Vaticano afirma não ter impedido a resposta irlandesa aos abusos sexuais

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04 Setembro 2011

Em uma resposta incomumente detalhada às recentes críticas do governo irlandês, o Vaticano afirmou hoje que não subverteu os esforços dos bispos irlandeses de denunciar os padres sexualmente abusivos à polícia, dizendo que as alegações em contrário do primeiro-ministro da Irlanda são "infundadas".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 03-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Vaticano já havia convocado o seu embaixador na Irlanda depois que o primeiro-ministro Enda Kenny, no dia 20 de julho, havia denunciado o que ele descreveu como "a disfunção, a desconexão, o elitismo [...] o narcisismo que domina a cultura do Vaticano até hoje", após um crítico relatório do governo sobre a diocese rural de Cloyne, que constatou que as alegações de abuso haviam sido mal geridas recentemente, em 2009.

A declaração de hoje, de 11 mil palavras, representa a resposta mais abrangente do Vaticano até hoje tanto ao relatório Cloyne quanto à declaração de Kenny, que encontrou um eco muito positivo na Irlanda, já cansada com o escândalo.

Tanto o relatório Cloyne quanto Kenny basearam grande parte de suas críticas ao Vaticano em uma carta de 1997 do núncio, ou embaixador, papal aos bispos irlandeses, da Congregação para o Clero, em Roma, então liderada pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos. A carta alterava os bispos irlandeses que alguns elementos de um esboço de diretrizes referentes ao abusos sexuais desenvolvido em 1996, incluindo o apoio a políticas de "denúncia obrigatória" de abusos infantiis, poderiam entrar em conflito com o direito canônico.

O relatório Cloyne acusou que a carta ofereceu "cobertura" para as autoridades da Igreja que optaram por ignorar as novas políticas sobre o abuso.

Com efeito, a longa resposta do Vaticano faz quatro afirmações centrais.

Primeiro, o Vaticano reiterou a sua "aversão pelos crimes de abuso sexual que ocorreram nessa diocese e, de fato, em outras dioceses da Irlanda", acrescentando que "a Santa Sé está arrependida e envergonhada pelos terríveis sofrimentos que as vítimas de abuso e suas famílias tiveram que suportar no seio da Igreja de Jesus Cristo, um lugar onde isso nunca deveria ter acontecido".

Em segundo lugar, o Vaticano afirmou que a carta de 1997 não tinha a intenção de impedir que os bispos irlandeses denunciassem o abuso infantil à polícia, mas sim de certificar que possíveis conflitos com a lei eclesial não permitiriam que os abusadores escapassem da punição eclesial com base em uma tecnicalidade. O direito civil e o direito canônico são dois sistemas separados, diz o comunicado, e nada na lei da Igreja jamais impediu que um bispo ou qualquer outra pessoa denunciassem crimes civis à polícia.

Em terceiro lugar, a declaração do Vaticano não pode ser acusada de não conceder o reconhecimento formal às políticas de 1996 dos bispos irlandeses, porque os bispos nunca pediram isso.

Em quarto lugar, a declaração sugere que o incidente de Cloyne não foi um problema na política eclesial, mas sim um fracasso em aplicá-la – especialmente os novos procedimentos da Igreja sobre o abuso adotados desde 2001.

Depois de ler o comunicado do Vaticano, o ministro das Relações Exteriores irlandês, Eamon Gilmore, disse não estar totalmente persuadido.

"Continuo com a opinião de que a carta de 1997 do então núncio forneceu um pretexto para que alguns evitassem a plena cooperação com as autoridades civis irlandesas", disse ele.

O arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, também divulgou um comunicado no sábado, em resposta à resposta do Vaticano, dizendo que ela mostra que o foco da carta de 1997 é injustificável.

A carta, disse Martin, "não impediu que os bispos irlandeses, por unanimidade, aprovassem o Documento-Quadro, aplicassem-no e consistentemente desenvolvessem esse quadro dentro das posições atuais da Igreja da Irlanda".

Na verdade, disse Martin, as autoridades que fizeram vista grossa aos abusos não precisavam de nenhuma cobertura.

"O fato é que essas mesmas pessoas [...] continuaram rejeitando as normas claras aprovadas pelo Papa Bento XVI quando foram publicadas", disse ele. "Eram pessoas que levavam em consideração apenas os seus próprios pontos de vista e não prestariam nenhuma atenção aos documentos de estudo, ao Documento-Quadro ou até mesmo às normas papais aprovadas".

"Essas pessoas podem ser poucas, mas os danos que causaram foi enorme", disse Martin.

Esses os danos, continuou Martin, ilustram a necessidade de um "processo contínuo de monitoramento e revisão independente da prática do dia a dia".

Martin também observou que os recentes documentos da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano sobre abuso sexual mencionam pelo menos 20 vezes a cooperação entre Igreja e Estado, e a importância de respeitar as leis nacionais, denunciando os abusos.

Uma proeminente vítima irlandesa, Marie Collins, disse que a defesa do Vaticano destacou a necessidade de que a Irlanda aprove uma lei que torne a não denúncia de um suspeito de abuso infantil em um crime específico.

"Enquanto ela não existe, a Igreja pode defender suas próprias ações como o documento faz", disse.

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