Dilma em busca de seu estilo

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26 Março 2011

"Numa República presidencialista, o supremo mandatário tem de se comunicar bem. Precisa persuadir", afirma Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política na USP, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 27-03-2011.

Eis o artigo.

O Brasil já elegeu, democraticamente, sete presidentes civis: Getúlio Vargas (em 1950), Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não incluo na lista os escolhidos em pleitos fraudados na República Velha, os ditadores e os substitutos que se tornaram presidentes. Ora, todos esses eleitos foram ou são bons comunicadores - com exceção da nossa atual presidente.

Este é um problema. Dilma tem sido elogiada pelo perfil discreto, pelo empenho contra a corrupção, pela dedicação ao funcionamento da máquina de governo e pela elegância com que convidou os antecessores a encontrar o presidente dos EUA, Barack Obama. Admiro tudo isso. Mas, numa República presidencialista, o supremo mandatário tem de se comunicar bem. Precisa persuadir. Cada um dos nomes citados fez isso a seu modo. Curiosamente, um dos mais prestigiados, Getúlio, não seria aceitável nos padrões atuais. Lembra Fernando Henrique Cardoso, em entrevista que me deu para a revista Sociologia, Ciência e Vida (2010), que o ex-ditador não falava com a massa, do modo de Lula e do próprio FHC: "Getúlio Vargas lia discursos absolutamente cultos e chatos. Ele se dirigia à massa de chapéu, charuto, jogava golfe". Com a censura e a Hora do Brasil, isso bastava; hoje, não.

Jânio e Collor foram os mais demagogos dos presidentes eleitos; em compensação, os dois últimos presidentes souberam construir maiorias de opinião bem produtivas. Fernando Henrique Cardoso foi mais racional, Lula captou melhor a emoção. Mas FHC é modesto quando fala de sua racionalidade. "Nunca tive problema para me comunicar", afirma. "Diziam que eu não teria voto porque não sabia falar com o povo, mas nunca tive o problema de fazer com que as pessoas entendam o que digo. Eu era um sociólogo de campo, trabalhava com a favela, com negros, com pobres, com gente não culta; sempre fiz muita pesquisa de campo, então tive de falar de jeito acessível. Sou mais racional (que Lula), mas uso uma razão no nível do senso comum, para que as pessoas entendam."

Lula comunica-se de outro modo. Alguns zombaram de suas metáforas, mas acho-as preciosas. FHC justificava-se, quando não podia implementar uma política que prometera, recorrendo à ética weberiana da responsabilidade. Mas, quando Lula usava imagens, com elas respondia à mesma questão que seu antecessor. Uma jabuticabeira demora anos antes de dar fruto. Não se conseguem os resultados com a rapidez desejada. É preciso paciência. Esse é um dos papéis do governante. Precisa convencer, dia após dia, seus eleitores de que não os traiu, e de que ou tem boas razões para não executar o prometido (crises mundiais, dizia FHC) ou acabará por executá-lo, ainda que a longo prazo e com certos custos não muito bonitos (as alianças de ambos com políticos fisiológicos). Um discurso que compara a demora na política ao tempo que leva uma árvore para frutificar, ou uma criança para andar, é acessível a todos, mesmo aos cidadãos menos cultos.

Por que o presidente tem de se comunicar bem, numa democracia de massas? A primeira razão é essa necessidade de constantemente se relegitimar, sobretudo quando as ações ficam aquém das palavras - o que, aliás, é inevitável. Mas também porque ele deve construir uma maioria significativa que apoie as inovações de seu governo. Para FHC, talvez tenha sido fácil vender a nova moeda, o real, acabando com a inflação, mas as privatizações exigiram mais persuasão. Para Lula, até parece fácil ter vendido o Bolsa-Família, mas as ações de seu governo tiveram alto custo, passando até pelo risco de impeachment.

Talvez por isso, os melhores momentos deles foram quando tiveram um chief minister, um primeiro-ministro incumbido da gestão - alguém de visão política, mas cujo papel é articular os ministros para que a máquina administrativa gere os resultados almejados. FHC teve Sérgio Motta, não conseguindo substituí-lo à altura depois de sua precoce morte, o que pode ter prejudicado o seu governo. Lula teve Dilma Rousseff, que ajudou muito seu segundo mandato. Não por acaso, Motta e Dilma passaram a imagem de durões. Mas a divisão de papéis parece boa. O presidente é simpático, fala ao povo, conquista apoio e, indiretamente, pressiona um Congresso que, pelo número de partidos, sempre dá trabalho. O ministro que chefia a gestão faz a articulação interna e, eventualmente, até repreende e pune, mesmo correndo o risco de ser antipático. O presidente é o grande comunicador, mas lidera a máquina. Já o ministro-chefe é quem azeita esta última.

O que faltaria à presidente Dilma Rousseff? Talvez devesse assumir o papel que os outros seis presidentes civis democraticamente eleitos tiveram, tão bem cumprido pelos dois últimos. Até agora, sua comunicação titubeia. Registrou o Estado que, num comício na Bahia, ela só entusiasmou a massa quando citou Lula. Precisaria melhorar, mas isso não depende de técnicas oratórias. Porque FHC e Lula conquistaram, cada um, o País para uma nova agenda, mais econômica a primeira, mais social a segunda. Poderia a presidente Dilma simplesmente seguir a agenda construída por Lula - mas nos acostumamos a presidentes de impacto, e isso pode decepcionar. Mesmo dando continuidade às políticas de Lula, como deve dar, terá de encontrar seu estilo, ser capaz de galvanizar o povo e de delegar a gestão. Isso não é simples, porém é importante - pelo menos, se seguirmos o modelo bastante eficaz da Presidência que tivemos nos últimos 16 anos.

Mas também há a hipótese de que um modelo mais discreto se esteja definindo com Dilma, curiosamente um modelo que lembra o que seria de José Serra: mais gestão do que liderança. Porque os padrões políticos mudam com o tempo e talvez hoje não necessitemos de líderes como precisávamos quando o Brasil vivia a inflação, a discussão sobre o papel do Estado e ainda não estava consolidada a prioridade de políticas sociais.

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