Energia nuclear: os avisos são claros

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02 Abril 2011

"Fukushima serve como um alerta para um planeta em aquecimento faminto por energia, tentado pela perspectiva de uma alternativa de baixo carbono para as fontes de energia atuais: o caminho não é por aí."

Publicamos aqui o editorial do jornal National Catholic Reporter, 25-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Tal como em Three Mile Island em 1970 e em Chernobyl em 1980, estaremos estudando as lições de Fukushima nas próximas décadas. Mas pelo menos uma coisa é clara hoje: os benefícios da energia nuclear são muito poucos, e as consequências do grave acidente são muito grandes para torná-lo um componente confiável no fornecimento de energia que o mundo precisa nas próximas décadas.

A energia nuclear é simplesmente muito arriscada. É uma tentação à qual os governos mundiais devem resistir.

Como dissemos, o pior ainda pode estar por vir no Japão. Essa história deplorável ainda vai levar semanas, talvez meses, para se desenrolar. Mas a perspectiva de uma nuvem radioativa gerada pelo confinamento fracassado, forçando a evacuação de vilarejos e cidades, é real, assim como o envenenamento dos suprimentos alimentares do Japão, ou o ataque de leucemia infantil semelhante ao que ocorreu em Chernobyl, na Ucrânia. (Aqueles que argumentam, como os especialistas pró-energia nuclear fizeram nos programas de televisão na semana passada, que a grande maioria dos portadores de leucemia de Chernobyl em última análise sobreviveram, precisam de um lembrete de que a dor e o sofrimento que as vítimas suportaram – ao longo de anos de efeitos colaterais provocados pela quimioterapia e, ironicamente, pela radiação para matar as células).

Esses cenários servem como um alerta para um planeta em aquecimento faminto por energia, tentado pela perspectiva de uma alternativa de baixo carbono para as fontes de energia atuais: o caminho não é por aí.

Antes de Fukushima, a energia nuclear estava passando por um aclamado "renascimento." À luz do aquecimento global, até mesmo os antigos oponentes estavam começando a repensar a sua oposição diante dessa fonte de energia controversa. Entre os apoiadores da energia nuclear, está o governo Obama, que prometeu 50 bilhões de dólares a mais em subsídios para uma indústria incapaz de atrair investimentos privados suficientes para tornar o seu produto viável.

Esses novos amigos foram uma dádiva para a indústria de energia nuclear, que havia sido proibida de instalar uma linha de plantas nucleares nos Estados Unidos nos 30 anos desde o acidente de Three Mile Island, na Pensilvânia. O entusiasmo do governo Obama pela opção nuclear prometeu um novo tempo. Internacionalmente, as crescentes economias da China e da Índia trouxeram consigo uma necessidade insaciável de energia. No mundo desenvolvido, cerca de 90% da energia da França é fornecida por usinas nucleares.

Fukushima não mudou tudo isso, mas levantou questões o suficiente para enfraquecer o "renascimento". Nos Estados Unidos, o presidente Obama ordenou que a Nuclear Regulatory Commission faça uma "revisão de segurança" das usinas de energia nuclear do país. (No entanto, ao emitir a ordem, Obama declarou que a energia nuclear é "uma parte importante do nosso futuro energético, juntamente com fontes renováveis como o vento, o Sol, o gás natural e o carvão limpo".)

Mais significativamente, na Alemanha, a chanceler Angela Merkel ordenou o fechamento do mais velho dos sete reatores nucleares do país, durante uma revisão de três meses de sua segurança.

Algumas usinas dos EUA têm uma densidade populacional extremamente alta em um raio de 50 milhas. O secretário de Energia Steven Chu, em noticiários da TV, disse recentemente que os planos de evacuação para as usinas nucleares de Indian Point, no estado de Nova York, devem ser "analisados e estudados mais detalhadamente". Cerca de 21 milhões de pessoas vivem em um raio de 50 milhas de Indian Point, 24 quilômetros ao norte de Nova York. Cinquenta milhas é o raio de evacuação ao redor das plantas nucleares danificadas pelo tsunami no Japão.

As razões secundárias para se opor à energia nuclear são imperiosas:

- Apesar de não ser uma indústria incipiente, a energia nuclear custa muito caro. Não é financeiramente viável sem o tipo de subsídios de capital que Obama está prometendo. No rastro de Fukushima, não espere que os investidores privados estejam mais entusiasmados com a energia nuclear que não venha com a promessa de maiores subsídios do governo.

- A eliminação segura dos resíduos gerados por usinas nucleares é simplesmente impossível. Cada um dos planos de eliminação previstos – incluindo a colocação dos resíduos dos EUA nas montanhas Yucca, de Nevada – traz consigo uma série de riscos que os vizinhos dos locais de eliminação rejeitam. Quem pode culpá-los?

- Nesta época de terrorismo, a ameaça representada pelas usinas nucleares – seja diretamente, através de ataques às próprias usinas, seja através do sequestro dos subprodutos necessários para produzir uma arma nuclear – é um perigo real e presente.

- A energia nuclear não é totalmente livre de emissões, se as emissões em relação à mineração de urânio, ao transporte, à construção ou destruição de instalações, e ao armazenamento de resíduos são incluídos no cálculo. Globalmente, triplicar a capacidade nuclear até 2050 pode contribuir com 12,5% a 20% das reduções de emissões necessárias para reduzir as mudanças climáticas. Mas esses cenários – uma usina a cada duas semanas – não têm qualquer ligação com a realidade política, e os custos seriam astronômicos.

Quais são as lições de Fukushima? Nós fomos avisados. Cabe a nós decidir se somos sábios o suficiente para agir a partir dessa advertência.

 

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