Padres alemães desafiam bispos acerca de dados sobre os abusos

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19 Agosto 2011

Apenas seis semanas antes da visita do Papa Bento XVI à sua Alemanha natal, um pequeno mas influente grupo de padres alemães confrontaram abertamente os bispos acerca da abordagem da Igreja ao lidar com a crise dos abusos sexuais.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada na revista católica inglesa The Tablet, 13-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No final de junho, a Conferência dos Bispos Alemães, por unanimidade, decidiu seguir em frente com dois projetos de três anos sobre os casos de abuso sexual na Igreja, a fim de restaurar a credibilidade da Igreja depois da enchente de revelações de abusos do ano passado. Todas as 27 dioceses alemãs dariam acesso completo a todos os arquivos de recursos humanos ao Instituto de Pesquisa Criminológica da Baixa Saxônia, a fim de determinar o padrão e as causas do abuso sexual clerical, pelo menos nos últimos 10 – e em alguns casos 65 – anos.

A Rede de Padres Católicos, uma associação informal de 300-500 padres alemães próxima da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro e do Círculo de Padres de Linz, primeiro escreveu aos bispos privadamente, protestando que a abertura dos arquivos diocesanos seria uma violação dos seus direitos. A rede se posiciona fortemente contra as reformas, tais como o relaxamento da regra do celibato, um maior poder aos leigos e uma maior promoção do ecumenismo, argumentando que os católicos que apoiam essas reformas deveriam se tornar protestantes.

No dia 5 de agosto, a Conferência Episcopal publicou uma declaração assinada pelo secretário da conferência, Pe. Hans Langendörfer, e pelo diretor do Instituto de Pesquisa Criminológica, Christian Pfeiffer, defendendo a sua política e detalhando como os dados que os criminologistas receberão seriam codificados, tornados anônimos e, portanto, totalmente protegidos. Todo o projeto cumpriu plenamente com as normas de proteção de dados aplicadas ao trabalho de pesquisa, enfatizou a declaração dos bispos.

Mais tarde, nesse mesmo dia, a rede publicou as suas próprias acusações publicamente online. A declaração de duas páginas termina assim: "Estamos abalados pela falta de confiança em nós, padres, e pela óbvia impotência dos nossos bispos – em cujas mãos nós literalmente colocamos o nosso destino quando fomos ordenados – e que não podem nos defender contra as acusações abrangentes em público. O fato de os nossos direitos pessoas estarem sendo violados já que o nosso acordo não foi cumprido mostra que a cooperação entre bispos e padres na Alemanha deve mudar, se esperamos que as vocações ao sacerdócio tenham algum futuro. Solicitamos, portanto, que os bispos alemães pensem sobre o que fizeram e se retratem do projeto".

Perguntado pelo sítio Kathnet no dia 8 de agosto sobre a posição da rede, o porta-voz da Conferência Episcopal Alemã, Matthias Kopp, disse: "A questão da proteção de dados e da manipulação de dados pessoais foi resolvida totalmente no dia 5 de agosto na declaração assinada pelo Pe. Langendörfer. Não há nada a acrescentar". E Christian Pfeiffer disse ao sítio Domradio.de que as acusações da rede era "incompreensíveis".

"Todos podem ler como nós planejamos proceder em nossa página eletrônica e podem ver que nós, como pesquisadores, não teremos qualquer contato com os arquivos pessoais dos padres. Estes só serão vistos por aqueles empregados diocesanos cujo trabalho sempre foi e ainda é lidar com eles", disse ele. "O objetivo é descobrir quais características particulares tinham esses sacerdotes, de que famílias provinham, para traçar as suas histórias de vida e talvez descobrir o que os levou a se tornarem criminosos".

O confronto ocorre em um momento em que as tentativas dos bispos de manter a Igreja alemã unida estão sob uma pressão cada vez maior. O impulso ecumênico do Papa é fortemente apoiado por teólogos e católicos "liberais", mas sofre resistência de católicos ultraconservadores. Alguns luteranos, entretanto, querem que o papa "admita" que os católicos se beneficiaram com a Reforma.