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11 Junho 2011

Publicamos aqui a Carta aos amigos, nº. 52, da comunidade monástica ecumênica de Bose, na Itália, por ocasião da festa de Pentecostes de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caros amigos e hóspedes,

Aqueles dentre vocês que frequentam com maior assiduidade ou acompanham as intervenções do Prior [Enzo Bianchi] nos jornais e periódicos devem ter notado uma crescente preocupação nossa com a situação eclesial, italiana mas não só. Percebemos um clima de cansaço, de fadiga, de abatimento, que alguém resumiu em uma expressão muito eficaz: "Falta o ar".

Aquilo que há muitos anos havia sido definido de um "cisma submerso" assumiu mais os traços de um silencio sofrido, de um recuo à parte, refletindo uma melancolia que, como névoa outonal, parece envolver e ensopar tudo. Mesmo entre nós, os mais velhos, que conheceram o impulso da primavera conciliar, veem-se desfocar cada vez mais as esperanças nascidas então pela fé sólida e pela audácia profética, não de figuras individuais, mas da máxima autoridade magisterial católica: um concílio ecumênico cum Petro et sub Petro.

Os mais jovens ressentem-se do clima de horizonte fechado com o qual a sua geração deve se confrontar cotidianamente, à qual é negada a própria credibilidade de um possível futuro melhor. Sim, dizer que "falta o ar" não significa só perceber o afã de pulmões cansados ou não irrigados por ar fresco, mas significa também a constatação de que "o nosso ar" dos fiéis, o Espírito do Senhor ressuscitado, encontra obstáculos para abrir mente e coração à sua vontade de paz e vida plena.

Assistimos à voz sempre vez mais sufocada daquela que, na Igreja, não deveria se chamar de "opinião pública", mas sim de sensus fidelium: a sensibilidade, a percepção da fé e das suas implicações que todo batizado é habilitado pelo Espírito Santo para exercer e para alimentar mediante o debate com os irmãos e as irmãs na fé, mediante a correção fraterna, a escuta recíproca, a comum edificação daquele edifício espiritual do qual somos chamados a ser "pedras vivas" (cf. 1 Pd 2, 5).

Hoje, no torpor dominante, muitos dos próprios guias da comunidade cristã parecem ser incapazes de uma palavra convicta, decidida, obediente ao "sim sim, não não" evangélico, isto é, uma palavra capaz de fazer ressoar com vigor no hoje da história as absolutas exigências cristãs.

Quando a voz de um pastor também se levanta com parresia, esta cai sem ressonâncias posteriores, porque o paradoxal cruzamento de mutismo e barulho, unido ao costume à mentira, a sufocam quando nasce ou a relegam ao campo das boas intenções de um personagem "singular".

Em contrapartida, quase todos os dias, há quem queira fazer com que a Igreja se pareça a uma arena em se enfrentam facções contrapostas, incapazes de se ouvirem e de buscarem juntas um caminho de comunhão e, ao contrário, inclinadas a calar o "outro", a prevalecer nos organogramas, a "vencer" sabe-se lá qual conflito ideológico.

Porém, Jesus advertiu com força os seus discípulos. "Não seja assim entre vós"(Mc 10,43). E os Padres do Concílio Vaticano II se comportaram "não assim", ao terem sabido confrontar as suas diversas visões de Igreja para submetê-las ao juízo da palavra de Deus e do seu fazer-se história no hoje da humanidade, até fazê-las convergir em uma leitura compartilhada, por ser dócil ao Espírito.

Este nosso tempo está se revelando como um tempo de prova e de sofrimento. Certamente, não a prova extrema da perseguição e do martírio, à qual tantos dos nossos irmãos e irmãs na fé vão ao encontro, mas sim a prova da perseverança, da fidelidade a perscrutar "como se fosse possível ver o invisível".

Mesmo depois da vitória de Cristo, depois da sua ressurreição e da transmissão das energias do Ressuscitado ao cristão, continua operante, de fato, a influência do "príncipe deste mundo" (2 Coríntios 4, 4). Portanto, o tempo do cristão permanece como tempo de exílio, de peregrinação, à espera da realidade escatológica na qual Deus será tudo em todos. O cristão sabe de fato – e jamais nos cansaremos de repetir isso em uma época que não tem mais a coragem de falar, nem perseverança, muito menos eternidade, em uma época achatada no imediato e na atualidade – que o tempo é aberto à eternidade, à vida eterna, a um tempo preenchido só por Deus: essa é a meta de todos os tempos, em que "Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hb 13,8). O télos das nossas vidas é a vida eterna, e, portanto, os nossos dias estão à espera desse encontro com o Deus que vem.

Ressoam, mais do que nunca atuais, as palavras de Dietrich Bonhoeffer, testemunha de Cristo em meio aos seus irmãos em uma época de martírio para aqueles cristãos que haviam recusado qualquer compromisso com a barbárie nazista: "A perda da memória moral não seria talvez a ruína de todos os vínculos, do amor, do matrimônio, da amizade, da fidelidade? Nada dura, nada é estável. Tudo é de curto prazo, de pouco fôlego. Mas bens como a justiça, a verdade, a beleza e, em geral, todas as grandes realizações requerem tempo, estabilidade, `memória`, senão degeneram. Quem não está disposto se responsabilizar por um passado ou construir um futuro é um `desmemoriado`, e eu não sei como se poderia agarrar, enfrentar, fazer uma pessoa como essa cair em si".

Escritas há quase 70 anos, essas palavras levantam o problema da fidelidade e da perseverança: realidades hoje raras, palavras que não sabemos mais pronunciar, dimensões às vezes sentidas até como suspeitas ou ultrapassadas e das quais – pensa-se – só algum nostálgico dos "valores de antigamente" poderia desejar um retorno.

Ora, se a fidelidade é uma virtude essencial para toda relação interpessoal, a perseverança é a virtude específica do tempo: portanto: elas, portanto, nos interpelam sobre a relação com o outro. Não só isso: os valores que todos proclamamos como grandes e absolutos existem e tomam forma só graças a elas: o que é a justiça sem a fidelidade de homens justos? O que é a liberdade sem a perseverança de pessoas livres? Não existe valor algum nem virtude alguma sem perseverança e fidelidade!

Hoje, no tempo despedaçado e sem vínculos, essas realidades se configuram como um desafio para todo ser humano e, em particular, para o cristão. Mas como reconhecer a própria fidelidade senão a partir da fé nAquele que é fiel? Nesse sentido, o cristão "fiel" é aquele que é capaz de memoria Dei, que recorda o agir do Senhor: a memória sempre renovada da fidelidade divina é o que pode suscitar e sustentar a fidelidade do fiel ao mesmo tempo em que lhe revela sua própria infidelidade. E é exatamente isso o que, no coração da vida da Igreja, ocorre na anamnese eucarística.

É para ali, ao coração da nossa fé, que devemos voltar para reencontrar esperança contra toda esperança, para reencontrar um fôlego capaz de nos abrir horizontes de vida plena novamente, porque nada jamais pode nos separar do amor de Deus e do Evangelho que no-lo narrou.

Irmãos e irmãs de Bose

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