Jesus, nosso contemporâneo

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12 Fevereiro 2012

Esse é o título do evento internacional que será realizado em Roma nos próximos dias. Idealizado pelo cardeal Ruini, de acordo com a "prioridade suprema" conferida por Bento XVI ao seu pontificado.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada em seu sítio, Chiesa, 06-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Às vésperas do próximo consistório, Bento XVI reunirá ao seu redor todo o Colégio Cardinalício, incluindo os recém-eleitos, para um dia de "reflexão e oração".

O encontro será realizado no dia 17 de fevereiro e terá por tema O anúncio do Evangelho hoje, entre 'missio ad gentes' e nova evangelização.

Não é segredo que esse também é o objetivo primeiro do atual pontificado. O Papa Joseph Ratzinger disse e redisse várias vezes: "A prioridade suprema e fundamental da Igreja e do sucessor de Pedro neste tempo é conduzir os homens a Deus".

Mas a qual Deus? Também se conhece a resposta do papa a essa pergunta:

"Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado".

As palavras de Bento XVI recém-citadas foram retiradas da carta que ele escreveu aos bispos de todo o mundo no dia 10 de março de 2009.

Pontualmente, nesse mesmo ano, entre os dias 10 a 12 de dezembro, o comitê para o projeto cultural da Igreja italiana presidido pelo cardeal Camillo Ruini organizou em Roma um evento internacional que tinha por tema Deus, hoje. Com ele ou sem ele, tudo muda.

Mas, justamente, qual Deus, senão aquele que se revelou em Jesus? Esse primeiro evento necessariamente devia ter um segundo capítulo.

E o terá, em poucos dias, entre os dias 9 a 11 de fevereiro, uma semana antes do consistório. Desta vez, com o título Jesus, nosso contemporâneo.

A apresentação e o programa do evento estão no site do comitê para o projeto cultural presidido por Ruini, disponíveis aqui (em italiano).

A conferência de abertura, no grande auditório da Via della Conciliazione, a poucos passos da Praça de São Pedro, será do exegeta alemão Klaus Berger, enquanto a de encerramento será a do teólogo e bispo anglicano Nicholas Thomas Wright, que abordará a questão da ressurreição de Jesus como evento histórico sobre o qual toda a fé cristã se assenta ou cai.

Não só católicos, portanto, tomarão a palavra, mas também protestantes, judeus, muçulmanos, agnósticos, não crentes. As abordagens também são muito variadas: históricas, filosóficas, bíblicas, teológicas, literárias, artísticas. Todas, porém, com um eixo único e inconfundível: o mistério de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Aquele Jesus que – como Ratzinger escreveu ainda no primeiro volume do seu Jesus de Nazaré – não trouxe a paz nem o bem-estar para todos, nem um mundo melhor, mas simplesmente "trouxe Deus e, com ele, a verdade sobre o nosso destino".

O principal idealizador do evento, o cardeal Ruini, o apresentou no L'Osservatore Romano do dia 3 de fevereiro.

Eis aqui a sua ouverture.

Jesus, nosso contemporâneo

por Camillo Ruini

O evento Jesus, nosso contemporâneo, que se realizará em Roma, do dia 9 a 11 de fevereiro, ocorre a pouco mais de dois anos de distância do outro Deus hoje: com ele ou sem ele, tudo muda.

Os temas das duas iniciativas, promovidas pelo comitê para o projeto cultural da Conferência Episcopal Italiana, estão intimamente conectados, porque o Deus em quem acreditamos ou não acreditamos, sobre o qual discutimos na Itália, no Ocidente e grande parte do mundo (por exemplo, na Rússia ou América Latina) é o Deus que nos foi proposto por Jesus Cristo. Reciprocamente, Jesus de Nazaré é importante para muitos homens e mulheres porque estão convencidos de que ele tem uma relação única com Deus.

Sobre ele, há dois séculos e meio, conduz-se uma gigantesca pesquisa histórico-crítica e se desenvolve um debate histórico, filosófico e teológico – cultural, no sentido forte do termo – que, em última análise, gira em torno da questão de saber se ele teve ou não essa relação única com Deus.

As questões de Deus e de Jesus Cristo são, portanto, de fato, inseparáveis. Encontramo-nos, portanto, tanto agora como há dois anos, no coração da relação entre a fé e a cultura de hoje, por conseguinte, da tarefa do projeto cultural e muito mais amplamente da missão da Igreja.

Por qual motivo, para falar de Jesus, foi escolhido esse título? Não apenas para sublinhar a atualidade do assunto e reivindicá-la diante de quem já considera Jesus confinado ao passado, mas por uma razão mais substancial.

Falamos, de fato, de Jesus, nosso contemporâneo – e poderíamos acrescentar contemporâneo de cada homem e mulher do futuro, assim como do passado – entendendo que é contemporâneo justamente o Jesus que viveu há dois mil anos na Palestina: ele é contemporâneo na sua história humana única e irrepetível, e não simplesmente enquanto atualizado pela nossa recordação, ou mesmo pela nossa tentativa de lhe sermos fiéis, de nos inspirarmos nele no nosso modo de viver.

Assim entendido, esse título está longe de ser óbvio. Ele contém uma provocação forte que põe em causa tanto a fé quanto a história. Ainda em 1777, de fato, o grande iluminista alemão Gotthold Ephraim Lessing havia afirmado que verdades históricas não podem se tornar uma prova de verdades eternas, e que a distância histórica que continuamente se alarga entre Jesus e nós comporta uma diminuição inevitável da sua relevância para nós.

Desde então, a tendência de relegar Jesus ao passado se difundiu até se tornar, para grande parte da cultura de hoje, quase uma evidência, mesmo quando se reconhece o valor e a atualidade do seu exemplo de vida e de alguns de seus ensinamentos.

Para quem crê em Cristo e se dirige a ele como ao Senhor que está vivo e presente, nos escuta e nos sustenta – ou, melhor, como diz São Paulo aos Gálatas (2, 20), vive em nós – relegar Jesus ao passado é impossível, porém, e equivaleria a cortar o vínculo que une a nossa existência à sua. Kierkegaard já deu a Lessing, por isso, uma resposta seca, a do salto da fé que supera o tempo e nos torna contemporâneos de Jesus.

Não é esse, no entanto, o tipo de resposta em torno da qual foi construído o evento, ou pelo menos não é o todo da resposta que ele pretende nos propor.

Os quatro meios dias de palestras, testemunhos, debates, projeções, mostras cinematográficas giram em torno da ideia de que é possível manter unidos a fé em Jesus vivo e nosso contemporâneo com a sua precisa colocação na história, naquilo que aconteceu na Palestina há dois mil anos.

Isto é, da iniciativa deveria surgir aquela reviravolta que está sendo verificada justamente nestes anos nos estudos histórico-críticos de Jesus de Nazaré, reviravolta da qual os dois livros sobre Jesus de Bento XVI são, por assim dizer, o sinal e o destilado teológico e exegético. Com base nela, as tradições sobre Jesus conservadas nos Evangelhos devem ser levadas muito mais a sério do que aquilo que muitos estudiosos levaram em consideração, por razões diversas, durante mais de um século.

Assim, porém, a figura histórica de Jesus de Nazaré readquire a sua densidade e a sua concretude, de um modo novo e criticamente consciente.

Isso vale não apenas para as suas palavras, mas também para as suas obras, ou seja, para os sinais do poder de Deus que operava nele. Vale para a consciência que ele tinha da sua relação filial com Deus, da missão que o Pai tinha lhe confiado e do destino que o aguardava, de morte, mas também de salvação.

Ou, melhor, até mesmo a fé na sua ressurreição dos mortos, que é o ponto decisivo do credo e do testemunho da Igreja das origens, mas que também foi objeto do mais forte ceticismo histórico, agora é novamente considerada como dificilmente compreensível sem um sólido gancho na história.

Tudo isso representa uma face. A outra é a atualidade de Jesus, não só como é exigida pela fé nele, mas como surge daquela "história eficaz" que dele chegou até nós, mantendo e renovando continuamente aquele caráter paradoxal que se expressa pelo binômio cruz e ressurreição.

Essa atualidade e contemporaneidade de Jesus será aprofundada em Roma sob o perfil filosófico e teológico, mas também será atestada e tornada quase tangível através de várias formas de experiência: a das obras de fraternidade que brotam ainda hoje da relação com ele; a da relação pessoal e vivificante, talvez mais íntima e direta, que se estabelece entre ele e quem escolhe por transcorrer a vida mediante o silêncio e a oração em sua companhia; a suprema de quem morre mártir pela fé nele.

Esse evento é, portanto, uma proposta audaz, que, no entanto, é feita respeitosamente, dando espaço, em seu interior, também para aqueles que se movem segundo lógicas diferentes.

Também para eles e a cada um de nós, contudo, Jesus de Nazaré dirige a pergunta com a qual ele interpelou seus primeiros discípulos: "E vocês, quem dizem que eu sou?".

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