México, aquele "bispo rebelde" mantido sob a lupa do Vaticano

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13 Agosto 2011

Raúl Vera López terá que esclarecer em Roma suas batalhas em defesa dos homossexuais e suas posições com respeito ao aborto.

A reportagem é de Andrés Beltramo Alvarez e publicada por Vatican Inside, 11-08-2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Chama-se Raúl Vera López e é o pastor da diocese mexicana de Saltillo (no norte do país). Para alguns é um incansável defensor dos direitos humanos, para outros é simplesmente um "bispo rebelde", que deve comparecer ante a Cúria Romana para defender os homossexuais, as lésbicas e para promover o aborto. Um personagem controvertido que está sob a lupa do Vaticano.

Há poucos dias, o próprio Vera declarou publicamente ter recebido uma carta da Santa Sé, na qual era convidado a explicar o seu trabalho com o grupo de promoção homossexual conhecido como "San Elredo". A solicitação tinha chegado depois que os seus próprios fiéis haviam posto em discussão suas posições com cartazes anônimos na catedral. Três cartazes com uma frase muito expressiva: "Queremos um bispo católico!".

Em março passado teve lugar, sempre em Saltilho, o "IV Forum sobre a diversidade sexual, familiar e religiosa", organizado pela mencionada associação e durante a qual tem sido promovidos, entre outras coisas, aspectos como a adoção de crianças entre pessoas [casais] do mesmo sexo.

O bispo não se limitou a dar o próprio apoio espiritual, mas também presidiu pessoalmente a abertura do encontro. Este gesto despertou muitas preocupações entre os grupos pro-família da região e foi difundido pela agência católica de notícias ACI Press.

Embora o grupo "San Elredo" e seu assistente pastoral, o sacerdote Robert Coogan, tenham declarado que não pretendem favorecer a reforma legislativa em favor do "matrimônio homossexual", seu trabalho demonstrou nos fatos estarem além da doutrina católica. Como emerge, de resto, de uma declaração feita pelo próprio Coogan, o qual lamentou que "a única resposta que o catecismo oferece aos gays é a do celibato e isto não é adequado".

A primeira defesa de Vera, após ter confirmado a recepção da carta do Vaticano, tem sido a de acusar a agência da difusão de"notícias falsas" a seu respeito. "Na Diocese de Saltillo temos objetivos muito precisos, pois trabalhamos com a comunidade homossexual para ajudá-los a recuperar sua dignidade humana, uma dignidade ferida desde seus lares, na sociedade, onde são tratados como se fossem empestados", rebateu o prelado.

"Certamente há um chamado do Vaticano, e eu estou disposto a esclarecer as coisas... Devo responder a uma série de perguntas que a Santa Sé levanta a respeito de meu trabalho com os homossexuais, mas tem sido por causa desta agência de informação religiosa que se puseram a dizer tantas idiotices", acrescentou o bispo.


A verdade é que Raúl Vera sempre se destacou por suas posições polêmicas. É um bispo direto e sem papas na língua. O religioso dominicano (da Ordem dos Pregadores) estudou no México, depois em Bolonha e em Roma. Por sua inteligência teve uma carreira eclesial em ascensão. Recebeu a ordenação sacerdotal de Paulo VI (em 1975) e a episcopal de João Paulo II (em 1988).

Sua vizinhança com os pobres tem sido uma constante, desde seu trabalho na Ciudad Altamirano, da qual foi nomeado pastor em 1988. Em 1995 se tornou um dos possíveis sucessores de Samuel Ruiz, então bispo de San Cristóbal de las Casas (Chiapas). Aos 14 de agosto daquele mesmo ano o Papa o nomeou bispo coadjutor com direito à sucessão.

Chegou deste modo ao sudeste mexicano em 1994, ainda marcado pelo movimento guerrilheiro do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Com sua nomeação se procurava fazer sair velozmente Samuel Ruiz e frear o projeto da teologia indígena mexicana, que – então – se encontrava em seu ponto mais alto. E o Vaticano começava a mostrar as primeiras preocupações.

Mas, esta tentativa não deu certo. Pouco tempo depois de sua chegada a San Cristóbal de las Casas, Vera tornou-se de fato um dos mais radicais defensores da ação dos diáconos permanentes casados (como substitutos dos presbíteros) e da difusão daquela que em Roma chamam "Igreja diaconal", uma realidade percebida pelo Vaticano como tentativa organizada para afundar o celibato sacerdotal.

Esta mudança obrigou a Sé Apostólica a nomeá-lo bispo de Saltillo (aos 30 de dezembro de 1999), antes de ratificá-lo como sucessor de Samuel Ruiz, substituído por Felipe Arizmendi Esquivel.

A mudança não atenuou, todavia, suas reivindicações sociais. De seu posto defendeu os reclamos dos mineiros explorados e as exigências dos familiares das pessoas desaparecidas, sobretudo por culpa dos narcotraficantes.

Além disso, Raúl Vera aplicou em Saltillo o modelo pastoral de San Cristóbaol, defendendo amplamente a ordenação de diáconos permanentes casados que, segundo ele, "podem fazer o trabalho sacerdotal nas comunidades mais remotas". Seu insistente proselitismo, quase político, e suas posições não têm sido bem vistas, nem no México nem em Roma.

Outro dos seus objetivos é o atual governo mexicano e a luta engajada contra os narcotraficantes. O prelado adotou a linha dos grupos que defendem os direitos humanos, grupos que não estão de acordo com a utilização do exército na luta contra os bandos e que querem repensar toda a estratégia ante a criminalidade organizada.

Uma posição quase irredutível, compartilhada por pouquíssimas pessoas no interior da Igreja mexicana.

O último capítulo do "bispo rebelde" se verificou após uma entrevista publicada aos 3 de agosto pela agência pró-vida dos Estados Unidos LifeSiteNews.com, na qual Vera reconheceu guiar duas instituições que defendem abertamente a despenalização do aborto.

Trata-se do Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de las Casas de Chiapas (que, até sua morte era dirigida pelo bispo Samuel Ruiz) e do Centro Diocesano para os Direitos Humanos Fray Juan de Larios, fundado por ele mesmo em Saltillo.

Ambas as instituições fazem parte da rede "Todos os direitos para todos e todas", que promove o aborto como um direito humano e que defendeu a despenalização do aborto na capital mexicana em 2007. Dois Centros que, em 2008, firmaram uma declaração para opor-se a uma reforma constitucional que visava defender os não nascidos na província mexicana de Jalisco.

Por tudo isto, Raúl Vera López se tornou uma espécie de espinho no flanco do Núncio apostólico no México, Christophe Pierre, que se considerou obrigado a contar a história deste "bispo rebelde" em Roma.

E é a Roma que deverá deslocar-se porque, como ele próprio anunciou publicamente, no final de agosto ou início de setembro terá uma entrevista com o prefeito da Congregação para os Bispos da Santa Sé Marc Oullet. Embora tenha indicado que: "não é um aviso, mas um esclarecimento".

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