A revista Concilium critica o Papa: está com os capitalistas

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Por: André | 06 Março 2012

Quem defende esta tese na célebre revista de teologia é Johan Verstraeten, da Universidade Católica de Lovaina. De Roma o professor Stefano Ceccanti inverte a acusação: os verdadeiros conservadores são os estatistas, pois pensam como Lefebvre.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio italiano Chiesa, 02-03-2012. A tradução é do Cepat.

A Revista Internacional de Teologia Concilium dedicou seu último número a um tema mais atual que nunca: “Economia e Religião”.

Os dois redatores do número, o brasileiro Luiz Carlos Susin e o holandês Erik Borgman, em seu editorial introdutório se propõem um objetivo muito ambicioso. Depois da “economia da salvação” definida por Eusébio de Cesareia e da “economia como salvação” teorizada por Max Weber, hoje – escrevem – necessita-se de uma “salvação da economia”.

E se perguntam: “É esta forma de economia que deve ser salva?”, pensando no capitalismo.

Entre os nove ensaios de outros tantos autores que compõem este número da Concilium há um que analisa a doutrina social da Igreja contida em seus documentos mais autorizados.

O autor, Johan Verstraeten, belga, ensina na Universidade Católica de Lovaina e é membro do conselho editorial da Business Ethics e do Journal of Catholic Social Thought.

Ele intitulou o seu ensaio deste modo: “Repensar a economia: uma questão de amor e de justiça? O caso do Compêndio da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Caritas in Veritate”.

O juízo do autor sobre os dois documentos citados no título é negativo. Enquanto no passado – explica na introdução – a Igreja havia mantido um certo equilíbrio entre as apreciações e as críticas ao sistema capitalista, até mostrar “uma simpatia por uma economia de mercado correta, com uma preferência pelo modelo renano em relação ao capitalismo de tipo anglo-saxão”, hoje este equilíbrio se quebrou. E a mudança pró-mercado se imputa ao atual Pontífice que, em sua última encíclica, “subestimou os aspectos estruturais e institucionais da pobreza e do subdesenvolvimento”.

Mas, isso é verdade? Na sequência, a intervenção, comentando o artigo de Verstraeten na Concilium, do professor Stafano Ceccanti, senador do Partido Democrata e professor de direito público comparado na Universidade La Sapienza, de Roma.

Ceccanti foi presidente nacional da FUCI, a associação dos estudantes universitários católicos italianos. O título de seu último livro, publicado pela Borla, é: “Ao católico perplexo. Igreja e política na época do bipolarismo e do pluralismo religioso”.

Nos últimos meses, Ceccanti interveio várias vezes na discussão sobre a interpretação do Concílio Vaticano II e a liberdade religiosa.

Uma primeira versão de sua intervenção apareceu em QdR Magazine, revista eletrônica dos reformistas italianos.

Os estatistas contra Ratzinger, de Stefano Ceccanti

Entre os especialistas que se ocupam da doutrina social na Igreja católica está Johan Verstraeten, que ensina ética na Universidade Católica de Lovaina e explicou detalhadamente sua posição no número 5/2011 da prestigiosa Revista Internacional de Teologia Concilium.

Verstraeten ataca o magistério da Igreja e, particularmente, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, de 2006, e a encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate, de 2009, porque – segundo explica – dão pleno apoio ao capitalismo.

O autor considera que o ponto de toque se pode encontrar justamente no Compêndio e, em especial, em seus capítulos 4 e 7, onde “a aprovação do livre mercado e da competição” se “realiza nos termos mais explícitos até agora usados na história do pensamento social católico.

Isso entendendo que, já anteriormente, a posição da Igreja também não satisfazia Verstraeten, dado que o magistério, embora mais crítico com a economia de mercado, estava marcado de todas as formas, na sua opinião, pela “tentativa de evitar, de forma quase convulsiva, qualquer identificação do pensamento social católico com a social-democracia ou com o Estado que provê assistência social”.

Segundo Verstraeten, a encíclica de João Paulo II Centesimus Annus, de 1991, já fazia concessões demais ao capitalismo. Mas no Compêndio encontramos mais ainda “uma interpretação surpreendentemente positiva da concorrência” e da “situação ideal” do “verdadeiro mercado competitivo”.

O Compêndio teria a culpa de ter retomado a colocação da instrução Libertatis Conscientia, de 1986, sobre a Teologia da Libertação, do então cardeal Joseph Ratzinger, com sua afirmação do primado da caridade sobre a justiça, reinterpretada esta última como “caridade social e política”, coisa que parece redutora a Verstraeter.

O que expressaria, de fato, esta colocação? Uma mentalidade segundo a qual “a ética social católica, no que se refere a questões econômicas”, se reduz a “uma matéria de ações individuais ou intersubjetivas”, ao passo que a necessidade de mudança das “estruturas injustas” ficaria relegada a um plano marginal.

Em outras palavras – usando o vocabulário dos debates que se seguiram à Caritas in Veritate, vocabulário que, no entanto, Verstraeten não usa de forma explícita – o autor acusa Bento XVI de ser “poliárquico”, isto é, de atribuir apenas um papel parcial à política, ao lado de outros poderes.

Com efeito, Verstraeten passa da crítica ao Compêndio à crítica da encíclica de Bento XVI, cuja “preocupação suprema não é a justiça, mas o amor; não a mudança estrutural ou institucional, mas uma nova práxis baseada sobre valores como relacionalidade, gratuidade e fraternidade”. Ou seja, a política não como centro da sociedade, mas como subsistema parcial.

Aqui e acolá, na Caritas in Veritate, em relação ao CompêndioVertraeten admite –, encontramos uma maior abertura às “políticas sociais do Estado”, mas apesar disso – acusa – a encíclica “segue sendo mais crítica no que se refere ao Estado”, apontando ao contrário mais sobre o princípio da subsidiariedade.

A estratégia do filão crítico personificado por Verstraeten é sempre a mesma e funciona em dois tempos.

O primeiro passo consiste em tomar as distâncias com uma leitura dinâmica do processo de diferenciação social em ação, que vê a política como uma esfera social entre outras, sem primados e hierarquia, no mesmo plano da economia.

O segundo consiste em tomar as distâncias da evolução do magistério social da Igreja, bem em forma de crítica explícita, bem naquela mais sutil que consiste em ignorar o evidente desenvolvimento, limitando-se a uma leitura esquemática que une a Quadragesimo Anno (1931) e a Populorum Progressio (1967).

A conclusão lógica de Verstraeten é que “tanto o Compêndio como a Caritas in Veritate precisam ser revistas” centrando de novo tudo sobre “instituições justas”, pivô de “uma economia baseada sobre a ‘iustitia in veritate’”.

Enquanto não houver esta revisão – admitida, não afirmada que ela irá acontecer –, as posições de Verstraeten e de outros como ele poderão e deverão apresentar-se honestamente como radicalmente críticos em relação à doutrina social da Igreja, ao contrário do que faz nestes dias, na Itália, um autorizado expoente da secretaria do Partido Democrata, Stefano Fassina, que expõe ideias estatistas idênticas às de Verstraeten, mas que pretende atribuí-las ao próprio Bento XVI e à Caritas in Veritate.

Para dizer a verdade, no entanto, as posições de Verstraeten e daqueles que pensam como ele aparecem teologicamente marcadas por um “conservadorismo de esquerda” que ainda não teve em conta a queda do Muro de Berlim e sua lição anti-monárquica, contra a prepotência do Estado e da política.

Estas correntes criticam o magistério precisamente porque, ao contrário, teve em conta esta lição. Mas, fazendo isso, elas reproduzem no campo social o rechaço tradicionalista da liberdade religiosa: rechaço também este rigorosamente estatista, motivado pela defesa da “iustitia in veritate” contra a livre escolha da consciência errônea em boa fé.

Resumindo, Verstraeten e... Lefebvre têm teologicamente mais elementos em comum entre si do que se possa crer, raciocinando apenas sobre o eixo político direita-esquerda.

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