As prioridades dos bispos: uma resposta ao relatório sobre os abusos sexuais dos EUA

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03 Junho 2011

A publicação do estudo do John Jay College é um divisor de águas. É um ponto de partida a partir do qual a Igreja Católica e, especialmente, seus líderes devem continuar tomando medidas para mostrar que serão firmes na abordagem dos abusos sexuais de menores. Este não é um tempo para que os bispos se sentem e se aplaudam por terem compreendido um momento vergonhoso da história da Igreja.

A análise é de Dom Blase J. Cupich, bispo de Spokane, Washington. O artigo foi publicado na revista dos jesuítas dos EUA, America, 30-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 18 de maio, o National Review Board divulgou um relatório intitulado As causas e o contexto dos abusos sexuais de menores por padres católicos nos Estados Unidos, 1950-2010, elaborado pelo John Jay College de Justiça Criminal. A simples menção desses dois grupos, o National Review Board e o John Jay College, trabalhando independentemente da hierarquia para produzir esse relatório, é uma rápida admissão de que, para chegar à plena compreensão e resposta à crise dos abusos sexuais na Igreja Católica dos EUA, nós, bispos, precisamos da ajuda e da assistência de outros.

É verdade que o relatório documenta uma queda muito grande no número de casos de abuso em meados da década de 1980, demonstrando que, uma vez que nós, bispos, nos demos conta do que estava acontecendo, embora tragicamente muito tarde, nós podíamos e realmente adotamos medidas fortes e eficazes. A educação sobre o problema e o estabelecimento de ambientes seguros para eliminar as oportunidades de ocorrência dos abusos se mostraram eficazes.

No entanto, assim como o relatório reforça o que nós fizemos e estamos fazendo certo para enfrentar o problema, ele também pede iniciativas adicionais para corrigir as deficiências, de forma que o abuso de menores não volte a acontecer novamente na Igreja Católica.

Enquanto os bispos terão que dar sua atenção nos próximos meses e anos para explorar plenamente as implicações desse relatório, existem várias prioridades que não podemos negligenciar. Elas incluem:

1. Manter os potenciais abusadores fora do sacerdócio.

A seleção rigorosa dos candidatos ao seminário deve continuar. Isso significa a verificação dos antecedentes e testes psicológicos aprofundados para descobrir deficiências emocionais que possam levar ao abuso. Atualmente, o Programa de Formação Sacerdotal afirma que "qualquer prova confiável no candidato de uma atração sexual por crianças exige uma dispensa imediata do seminário". Mas agora deve ser feita uma atualização para exigir a formação em um ambiente seguro, com ênfase na definição e na manutenção de limites apropriados entre os membros do clero e as crianças. Não pode haver exceções à regra de que quem não passou por uma formação em um ambiente seguro não será autorizado a trabalhar com crianças e com certeza não deve ser ordenado padre.

2. Revisar a Charter for the Protection of Children and Young People, conforme necessário.

Os bispos rotineiramente revisam a carta para as atualizações necessárias. A tarefa agora será aperfeiçoá-la ainda mais à luz desse relatório. Na revisão da Carta, os bispos devem olhar para qualquer elemento que precise de reforço ou de esclarecimento para garantir que, em todas as dioceses, qualquer padre com uma alegação de abuso admitida ou canonicamente comprovada contra si não esteja mais no ministério. Da mesma forma, o mandato da carta de que o conselho de revisão diocesano deve aconselhar o "bispo em sua avaliação das alegações de abuso sexual de menores e em sua determinação da adequação de um clérigo ao ministério" precisa de esclarecimento, assim como o significado da nossa Declaração de Compromisso Episcopal, de modo que haja uniformidade no cumprimento dos princípios da Carta.

3. Exigir uma formação profissional continuada dos padres a cada ano.

Os pesquisadores do John Jay constataram que não há nenhuma maneira infalível para prever quem será um abusador, mas descobriram que as pessoas que abusaram de jovens estavam sob estresse, muitas vezes sozinhos e também frequentemente abusavam de álcool. A formação continuada sobre como implementar efetivamente programas de ambiente seguro deve ser obrigatória para os padres, mas também deve ser obrigatório o desenvolvimento profissional contínuo, destinado a reduzir, senão eliminar, os fatores de estresse. Atenção particular deve ser dada ao crescimento espiritual dos nossos padres, pois as evidências mostram que uma vida de oração saudável é um recurso importante para lidar com o estresse de uma forma saudável e madura. Os padres merecem esse investimento e o apoio que precisam para desenvolver habilidades de defesa e válvulas de escape que não incluam drogas, álcool e exploração sexual.

4. Educar os paroquianos.

Agora, a Carta requer avaliações de antecedentes e uma formação em um ambiente seguro para qualquer pessoa que tenha um contato contínuo e sem supervisão com menores. Precisamos expandir o círculo dessas pessoas formadas para manter os ambientes seguros. Todo o nosso povo deve aprender a reconhecer e a denunciar os abusos de menores. A maneira mais simples e mais eficiente de educar os católicos que vão à igreja é por meio dos boletins paroquiais e dos sites. Além da publicação regular de informações sobre como denunciar os abusos, as paróquias, com a ajuda da nossa Secretaria de Proteção à Criança, devem rotineiramente oferecer atualizações sobre a melhor forma de manter e de melhorar seus programas de ambiente seguro.

5. Enfatizar os limites que devem existir entre um adulto e um menor.

Nos últimos anos, temos visto relatórios das dioceses e das autoridades civis sobre as violações de limites, como colocar uma mão sobre o joelho de uma criança, lutar de brincadeira com uma criança ou compartilhar álcool com um menor. Os profissionais reconhecem que esse toque e essa interação, muitas vezes, são os primeiros passos do grooming, um processo pelo qual os abusadores sexuais testam até onde podem ir para romper as barreiras naturais entre um adulto e uma criança. Os jovens de hoje são devidamente treinados para denunciar quaisquer interações que os deixem desconfortáveis. Quer essas ações estejam associadas diretamente ou levem ao abuso sexual de menores ou não, essas violações de seu espaço pessoal os desconcerta e não são inofensivas. Códigos de conduta claros e específicos sobre a interação adulto-menor, proibindo essas violações de limites, devem ser parte integrante da vida e da atividade de todas as paróquias.

6. Reconhecer a dimensão do problema dos abusos sexuais de crianças.

O estudo do John Jay aponta que o abuso sexual de menores ocorre em praticamente todas as organizações em que os adultos estão em uma relação de acompanhamento de crianças. Dizer isso não deve, de modo algum, desviar a atenção do problema dos abusos na Igreja, já que a Igreja deve ser mantida em um padrão mais elevado. Mas a Igreja deveria se preocupar com o que acontece em todas as escolas, equipes esportivas e organizações juvenis, porque elas também são vulneráveis aos abusadores. O ponto é que, em face da inevitável evidência de que o abuso sexual ocorre em todos os grupos que atendem a juventude, toda a população adulta deste país deve enfrentar o desafio de proteger as crianças de forma colaborativa e unificada.

7. Monitorar uns aos outros.

É trágico que tantos abusadores tenham molestado crianças ao longo dos anos, sem que os outros suspeitassem. Talvez os membros do clero e outros adultos que suspeitaram que algo estava errado decidiram se preocupar com suas próprias coisas. Todos os que observam um comportamento inconveniente devem levar suas preocupações às pessoas com autoridade. Essa não é uma questão de "dedurar alguém" ou colocar alguém em apuros. É uma questão de segurança das crianças.

8. Ouvir atentamente, responder diretamente.

Muito frequentemente, a primeira resposta dos administradores quando ouvem falar de um problema é esperar que ele vá embora. Essa abordagem não pode orientar o tratamento de um suposto abuso sexual de crianças. Os relatórios de suspeitas devem ser tratados imediata e diretamente. Esperar que mais alguns relatos ou incidentes surjam é como não tratar uma doença grave e contagiosa até que uma sala de aula cheia de crianças adoeça com ela. Os líderes também precisam reconhecer que, em muitos casos, leva muito tempo para que uma pessoa articule alguma coisa sobre um assunto tão sensível como a atividade sexual. Os líderes precisam ouvir não apenas as palavras que as pessoas falam, mas também as emoções por trás das palavras e a linguagem corporal que comunica o que não é dito. Os líderes da Igreja precisam enviar mensagens claras, especialmente às crianças, de que irão ouvir com simpatia e agir decisivamente quando confrontados com o abuso sexual de uma criança.

9. Colocar essa crise em perspectiva.

Dado que a existência do abuso de apenas uma criança é horrível, é difícil sentir que houve algum progresso na sociedade norte-americana a esse respeito. Mas houve. As estatísticas do John Jay mostram um declínio nos abusos sexuais de jovens nas últimas décadas, especialmente na Igreja. Pode-se argumentar que a Igreja está agindo melhor a esse respeito por causa da intensa ênfase na formação prática por meio de programas de ambiente seguro tanto para jovens, quanto para adultos. O controle da mídia sobre a Igreja provavelmente impediu que os líderes retrocedessem e se render ao "cansaço dos documentos". No entanto, levando-se em conta o que conseguimos até agora, o fato é que a Igreja não pode deixar de tomar precauções.

Uma perspectiva também é necessária quando os padres são falsamente acusado e depois inocentados. A carta pede esforços para restaurar a reputação dos padres acusados falsamente. É certo que a porcentagem dos que são falsamente acusados é pequena, mas qualquer acusação falsa é condenável aos olhos do público. Se um bispo e as estruturas diocesanas, como as comissões de revisão e os escritórios de assistência às vítimas, forem imparciais ao lidar com as vítimas/sobreviventes e o público, o bispo será mais apto a ser julgado confiável quando afirmar que um clérigo acusado foi considerado não culpado e é digno de uma assumir um cargo em uma diocese.

10. Observar e corrigir atitudes distorcidas acerca do sacerdócio.

O clericalismo é uma forma de elitismo, em que alguns são vistos como sujeitos de direitos e privilégios especiais. Ele gera uma arrogância que faz com que algumas pessoas recebam menos respeito do que outras; que permite que algumas pessoas se tornem objetos e sejam usadas e, logo, tragicamente abusadas. Nós, católicos, temos estado na vanguarda da defesa da dignidade da pessoa humana. O clericalismo é uma violação direta da dignidade humana. No caso do abuso infantil, é uma atitude que tem se tornado surda ao que as Escrituras nos dizem sobre o lugar especial que as crianças têm no reino de Deus. Elas são chamadas para a frente, como Jesus fez quando disse: "Deixai vir a mim as criancinhas" e advertiu que seria melhor ter uma pedra de moinho amarrada ao redor do pescoço e ser atirado ao mar do que ser culpado por maltratar uma criança. Quando nos damos conta de como Deus leva as crianças altamente em consideração, é difícil não respeitá-las e tratá-las com carinho, abominando qualquer coisa que as usa e as abuse.

A publicação do estudo do John Jay é um divisor de águas. É um ponto de partida a partir do qual a Igreja Católica e, especialmente, seus líderes devem continuar tomando medidas para mostrar que serão firmes na abordagem dos abusos sexuais de menores. Este não é um tempo para que os bispos se sentem e se aplaudam por terem compreendido um momento vergonhoso da história da Igreja. No mínimo, as lideranças da Igreja devem agora dar um passo à frente e oferecer uma nova vitalidade à sua promessa de proteger e ao seu compromisso de curar. Isso vai exigir, por parte dos bispos, uma grande dose de humildade, o tipo necessário para admitir que nós precisávamos da ajuda oferecida pelo National Board Review, pelo John Jay College e por tantos outros. É também o tipo de humildade expressada na confissão dos pecados há quase uma década por Dom Wilton Gregory, então presidente da conferência episcopal dos EUA:

Nosso dever diante de Deus como pastores do povo do Senhor nos torna responsáveis perante Deus e a Igreja pela saúde espiritual e moral de todos os filhos de Deus, especialmente aqueles que são frágeis e mais vulneráveis. Somos nós os que precisam se confessar, e assim o fazemos.

Somos nós os que, quer por ignorância ou por falta de vigilância ou, Deus nos livre, quer com conhecimento, permitiram que os padres abusadores permanecessem no ministério e que os transferiram a comunidades onde continuaram abusando.

Somos nós os que optaram por não denunciar as ações criminosas dos padres às autoridades, porque a lei não exigia isso. Somos nós os que se preocuparam mais com a possibilidade de escândalo do que em promover o tipo de abertura que ajuda a evitar os abusos.

E somos nós os que, às vezes, responderam às vítimas e às suas famílias como adversários e não como membros sofredores da Igreja.

Devemos manter perto de nossos corações a humildade e o profundo remorso expressados nessas palavras há quase uma década. As crianças não merecem nada menos do que isso.

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