Marcelo Rossi: o padre-cantor que incendeia o Brasil

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27 Janeiro 2012

Ainda faltam muitos detalhes, mas a cruz de 42 metros já chegou, o palco com o altar encimado pela imagem de Maria está colocado. E as pessoas chegam aos poucos, ajoelhando-se nos 6.000 metros quadrados desse oásis de paz na periferia sul da metrópole brasileira de São Paulo. Trata-se do santuário Theotokos, ou Mãe de Deus, inaugurado em dezembro passado, depois de quase cinco anos de trabalho. Uma arena capaz de acomodar até 100 mil pessoas, um imenso espaço sem colunas e coberto por um telhado projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake.

A reportagem é de Andrea Galli, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 22-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É a maior igreja católica do Brasil e de todo o continente sul-americano. É o sinal tangível do sucesso que acompanha o sacerdote que o desejou e realizou, recolhendo doações e investindo os proventos dos seus produtos fonográficos e editoriais: padre Marcelo Rossi, 44 anos, 1,94 metro de altura, corpo atlético e olhar suave.

Padre Marcelo é a figura de ponta da Renovação Carismática Católica no Brasil, capaz de convocar 3 milhões de pessoas ao autódromo de São Paulo em 2008, em um encontro sob a marca da música e da oração que teve a participação de Ivete Sangalo, Cláudia Leite e outras estrelas da música pop do país. De 1998 até hoje, ele ganhou, com os seus 12 álbuns de platina, o reconhecido conferido a um cantor quando os discos vendidos superam um milhão. Seu último livro, Ágape foi disparado o best-seller de 2011, atingindo picos de vendas alcançados no passado apenas por Paulo Coelho.

Esse filho carismático, literalmente, de um casal da classe média paulista, se afastou da Igreja na adolescência, dedicando-se ao esporte e obtendo, no fim dos estudos, o diploma de professor de educação física. Aos 21 anos, perturbado por uma série de lutos na família, meditando sobre as vaidades da vida, se reaproximou dos sacramentos, amadureceu a vocação ao sacerdócio, entrou no seminário e foi ordenado em 1994. Logo começou a ser notado pelas suas homilias, pela capacidade de envolver os fiéis e de manter a cena na sua paróquia na diocese de Santo Amaro. Veio à tona por ocasião de um encontro que ele organizou, sob o título Sou feliz por ser católico, da qual participaram 70 mil pessoas. Dali em diante, foi um crescendo. Em 1998, estreou como cantor e gravou Música para louvar o Senhor, que vendeu 4 milhões de cópias, seguido de perto pelo álbum Um presente para Jesus.

Em 1999, os fiéis que acorreram ao grande encontro Saudade sim, tristeza não foram 600 mil. Em 2000, lançou Canções para um novo milênio e, em 2001, Paz, com músicas de Roberto Carlos. Em 2002, o bispo Antônio Figueiredo, que o encorajou e protegeu no seu apostolado fora dos esquemas, ele nomeou reitor do santuário Terço Bizantino. Em 2003, além de lançar mais um CD, o padre Marcelo gravou o seu primeiro filme, Maria, Mãe de Deus, que lotou os cinemas brasileiros e se classificou no sétimo lugar em bilheteria. No ano seguinte, é a vez de um outro filme, Irmãos de fé, enquanto o seu novo portal na Internet alcança seu boom de acessos. Depois, o espetáculo impressionante no autódromo de Interlagos em 2008, do qual foram lançados dois DVDs, também estes campeões de vendas.

Mudanças no catolicismo

Compreender as razões desse sucesso não é um exercício fútil, porque também significa entender o que se movimentou profundamente no catolicismo brasileiro a partir dos anos 1990.

"Quando reencontrei a fé – disse o padre Marcelo em uma entrevista –, era um período em que a Igreja estava imersa nas questões políticas, por influência da teologia da libertação, teologia que certamente teve um papel positivo durante a ditadura, mas que deixou um vazio. Eu tinha perdido um primo e andava em busca da palavra de Deus, mas chegava na Igreja e ouvia falar de política. A partir desse momento, entendi o que eu devia fazer". Ou seja, voltar ao essencial, anunciar o Evangelho, usando os meios de comunicação, a música em particular, o maior e mais transversal vetor de emoções e de palavras na cotidianidade das pessoas. Usá-la para interceptar a sede de Deus e para redespertar o amor pela Igreja, por Maria, pela Eucaristia, corroído pelo proselitismo de grupos e facções pentecostais.

O resultado dessa intuição está hoje à vista de todos e tornou o padre Marcelo uma figura tão amada pelo povo católico, quanto problemática para a hierarquia, e não só. Não por acaso, em 2007, durante a visita de Bento XVI, na grande esplanada do Campo de Marte, em São Paulo, fizeram com que ele entrasse em cena nas primeiríssimas horas da manhã, para não criar constrangimentos ou maus humores. Ver um sacerdote que galvaniza as multidões cantando e dançando, embora com decoro, é um espetáculo ainda indigesto para muitos.

E as liberdades litúrgicas que o padre Marcelo toma, não só na escolha das músicas para as celebrações, vão muito além do "cânone romano". Por outro lado, aqueles que sonhavam com uma renovação eclesial a partir das comunidades de base e da "opção preferencial pelos pobres" não conseguem entender como uma multidão de todas as classes sociais – incluindo indigentes e representantes do subproletariado urbano – acorre ao chamado de um padre que fala "apenas" de coisas espirituais, do amor de Deus, do perdão dos pecados, da alegria que o cristianismo oferece nas dificuldades e injustiças da vida.

Não só. O padre Marcelo também é um sacerdote que recorda a importância de seguir fielmente o magistério, de conhecer e defender a doutrina católica. E que, como ele declarou recentemente, se sente mais confortável com os filhos espirituais de Escrivá de Balaguer do que com aqueles que ainda estão ligados às utopias dos irmãos Boff.

Em 2005, no Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, no Vaticano, o cardeal Cláudio Hummes, então arcebispo de São Paulo, interveio na assembleia com estas palavras: "No Brasil, os católicos diminuem, em média, 1% ao ano. Em 1991, os brasileiros católicos eram cerca de 83%. Hoje, segundo novos estudos, são apenas 67%. Perguntamo-nos com angústia: até quando o Brasil ainda será um país católico? Hoje, para cada sacerdote católico, já há dois pastores protestantes, a maior parte das Igrejas pentecostais".

A Conferência dos Bispos do Brasil sabe dos riscos inerentes a uma partoral que pode deslizar facilmente em sentimentalismo, que corre o risco de imitar o estilo dos evangélicos, mas também está consciente de que a experiência do padre Marcelo Rossi tem uma importância crucial, porque é a primeira reação de massa a uma erosão do catolicismo de proporções históricas.

E o sacerdote atlético que pôs de pé uma estrutura a serviço da nova evangelização, feita de mil colaboradores, que conquistou sozinho amplos espaços na Globo, a principal rede de televisão do país, não está mais sozinho. Seguindo seus passos, cresceram outras figuras de padres-cantores-escritores com um grande número de seguidores, como o dehoniano Fábio de Melo, ou Hewaldo Trevisan, este também pároco em São Paulo, ou Reginaldo Manzotti. Todos na casa dos 40 anos, de boa aparência e de discurso inspirado. Todos ou quase todos, curiosamente, de origem italiana. E que, talvez, estarão entre os protagonistas da próxima Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro.

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