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28 Mai 2011

Enquanto Bento XVI recorda a sua ligação com o Vaticano II, a Comissão Ecclesia Dei publica uma instrução em favor do missal de João XXIII.

A reportagem é de Jean Mercier, publicada no sítio da revista francesa La Vie, 19-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há razões para estar perplexo diante dos sinais enviados pela mais alta cúpula da Igreja. Na homilia por ocasião da beatificação de João Paulo II, no dia 1º de maio, o papa exaltou o Concílio Vaticano II. "Desejo mais uma vez expressar a minha gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II". Como se beatificar aquele que excomungou Dom Lefebvre e convidou as religiões a se reencontrarem em Assis em 1986 não fosse um sinal suficientemente claro que o papa não irá ceder um centímetro com relação ao Vaticano II.

Doze dias depois, um outro sino toca. A Comissão Ecclesia Dei do Vaticano – encarregada dos católicos ligados à forma pré-conciliar da missa – publicou uma instrução (intitulada Universae Ecclesiae) que esclarece a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum, de 2007, mas que vai muito mais longe em favor dos tradicionalistas. Quatro anos atrás, o motu proprio tinha liberado a missa segundo o Missal de João XXIII, então chamada de "forma extraordinária do único rito romano", como complemento à "forma ordinária" – ou seja, a missa na língua local que segue o missal de Paulo VI.

Como uma ironia do destino para os católicos "críticos" – que pedem que a Igreja dê um maior poder aos leigos –, Roma reforça a possibilidade para os fiéis de reivindicar a missa de sua escolha, dando à base um poder que nunca havia tido até então! De fato, enquanto a Summorum Pontificum falava de um "grupo estável de fiéis" de uma mesma paróquia, a Universae Ecclesiae fala de um grupo de pessoas "provenientes de paróquias ou dioceses diferentes" e de grupos de pessoas "numericamente menos importantes", o que abre a porta para as demandas de um punhado de militantes. Essa disposição tira de campo a objeção oposta até agora com prazer pelos párocos e bispos às demandas provenientes de católicos nem sempre pertencentes a uma única paróquia.

Mas não é só isso. A ampliação do perímetro da missa à moda antiga é grande. Refere-se, por exemplo, a todas as situações extraparoquiais: "Se um padre se apresenta ocasionalmente com algumas pessoas em uma igreja ou em um oratório" para celebrar segundo a forma extraordinária", "o pároco, o reitor ou o padre responsável pela igreja aceitará essa celebração". Uma novidade é que o Tríduo Pascal poderá ser, assim, celebrado à moda antiga nas paróquias. Em suma, o tradicionalista, padre ou fiel, não deve mais ser uma "persona non grata".

Porém, Bento XVI considera que a restauração da missa antiga não está em contradição com um sólido apego à dinâmica do Vaticano II, como estabelece a instrução: "Os fiéis que pedem a celebração da forma extraordinária não devem apoiar nem pertencer a grupos que se manifestam contrários à validade ou à legitimidade da Santa Missa ou dos Sacramentos celebrados na forma ordinária, nem ser contrários ao Romano Pontífice como Pastor Supremo da Igreja universal". Fala-se aqui de pessoas, ainda muito numerosas, que negam a validade da missa pós-conciliar.

Embora o integralismo seja rejeitado, se buscará em vão, nas novas disposições, um lembrete firme à visão encorajada por Bento XVI na carta de introdução ao motu proprio de 2007, isto é, de um "enriquecimento recíproco" entre os dois ritos e, portanto, entre os fiéis das duas sensibilidades litúrgicas. O papa explicava, por exemplo, que os padres tradicionalistas não podem excluir o novo rito de Paulo VI do seu horizonte. Tudo isso está ausente do texto de 2011, enquanto o enriquecimento recíproco é precisamente o que falta dentro de campo. Pela primeira vez, no dia 15 de maio, o cardeal Brandmüller celebrou a missa segundo a forma extraordinária na Basílica de São Pedro, em Roma. Muito simbólico.

O papa reforça a atitude ultraconservadora que assim lhe é atribuída com boa vontade? É isso também o que permita imaginar a revogação aparentemente brutal do bispo australiano de Toowoomba, William Morris, no dia 2 de maio, assinada pelo seu próprio punho. O prelado foi deposto por ter falado publicamente sobre a possibilidade de ordenar mulheres em 2006. Mas parece que essa revogação é sobretudo a conclusão de um conflito que começou desde a nomeação episcopal de Dom Morris em 1993. O bispo rejeitava as normas referentes à confissão pessoal e preconizava as absolvições coletivas. A sua deposição foi precedida por um longo processo de diálogo e por um encontro com Bento XVI. O que atenua muito a tese da brutalidade defendida por aqueles que ainda veem um inquisidor em Joseph Ratzinger.

O papa confirma a sua mão estendida aos tradicionalistas. Mas os seus gestos – a beatificação de João Paulo II e o encontro inter-religioso em Assis, em outubro próximo – provocaram a ira da Fraternidade de São Pio X, tornando a reconciliação quase impossível. Segundo as nossas informações, as negociações entre as duas partes estão em um ponto morto, e, no Vaticano, estima-se que nunca chegarão a uma conclusão positiva.

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