiência do ensino da evolução nas biociências", conta o pesquisador Antonio Marques. "Mas não. A diferença, aparentemente, vem desde a graduação. O aluno de biologia já entra na universidade com essa tendência."

Os autores propositalmente evitaram fazer comparações com disciplinas que trabalham diretamente com o ser humano, como Medicina ou Psicologia. "As pessoas, em geral, tendem a dissociar o ser humano do processo evolutivo", justifica Marques. "Ainda que não neguem a evolução, falam dela em terceira pessoa, como se estivessem excluídas do processo."

"Para evitar esse viés em potencial, achamos melhor comparar as biociências com a veterinária, que também trabalha com organismos não humanos", completa Marques.

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