A santificação dos papas. Uma históra narrada por um historiador jesuíta

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22 Novembro 2011

O novo livro de John O`Malley tenta dar conta da progressiva afirmação do papado como núcleo central e identitário do catolicismo, a ponto de fazê-lo aparecer "hoje, talvez, mais vital do que foi em toda a sua história" (p. 7), depois de ter obtido muitos benefícios da anulação de um poder temporal há muito tempo reivindicado e defendido.

A análise é do historiador italiano Massimo Firpo, professor da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 13-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As filas de turistas que todos os dias desfilam na Capela Sistina muitas vezes não sabem nada da complexa simbologia desses afrescos, que condensam em imagens de extraordinária beleza a história universal na perspectiva de salvação cristã: da separação da luz das trevas à criação de Adão e Eva, de Noé ao dilúvio, da lei de Moisés ao evangelho de Cristo, preanunciado pelos profetas e pelas sibilas, até o último juízo. Uma história sagrada que se desenrola sob as figuras esculturais dos papas entre as janelas, indicando a ininterrupta continuidade do magistério da Igreja confiado aos seus pontífices, sentados na sedes apostolorum, sucessores de Pedro e vigários de Cristo na terra, servos dos servos de Deus, mas, ao mesmo tempo, legitimados a coroar ou a depor soberanos e imperadores, como proclamam os afrescos da Sala Regia, que está na frente da capela.

Quando foi construída e afrescada, a capela papal encerrava nessas imagens grandiosas e solenes o resultado de 1.500 anos de história do papado romano, e, desde então, um outro meio milênio se acumulou sobre a mais antiga instituição hoje existente, segunda em termos de duração – que eu saiba – apenas com relação aos faraós do antigo Egito.

De grande interesse, portanto, é percorrer novamente a história dos papas, ainda que brevemente, como fez neste livro o jesuíta John O`Malley, um prestigiado historiador norte-americano, que transcreveu o texto de 36 audioconferências gravadas.

O problema de como fazer isso, no entanto, apresenta problemas de árdua solução, mesmo prescindindo das competências intermináveis que tal síntese requer, além da exigência de conter em poucas páginas, e às vezes em poucas linhas, a história dos cerca de 256 papas de Roma (sem contar os muitos antipapas).

Somem-se a isso a escassez de notícias dos tempos mais distantes e obscuros, a dificuldade de fundir em um único projeto reinos de poucos dias e de décadas, pálidas sombras do passado como Evaristo, Aniceto, Zeferino, dos quais não somos capazes nem de especificar as datas, ou como Hormisdas, Dióscoro, Conon, dos quais as fontes nos dizem pouco ou nada; doutos Padres da Igreja como São Gregório Magno, protagonistas da história como Gregório VII e Inocêncio III, ascetas eremitas como Celestino V, que renunciou à tiara, severos inquisidores como Pio V, ou personagens como Estevão VI, que encenou um macabro processo contra o cadáver do seu predecessor, exumado propositalmente, como o depravada João XI (que subiu ao trono com apenas 18 anos em 955), como Bento IX, que vendeu o papado para depois retomá-lo à força, como o vituperadíssimo e simoníaco Alexandre VI Borgia.

E, por fim, acrescente-se que o papel por eles exercido é totalmente incompreensível se ignorarmos os contextos históricos em que agiam, seja a Itália invadida por Átila sob Leão Magno, seja o confronto com os imperadores alemães na Idade Média, a disseminação da Reforma Protestante no início da idade moderna, ou a afirmação do liberalismo e do socialismo no século XIX, além da progressiva difusão de tais contextos de Roma à Itália, da Itália à Europa, e da Europa ao mundo. O que também comporta a escolha nada óbvia de corte narrativo específico, porque a história dos papas não coincide com a história do papado e muito menos com a história da Igreja.

O`Malley procede com destreza entre tais problemas, com breves perfis dos pontífices, com rápidos acenos sobre grandes conflitos dos quais eles foram protagonistas, com sínteses gerais dos períodos em que não surgem individualidades marcantes, com alguns truques anedóticos e às vezes também com saltos ousados, que lhe permitem sobrevoar séculos inteiros de história, como por exemplo da segunda metade do século XVI à Revolução Francesa, para passar, de repente, para a conclusão do Concílio de Trento e, de São Carlos Borromeu à morte no exílio do Papa Pio VI, ou melhor, do cidadão Braschi; ocupação: pontífice.

Mas o projeto em seu complexo continua sendo claro e consiste em dar conta da progressiva afirmação do papado – mesmo entre múltiplas resistências, contrastes, retrocessos – como núcleo central e identitário do catolicismo, a ponto de fazê-lo aparecer "hoje, talvez, mais vital do que foi em toda a sua história" (p. 7), depois de ter obtido muitos benefícios da anulação de um poder temporal há muito tempo reivindicado e defendido.

Do assentamento em Roma, sacro lugar dos túmulos de Pedro e Paulo, santificado pelo sangue dos mártires perseguidos, à conversão de Constantino e do Edito de Teodósio, que, no fim do século IV, impôs o cristianismo como religião oficial do império; do precoce papel político exercido pelos papas na antiga capital do Césares abandonada a si mesma, à assunção de um papel público por parte do clero; da luta contra as heresias por meio dos Concílios e da propagação da nova religião muçulmana às disputas com os imperadores do Oriente; da estreita relação com a monarquia carolíngia, garantia do primeiro embrião do futuro Estados pontifício, e do clamoroso valor simbólico da coroação de Carlos Magno à definição de uma tradição jurídica rapidamente confluída em uma ideologia hierocrática que culminou no Dictatus papae de Gregório VII (com a sua proclamação do direito dos papas de depôr reis e imperadores, de não ser julgados por ninguém, de ser reconhecidos como santos) e no Unam sanctam de Bonifácio VIII; da idade das heresias medievais e das cruzadas à crise em Avignon e à atormentada fase dos cismas e do conciliarismo; do mundanizado papado do Renascimento à Reforma luterana e ao nascimento dos Estados absolutos, com as suas crescentes instâncias jurisdicionais; do Concílio de Trento ao confronto com as ideologias do Iluminismo até às humilhações sofridas por obra de Napoleão; da longa fase do intransigentismo do século XIX, do sílabo de Pio IX contra qualquer concessão aos tempos modernos e da proclamação da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I à Rerum Novarum de Leão XIII; da carnificina das guerras mundiais, com as acusações mortais contra Pio XII por ter fechado os olhos diante do Holocausto à reviravolta do Concílio Vaticano II desejado pelo Papa João XXIII, tão radical a ponto de ser combatida e em grande medida encoberta, até as incertas perspectivas do presente.

Ao seguir com uma veia narrativa desenvolta e factual esse bimilenário traçado, o jesuíta norte-americano não se isenta de algumas falhas apologéticas, por exemplo, quando definido como fatos históricos confirmados o primado de Pedro entre os outros apóstolos e o fato de ele ter sido o primeiro bispo de Roma, ou quando nega aquilo que as fontes dizem sobre a lascívia de Alexandre VI e sobre o total desinteresse de Leão X pelas questões religiosas, ou quando credita a Paulo III instâncias reformadoras que estiveram muito distantes dele e quando lhe atribui o mérito da convocação daquele Concílio de Trento que ele fez de tudo para evitar.

Julgamentos que se tornam mais densos nos séculos mais recentes, enquanto a história se torna mais premente, induzindo O`Malley a uma embaraçosa defesa de ofício do Syllabus de Pio IX, "não totalmente inadequado", já que "a modernidade foi uma ideologia que trouxe consigo muitas ideias hostis ao catolicismo", e da condenação do modernismo com a encíclica Pascendi de Pio X, cuja análise – escreve ele enigmaticamente – "foi a melhor possível em tais circunstâncias", ou, enfim, dos silêncio e das reticências de Pio XII diante do Holocausto.

Mas não vale a pena insistir nessas fissuras, para assinalar, ao contrário, como o livro concluiu com um julgamento sobre o pontificado carismático e conservador de João Paulo II, em que se reflete um olhar totalmente interno à Igreja, mas distante – do seu ponto de observação norte-americano – dos triunfais unanimismos do "santo já".

A busca de pôr um obstáculo às polêmicas sobre os abusos sexuais do clero com um congresso em 2003 é definida por O`Malley como "um exemplo típico das reações do Vaticano aos escândalos"; os numerosos sínodos episcopais convocados em Roma pelo Papa Wojtyla ficam esvaziados pela constatação de que "ele já tinha uma posição específica sobre grande parte deles, antes mesmo que os bispos pudessem se pronunciar".

O papa polonês é aqui apresentado como decidido a impor a "aceitação incondicional" das suas decisões "a qualquer preço", a privilegiar nas nomeações episcopais aqueles que estivessem dispostos a se inclinar com ele sem discutir sobre "temáticas potencialmente explosivas", como a do controle de natalidade, por ele levantada com renovada intransigência justamente quando parecia destinada a "morrer de morte natural" nas escolhas autônomas dos fiéis.

E o mesmo se aplica ao claro fechamento também para o futuro de qualquer possibilidade de autorizar o sacerdócio feminino e para a seca reafirmação do "caráter imutável e objetivo das verdades morais".

Desse modo, a Santa Sé "pareceu ter cedido a sua tradicional arbitragem nas disputas entre católicos", inclinando-se preventivamente e obtendo o resultado de acentuar as diferenças em vez de garantir a unidade, "gerando rancor e desconfiança", enquanto o fato de ter escapado da arma de Ali Agca reforçou o sentido místico da sua missão, "aumentando, por sua vez, o veio autoritário da sua personalidade".

São julgamentos em que parece se assomar uma perspectiva diferente das dominantes nas páginas anteriores, deixando que o fio dourado do primado romano se emaranhe nos nós das escolhas e das alternativas possíveis, e que a continuidade histórica do magistério papal se contamine com as diversas e talvez contrastantes opções religiosas, culturais e políticas daqueles que, embora não se professem seguidores dele, a ele prestam obediência.

 

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