Paul Singer diz que ‘competição’ pelo consumo é uma ameaça ao desenvolvimento sustentável

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15 Junho 2012

Entre ganhar e perder, Paul Singer prefere ficar com o empate. Não se seu time de coração, Corinthians, estiver jogando, mas sim no âmbito econômico. Um dos grandes difusores da chamada economia solidária no Brasil, Singer, secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, participou ontem (12) do painel ‘Produção e Consumo Sustentáveis’, do Ciclo de Debates do Ministério do Meio Ambiente (MMA) Rumo à Rio+20, que está sendo realizado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A reportagem é de Clarissa Vasconcellos, publicada no Jornal da Ciência e reproduzida por EcoDebate, 14-06-2012.

Singer alertou para o fato de o mundo contemporâneo viver uma “competição constante”, onde o “consumo está relacionado ao êxito”, tendo uma relação direta com a avidez por comprar “a última novidade”, invariavelmente mais cara. “A racionalidade do consumidor é aproveitada para condicionar seu comportamento. E a publicidade tem um papel enorme nisso”, lembra.

O economista destaca que a economia solidária, um caminho afinado com as ideias que serão discutidas na Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, “não surgiu de uma necessidade ambiental”, já que funcionava em cooperativas criadas na Inglaterra e França no século XIX.

“A economia solidária não conhece valor de troca, não conhece lucro, não há desigualdade nela”, ressalta. Otimista com a conferência, Singer acredita que “o mundo nunca foi democrático” e destaca a presença na Rio+20 de “chefes de Estado que foram eleitos”, pontuando que atualmente está ocorrendo “uma nova revolução industrial extremamente benéfica”.

Conferência de partida – O evento do MMA foi aberto pela ministra Izabella Teixeira. “A Rio+20 é uma conferência de partida. A Rio 92 foi uma conferência de chegada. Buscamos compromissos de todos os segmentos e se não houver uma mudança no padrão de comportamento, será impossível discutir sustentabilidade de forma concreta”, declara.

Durante o painel, foi assinada a ‘Carta de Intenções de Adesão ao Pacto de Desenvolvimento Sustentável’ por dirigentes de organizações como Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), Embraer e Sinduscon.

As instituições se comprometeram a desenvolver programas de ação que envolverão um uso melhor da água e energia, reciclagem, construções inteligentes, entre outros indicadores. “Em 1992, o setor privado não tinha esse engajamento. Este ano há um movimento maciço sobre o papel do setor produtivo em torno dessa agenda”, compara Izabella.

“Vi que vocês aprenderam muito nos últimos 20 anos, há um conhecimento mais profundo sobre a relação entre os recursos e a maneira de viver e produzir aqui”, destaca Sylvie Lemmet, diretora da divisão de Tecnologia, Indústria e Economia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (DTIE/Pnuma). Sylvie é uma das responsáveis pelo Processo de Marrakesh, base do ‘Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis do Brasil’, que, segundo a ministra, envolve oito ministérios e sete empresas.

Além de Sylvie e Singer, o painel, mediado pela secretária para Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do MMA, Samyra Crespo, também teve a participação do diretor presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, Hélio Mattar; e de Jeffrey Barber, do Global Research Forum – Sustainable Consumption and Production.

Samyra Crespo destacou o esforço do MMA em “entender o consumidor brasileiro”, que forma um grupo “heterogêneo e pulverizado” devido às diferenças sociais. “Temos o desafio de atingir a linguagem correta para conversar com ele”, analisa, acrescentando que parcerias com empresas estão sendo feitas para facilitar o processo de conscientização.

Propostas

Hélio Mattar ressaltou que o papel regulamentador do Governo é “necessário”, mas que é importante também convocar a sociedade, empresas e iniciativas voluntárias para discutir como tornar a produção e o consumo sustentáveis. “Há que valorizar o meio copo cheio e não denunciar o meio copo vazio. Toda vez que se faz uma mudança de cultura acontece isso”, pontua, lembrando que 16% da população mundial são responsáveis por 78% do consumo internacional.

Mattar pondera que a tão difundida responsabilidade social tem o efeito colateral de “aplacar a consciência” de consumidores e produtores, que podem achar que “não precisam fazer mais nada” e deu como exemplo pessoas que pensam que fazem sua parte apenas separando o lixo reciclável e, por outro lado, continuam consumindo em excesso.

Ele propõe medidas como o ensino na educação primária de atitudes que promovam a conscientização sobre sustentabilidade e a produção de bens duráveis, algo que vai de encontro ao ritmo industrial atual, afirmando que será necessário mudar o foco da estrutura de consumo, menos centrada na produção industrial, apontando para o setor de serviços.

Isso estimularia o “consumo coletivo” em vez do consumo individual. Um exemplo seria a tendência de usar mais transportes públicos no lugar do carro. “O mundo sustentável é melhor. Não é um mundo de sacrifício, sairemos do excesso para a suficiência. Vamos trabalhar menos e consumiremos para o bem-estar e não só por consumir”, conclui.

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