Viver diante de Deus, com Deus e sem Deus. Artigo de Enzo Bianchi

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08 Dezembro 2011

É por isso que, mesmo diante daqueles que se definem ateus, não crentes em Deus, devemos acima de tudo nos interrogar e respeita o seu mistério. Em todo homem, há a imagem de Deus, que, segundo os Padres da Igreja, não pode ser apagada nem pelos piores crimes cometidos pelo homem.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado na revista italiana Jesus, 12-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Cada vez mais, de um modo quase incessante, afirma-se que, "sem Deus, tudo é permitido", citando de modo abusivo de Fiódor Dostoévski. Isso para defender que, "com Deus ou sem Deus, tudo muda", ou que, "se Deus não é afirmado, então há perdição para o homem". A partir dessas posições, gostaria, portanto, de refletir sobre a expressão "sem Deus".

Acima de tudo, o que pode significar essa expressão para os crentes, em particular para os cristãos? Certamente não pode significar que há homens e mulheres que não estão diante de Deus, que não são suas criaturas e, portanto, seus filhos em "Adão, filho de Deus" (Lc 3, 38). Toda pessoa foi querida por Deus, veio ao mundo por vocação de Deus. Deus a acompanha e a sustenta, ou, melhor, a abençoa todos os dias da sua vida. Deus a ama sempre, mesmo quando essa pessoa contradiz a sua vontade, até no caso de blasfemar contra Ele ou de negá-Lo. Como o pai da parábola (cf. Lc 15, 11-32), o Deus narrado por Jesus Cristo continua amando e esperando quem está longe dele, até mesmo quem deseja a sua morte, a morte do pai. Sim, é escandaloso, mas essa é a verdade do Deus cristão! Na ótica dos crentes, portanto, ninguém pode existir sem Deus, nem o a-teu que se imagina sem Deus, nem mesmo o estulto que diz: "Deus não existe" (Salmo 14, 1; 53, 1).

Mas há outro modo de entender a expressão "sem Deus". É o que se encontra em uma carta escrita da prisão pelo teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, no dia 16 de julho de 1944: "Não podemos ser honestos sem reconhecer que devemos viver no mundo etsi Deus non daretur", mesmo que Deus não existisse, portanto, sem Deus. Essa expressão, na realidade, também é muitas vezes citada despropositadamente e traída por quem nela lê o anúncio de um cristianismo secularizado, de um humanismo modelado no ateísmo. Bonhoeffer não se torna um ateu, como demonstra o que ele mesmo afirma poucas linhas depois: "Diante de Deus e com Deus, vivemos sem Deus", ou seja, sem tomar Deus como refém, sem a necessidade mundana de Deus, sem considerar Deus como uma hipótese de trabalho, sem pensar em ter Deus do nosso lado, mas na gratuidade de Deus, a gratuidade do amor. Bonhoeffer pede que o homem se torne humano e faça referência, por isso, à humanidade de Jesus Cristo, aquele que "narrou Deus" (exeghésato: Jo 1, 18), até mesmo na cruz.

Portanto, é preciso prestar muito atenção para não instrumentalizar essas palavras do grande mártir cristã, acabando por negar a sua fé ou por condenar as suas expressões, que constituem um altíssimo testemunho de um cristianismo adulto e pensante, em um mundo que se tornou capaz de viver sem a hipótese Deus, em uma autonomia humana que não nega Deus e o seu amor.  "Deus" – escreveu Eberhard Jüngel – "é mais do que necessário", está no espaço da gratuidade, porque o seu amor transcende a lei da necessidade.

Quanto àqueles que se dizem ateus, sem Deus, nós, cristãos, devemos respeitar a sua afirmação, logo perguntando-nos, porém: que Deus eles negam? De que Deus querem ser livres? Do Deus que nós, cristãos, relatamos, que transmitimos culturalmente, ou do Deus que é vida, amor, misericórdia, do Deus vivo? Aqui é preciso dizer com clareza: nós, fiéis, devemos estar conscientes de que, às vezes, forjamos imagens perversas de Deus e, portanto, tornamos Deus causa de blasfêmia entre os povos (cf. Ezequiel 36, 20-22; Romanos 2, 24).

É por isso que, mesmo diante daqueles que se definem ateus, não crentes em Deus, devemos acima de tudo nos interrogar e respeita o seu mistério. Em todo homem, há a imagem de Deus (cf. Gênesis 1, 26-27), que, segundo os Padres da Igreja, não pode ser apagada nem pelos piores crimes cometidos pelo homem. Essa imagem torna toda pessoa capaz de fazer o bem, de ter uma consciência, de discernir o bem do mal. E só Deus vê o que acontece na consciência, conhece a busca do bem praticada pelos chamados ateus, a sua busca do amor. Eles não a chamam de busca de Deus, mas, de fato, como afirmou Bento XVI no dia 25 de setembro passado durante a sua viagem à Alemanha, "estão mais próximos do Reino de Deus do que os crentes 'de rotina'". Só Deus conhece a proximidade ou a distância do Reino de quem se diz sem Deus e de quem se diz crente.

Enfim, não podemos nos esquecer de que os cristãos das origens eram acusados pelos pagãos justamente de serem "a-teus", sem Deus: isto é, eles são ateus para as outras religiões, como afirma o amigo teólogo Joseph Moingt. Sim, todos nós vivemos diante de Deus, com Deus, sem Deus. E esperamos ver o Seu rosto de amor, de paz e de vida além da morte.

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