O câncer do homem providencial

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09 Julho 2011

Ensaísta, jornalista e historiador, o mexicano Enrique Krauze é daqueles observadores capazes de aproximar as grandes linhas de uma interpretação teórica da vida cotidiana dos personagens que fazem a história. Nascido em 1947 na Cidade do México e discípulo do Prêmio Nobel de Literatura Octavio Paz - com quem editou, de 1991 a 1996, a célebre revista literária Vuelta -, ele se dedica ao estudo da democracia e das relações de poder na América Latina.

A reportagem e a entrevista é de Ivan Marsiglia e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 10-07-2011.

Autor de O Poder e o Delírio, radiografia implacável do presidente venezuelano Hugo Chávez, saudada pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa como "uma mescla de ensaio histórico, reportagem jornalística, documento de atualidade e análise política", Krauze veio ao Brasil lançar, na 9ª Feira Literária Internacional de Paraty, sua nova obra: Os Redentores - Ideias e Poder na América Latina (Editora Saraiva). É um tratado de 606 páginas em que reconta a história do continente a partir das biografias de líderes que marcaram sua geografia política: José Martí, Che Guevara, Eva Perón, José Carlos Mariátegui, Subcomandante Marcos e Hugo Chávez, entre outros. Todos, diz o autor, com a marca do messianismo, do caudilhismo e do delírio: "Festejamos o realismo mágico na literatura, mas na política ele é um desastre".

Na entrevista a seguir, concedida em Paraty na quinta-feira, dois dias antes da mesa com John Freeman, editor da revista inglesa Granta, Krauze analisa o momento dramático por que passa Chávez e a Venezuela com a revelação do câncer do presidente, discute o novo equilíbrio de forças no continente após as eleições do direitista Sebastián Piñera no Chile e do esquerdista Ollanta Humala no Peru e conclui que a democracia avança na América Latina, mas sofre com "a persistência dessa mentalidade redentorista" e com uma recuperação econômica ainda lenta diante das enormes carências sociais da região.

Eis a entrevista.

Chávez comandou de longe a festa do bicentenário da Venezuela. O discurso vitaminado sempre foi sua marca. Isso se altera com a debilidade física que vemos agora?

Chávez identifica a Venezuela com sua biografia. Essa é uma velha noção latino-americana, a de concentrar o poder em uma pessoa, reduzindo, às vezes, a história do país à biografia dessa pessoa. O que ocorre com Chávez é a exacerbação disso. Para ele, Chávez não é parte da Venezuela. A Venezuela é uma parte de Chávez. Sua força vem do dinheiro do petróleo e do monopólio da palavra pública, que tem levado outros ditadores, como bem percebeu Goebbels, a um tipo de feitiço, uma magia sobre parte da população que acredita que a vida do comandante seja a vida do país. Se isso é verdade, o comandante está com câncer e parte da população acha que a Venezuela tem câncer. Ele vai travar a mais difícil das batalhas, mais difícil que contra o império espanhol ou o império ianque. A batalha contra a morte, contra o império do câncer. É uma grande desgraça. Na realidade, a Venezuela gastou US$ 700 bilhões e está numa situação econômica de frustração, de inflação. E está em uma posição absurda de querer se espelhar no modelo cubano, que os próprios líderes cubanos assumem ser um dos capítulos principais na história da loucura da América Latina.

Em seu livro, o sr. diz que Chávez construiu essa imagem de semelhança de si próprio com o país: "Durante os 15 anos em que tramou sua conspiração revolucionária, forjando ligações espirituais entre sua genealogia e os heróis do país, Hugo Chávez converteria a si próprio num ser fundido nos moldes do realismo mágico de García Márquez".

Sim. Ele é um personagem que encarna um país. Isso é obra de um realismo mágico da política. Festejamos o realismo mágico na literatura, mas na política é um desastre. Esse personagem é um macho prototípico. E o que ocorre quando um macho prototípico tem uma enfermidade assim? É afetado. A doença vai provavelmente obrigá-lo a se submeter à quimioterapia e ele não poderá se esconder. O câncer é na região pélvica, um dos pontos nevrálgicos da virilidade. Ademais, Chávez é um homem obcecado pela ideia da fatalidade, bipolar, que vai ter muitos problemas no poder. Aliás, já está tendo. Creio que em seu próprio grupo vá haver fissuras.

O que significa essa entrada em cena, há poucos dias, de seu irmão Adán Chávez? É uma saída à la cubana, como Fidel e Raúl?

Sim. É como uma espécie de teatro surrealista. Chávez se refugiou em Cuba e disse que era por causa da medicina cubana, mas os médicos que o operaram eram espanhóis e as biópsias foram feitas de Boston. Foi tratado nos dois "impérios": Espanha e Estados Unidos. Ele foi para Cuba a fim de se refugiar com seu pai espiritual, político e histórico, Fidel Castro. Sabe-se que Adán, o irmão mais velho de Chávez, era comunista antes dele. Só que essa transferência de poder dinástico, como está se dando em Cuba, é muito difícil na Venezuela, porque esse país tem uma tradição democrática. Não tão antiga como a da Colômbia, Chile ou Paraguai, mas uma tradição democrática que fundada pelo grande Rómulo Betancourt (presidente da Venezuela entre 1945 e 1948 e 1959 e 1964). Há uma oposição insuficientemente articulada, mas que existe. E há, sobretudo, um contexto internacional que não vai favorecer Chávez.

Com os EUA voltados para questões internas, por causa da crise, o discurso antiamericano que dá base a esses líderes redentores se enfraquece?

Claro. Examino o pensamento da revolução redentorista da América Latina com uma de suas origens, o aparecimento do imperialismo americano a partir da guerra entre Espanha e EUA por Cuba. Hoje, é difícil sustentar um discurso de Guerra Fria quando já não se está nessa guerra e o presidente americano é Barack Obama. Não podemos ignorar que a China maoista é uma da potências e estrelas capitalistas. Desde o fim da União Soviética, a opção pelo capitalismo se fez em todo lugar. Essa narrativa da revolução socialista e do discurso anti-imperialista é anacrônica, e no entanto, persiste. Vocês, no Brasil, creio que não a perseguem, mas uma parte da opinião pública mexicana está muito cega em relação a Cuba, Chávez, Nicarágua, Equador.

De onde vem essa ideia de redentores?

Durante todo o século XX, a ideia da revolução social e socialista exerceu um grande impulso sobre os escritores e os políticos da América Latina. Primeiro veio a revolução mexicana, que foi um pouco inocente, mas forte. Logo depois, veio a revolução soviética. Toda a geração de intelectuais da América Latina se apaixonou pela ideia e eu, no livro, apresento, por exemplo, Octavio Paz, que acreditou nela durante décadas de sua vida. Quando Paz começou a se desencantar, nos anos 50, sobreveio na América Latina outra revolução social, a de Cuba. Toda a geração nascida nos anos 20 e 30 dizia que, apesar de o socialismo na União Soviética ter falhado, na América Latina ele não fracassaria. E há as figuras emblemáticas de Che Guevara e Fidel Castro. Toda uma geração - hoje diria que já são duas gerações - de acadêmicos, estudantes universitários, intelectuais, escritores e políticos latino-americanos crê nessa revolução como a via de redenção social da América Latina.

Qual a consequência disso?

Em todos os países há momentos revolucionários de guerrilha cubana, de jeitos distintos, década após década. Essa ideia não morreu, mas está em transição, em crise. Alguns escritores, como Mario Vargas Llosa, que foi partidário da Revolução Cubana, começaram a entender, no final dos anos 60, que se estava formando um novo sistema totalitário. Ele foi ao extremo e adotou uma atitude liberal, política e econômica. García Márquez, por sua vez, acompanhou a vida de seu amigo, Fidel Castro, porque ele tinha adoração pelas figuras políticas fortes, pelos coronéis e generais, e porque teve quase amor pela figura do comandante Fidel. Meu livro é a história da América Latina por meio de figuras emblemáticas que se apaixonaram pela ideia da revolução. No México, o Subcomandante Marcos queria ser um Che Guevara dos índios.

Por que não há um redentor brasileiro? Getúlio Vargas ou Lula o seriam?

Esses são redentores muito suaves. Creio que, na história brasileira, provavelmente por ter havido uma monarquia constitucional racional, a ideia de um redentor político não vingou. Nos anos 30 houve Vargas, mas comparado aos outros ele esteve sempre fincado na vida constitucional, republicana, institucional, democrática. Havia limites para seu poder. Há que se distinguir um líder e um redentorista. Um líder, e creio que Lula foi um, está nessa fronteira. Tem atitudes de um redentor, tem carisma de um redentor, mas está dentro de um marco institucional.

E Evo Morales? Por que ficou de fora?

Vários personagens ficaram. Por exemplo, Pablo Neruda não está no livro, mas exemplifica um tipo de poeta também enamorado da ideia da revolução socialista da União Soviética. É verdade que ele se encanta pouco e tarde. Evo Morales não está no livro, mas está contemplado, de alguma maneira, pela revolução zapatista indigenista, que é sua precursora, e também pelo retrato de José Carlos Mariátegui, intelectual e escritor peruano que profetiza uma revolução marxista indigenista nos anos 20 e 30 no Peru. Quando ela ocorre é em território inca na Bolívia e também na zona indígena do México, em Chiapas.

O sr. já se referiu à longa "ditadura do PRI" no México. O partido saiu do poder, mas a situação não melhorou. Há uma crise econômica, de segurança e de autoridade política.

Vivemos uma transição. Desde os anos 2000, o México é um país democrático. Temos liberdade plena e de imprensa, o que não havia nos tempos do PRI. Temos divisão em três poderes, eleições livres. Mas o PRI era uma grande pirâmide de poder, que Vargas Llosa chamou de "a ditadura perfeita". Todos estavam dentro dessa pirâmide. Ela foi destruída e estão todos numa praça pública. Vai custar muito tempo, uma ou duas gerações, até que se fortaleça a vida institucional. O problema da violência, nos tempos do PRI, se resolvia porque o poder era monopólico e negociava com os criminosos e os narcotraficantes. Não estou dizendo que os presidentes eram narcotraficantes, mas eles tinham tanto poder concentrado que podiam negociar e dizer: "Essa é sua rota". Agora, os senhores do narcotráfico ficaram muito poderosos e já não temos essa presidência imperial. Então, há um efeito centrífugo do poder no México. É importante ter eleições livres, mas também ter a força de uma polícia profissional ou um sistema judicial declaradamente sério.

Depois da onda de governos de esquerda na América Latina nos últimos dez anos, tivemos a vitória de Piñera, no Chile, e, por outro lado, a de Humala, no Peru. O ciclo de governos de esquerda está se encerrando?

Há um ciclo aberto que não podemos menosprezar do poder mítico do caudilhismo messiânico na América Latina. Inclusive no México teremos outra vez, em 2012, a figura de Andrés Manuel Lopes Obrador, a quem eu, para alarme de muitos, chamei de "o messias tropical". Os dois fatos que você menciona correspondem à corrente principal da América Latina, que é a consolidação da democracia como um sistema de alternância de poder. Não é casual que tenha acontecido no Chile, que é um dos países com maior tradição política na região. O Peru também é uma prova de que é preciso levar a democracia a sério. Os três candidatos digamos liberais acharam que um deles ganharia, tiveram orgulho, mas perderam. A democracia da América Latina está avançando, mas entre os grandes riscos está a persistência dessa mentalidade redentorista, que não teve avanços substanciais na economia e na busca de uma vida melhor, mais igualitária. Sem esses avanços sempre haverá a tentação de um homem providencial.

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