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29 Junho 2011

"Venho com orgulho de uma família muito pobre". Do encontro com o Pe. Giussani ao livro com von Balthasar.

A reportagem é de Aldo Cazzullo, publicada no jornal Corriere della Sera, 29-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira coisa que chama a atenção em Angelo Scola, 69 anos, é como, na mesma pessoa, estão unidos o rigor doutrinário e o calor humano. O novo arcebispo de Milão, que em setembro irá substituir Dionigi Tettamanzi, é um intelectual, que se igualava a Joseph Ratzinger e a Urs von Balthasar nas discussões teológicas.

Porém, ele tem um trato jovial, direto, de homem do povo, como ele é. "Venho de uma família muito pobre, e sou orgulhoso por causa disso", ele gosta de lembrar. Seu pai e sua mãe viveram toda a sua vida em Malgrate, em um apartamento de 35 metros quadrados, no antigo pátio de uma grande fazenda: a sala com o fogão econômico servia de cozinha e de sala de estar, dali se passava para o quarto dos pais, "e a um cubículo onde meu irmão e eu dormíamos". No Lago de Como, Angelo Scola nasceu no dia 7 de novembro de 1941.

Seu pai Carlo era um motorista de caminhão. Dirigia um Fiat 626 que fazia no máximo 37 quilômetros por hora. "Na época, não havia direção hidráulica. Meu pai tinha que girar as rodas com a força do braço. Ele tinha músculos enormes. Levou até Messina o protótipo do poste para a iluminação do Estreito, empregando 17 dias. Sem estradas e sem telefone, jamais se sabia quando ele ia voltar. Se matou trabalhando para nos fazer estudar".

Sua mãe, Regina, muito religiosa – "para ela, crer era como respirar" –, mandava os filhos distribuir o jornal dos padres, o Resegone. O pai, ao contrário, era de esquerda. Socialista marxista. "Eu mesmo, entre os 14 e os 18 anos, durante os anos do meu liceu – escreveu Scola – fui tomado pelo interesse pela política de uma maneira tal que o pertencimento à Igreja como que caiu para o segundo plano. Havia sido tão conquistado pelos problemas sociais, políticos – eu tinha uma simpatia pelos partidos marxistas, porque o meu pai estava envolvido no partido socialista de Nenni, quando era maximalista – que estes tinham a precedência sobre todo o resto. Então, era como se Deus não existisse, como se a Igreja não existisse, como se Deus não contasse mais. Enquanto antes as questões mais importantes da vida – por que nasci? De onde venho? Para onde vou? O que estou fazendo no mundo? O que significa querer bem os amigos? O que significa sofrer? O que significa amar? – me roíam por dentro, agora eu as havia silenciado. Era como se todas essas coisas não contassem mais. Depois, graças a Deus, no final do liceu, encontrei alguns amigos que viviam tudo de uma forma mais intensa".

Entre esses amigos havia um sacerdote que ensinava religião no liceu Berchet e havia fundado a Juventude Estudantil: o padre Luigi Giussani. Formando na Ação Católica, Scola viveu de dentro a fundação e o crescimento do Comunhão e Libertação. Mas nenhum dos estereótipos evocados pelos adversários do Comunhão e Libertação lhe diz respeito. Ele não é sectário, tem uma visão aberta das relações humanas, é curioso sobre as pessoas e sobre as coisas que não conhece. E sua cor preferida não é branco nem o preto, mas sim o cinza: desde menino, chegou a contar sobre o lago nove tonalidades diferentes. "É por isso que nós, lacustres, somos um pouco crepusculares, senão justamente românticos". Na Igreja, ele não perde a confiança nem mesmo nas provas difíceis.

Ele queria se tornar padre, mas o seminário de Milão tergiversou, lhe propôs que esperasse, que fizesse primeiro o serviço militar. Então, Scola encontrou um monsenhor – Abele Conigli, manso desde o nome, bispo de Teramo – disposto a lhe ordenar logo. E tornou-se padre longe da sua diocese, que agora, a mais de 40 anos de distância, ele vai guiar.

Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica, doutorado em teologia em Friburgo. Um livro-entrevista com von Balthasar, o maior teólogo do século XX, com um título comprometedor: Vagliate ogni cosa, trattenete ciò che è buono [Avaliem todas as coisas, retenham o que é bom], um ensaio sobre Giussani, Un pensiero sorgivo, um panfleto pela editora Mondadori, Buone ragioni per la vita in comune.

Sua familiaridade com seu mestre o aproximou de um outro grande da Igreja, o cardeal Joseph Ratzinger, que ocasionalmente se encontrava com o fundador do Comunhão e Libertação para jantar e discutir teologia nas Cappellette di San Luigi, o pensionato na praça de Santa Maria Maior, em Roma, onde Scola vive com seu amigo Pe. Massimo Camisasca.

Estes são os anos da Communio, a revista com a qual os teólogos próximos de Ratzinger elaboram a sua visão do Concílio Vaticano II, atenta a evitar aquelas que eles consideram como desvios da marca de João XXIII e de Paulo VI. Wojtyla o estimava a tal ponto de querê-lo como reitor da Lateranense, patriarca de Veneza, delegado ao discurso introdutório do seu último Sínodo, assim como ele havia sido delegado de Montini.

Vida boa

Como cardeal, Scola foi construindo nos últimos anos um sistema de pensamento próprio, de fundamentos bem plantados nos papados de Wojtyla e de Ratzinger, mas com fortes elementos de autonomia. Um sistema centrado em torno de algumas palavras-chave. Começando com a "vida boa". Duas palavras que todos usam muito frequentemente, sem nunca as aproximar.

A vida na Roma de Fellini era "doce". A vida é bela, diz com razão Roberto Benigni. La bella vita é o título do filme que revelou Paolo Virzi e Sabrina Ferilli. Bella la vita foi o primeiro livro de Lucio Dalla. Para Luciano Bianciardi, a vida era, quando muito, "azeda". Foi "longa" a vida de Marianna Ucria, contada por Dacia Maraini.

Quase nunca se ouve falar de "vida boa". Scola usa essa expressão sem moralismo, como uma chave que abre todas as portas, que dá uma interpretação da política, do 1968 – sobre cujas origens ele deu uma leitura positiva, tanto que o jornal Il Manifesto o definiu como "o cardeal beat" – da escola, da família, do fim da vida e do amor.

A sua ideia é que o cristianismo não penaliza as paixões, os desejos, até os instintos. Ou melhor, ele exalta a humanidade, a diferença entre homem e mulher, a atração pelo belo. Um conceito fundamental da "vida boa" é o "belo amor": "Viver a beleza do amor significa arrancar a sexualidade do dualismo entre espírito e corpo, como se retivéssemos a sexualidade no animalesco e depois, às vezes, tivéssemos ímpetos espiritualíssimos de intenção de belo amor".

Scola rejeita a distinção entre Vênus Urania e Vênus Pandemia. No máximo, ele pensa como Pascal, quando dizia que "o homem está a meio caminho entre o animal e o anjo, mas deve estar bem atento para não olhar só para um ou outro. Cada um de nós, inseparavelmente uno de alma e de corpo, deve acertar as contas com a dimensão sexual do próprio eu por toda a vida, desde o nascimento até a morte".

Como fizeram seus pais, Scola gosta de lembrar que viu "a verdade e a beleza do amor no olhar do meu pai pela minha mãe depois de 55 anos de matrimônio". E também na alegria com que três meninos traduziam ao patriarca, em visita à sua casa, os movimentos dos olhos do pai, que sofria de esclerose lateral amiotrófica. "Me senti um verme", comentará Scola.

Essa é para ele a vida boa: a forma mais alta de liberdade, em que o querer ser e o dever ser coincidem – quer-se fazer o que se deve fazer –, animada pelo amor pelo belo, pelo bem, pelo verdadeiro, pelo eterno. Porque "não há amor sem promessa, não há promessa sem `para sempre`, e não há `para sempre` se não até o fim, até e além da morte".

Nova laicidade e mestiçagem

O novo arcebispo de Milão introduziu no mundo das ideias da Igreja outros dois conceitos fundamentais. A "nova laicidade", quase um manifesto do modo da Igreja moderna estar na sociedade e participar da discussões e das decisões políticas: sem criar um laço com um partido, sem exigir obediência, mas também sem renunciar a manifestar sua própria posição e esperar que o legislador a receba.

E a "mestiçagem" – não uma escolha, mas sim um fenômeno histórico com o qual é preciso acertas as contas –, no antípodas tanto dos retóricos do relativismo cultural, quanto dos inimigos da sociedade multiétnica. O mundo da "mestiçagem" é, ao contrário, uma sociedade integrada em que se fala italiano, árabe, inglês, francês e urdu, línguas em que é impressa a revista fundada por Scola, Oasis.

O trabalho cultural destes anos em Veneza – o Marcianum, a colaboração com a Fundação Cini, as frequentes viagens ao exterior, particularmente ao Oriente Médio – foi acompanhado por um intenso diálogo com os jovens na Internet e por uma longa viagem às paróquias venezianas. Depois, todas as noites antes de dormir, o cardeal reza a Ave Maria como quando criança.

Scola demonstrado qualidade de pastor e de comunicador que não são óbvias para um intelectual. Ele soube ouvir mundos distantes do seu, da arte contemporânea ao cinema. No último Meeting de Rimini, ele falou por duas horas para 10 mil jovens partindo de quatro filmes que ele havia visto nas férias: Matrix, dos irmãos Wachowski; Amnésia, de Nolan, E aí, meu irmão, cadê você?, dos irmãos Coen, e O concerto, de Mihaileanu.

Entre os cardeais italianos, talvez seja o que usa e permite que se use mais facilmente o "tu". Nas discussões públicas, sempre pergunta o nome do interlocutor e com seu nome se dirige a ele, talvez para criticá-lo, sem se preocupar em captar a sua benevolência. Ouvi-lo é um prazer intelectual que requer atenção. E se alguém objeta que ele fala difícil, poderia ouvir a resposta: "Quem diz isso normalmente só quer ouvir coisas que já conhece".

Esse é Angelo Scola. E isso ajuda a entender por que Milão e os católicos italianos olham para ele com grande esperança.

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