"A revolução egípcia é pós-secular e pós-religiosa"

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25 Março 2011

Entrevista: Charles Hirschkind, antropólogo e professor da Universidade da Califórnia (Berkeley)

Décadas antes de o Facebook ter se tornado um dos símbolos da revolução no Egito, o público do Oriente Médio consumia avidamente mensagens políticas e religiosas difundidas de uma forma ainda mais prosaica: por meio de sermões gravados em fitas cassete. O hábito de gravar sermões chamou atenção do jovem antropólogo Charles Hirschkind. O tema inspirou o primeiro livro do americano, The Ethical Soundscape (Paisagem Sonora Ética, inédito em português).

Fluente em árabe, Hirshckind, hoje professor de antropologia cultural da Universidade da Califórnia (Berkeley), visitou o Egito por muitas vezes. É também um observador atento dos acontecimentos em todo o mundo árabe, a ponto de ser citado como autoridade no assunto pelo professor emérito de Berkeley Ira M. Lapidus, autor do clássico History of Islamic Societies.

A entrevista é de Luiz Antônio Araujo e publicada pelo jornal Zero Hora, 26-03-2011.

Eis a entrevista.

O senhor deve ter ouvido a piada: Hosni Mubarak, ex-ditador do Egito, morre e encontra seus antecessores Gamal Abdel Nasser e Anwar el-Sadat no além. Eles lhe perguntam se foi vítima de veneno ou de atentado. Ele responde: “De Facebook”. Até que ponto a internet influenciou a situação no Oriente Médio?

Sim, ouvi a piada. Há um pouco de exagero no que se refere ao papel da internet. Não acho que se deva dizer que isso aconteceria sem a internet, mas formas de mediação sempre foram importante nas mobilizações políticas. No caso do Egito, todo mundo fala na internet, mas o fato é que nos últimos cinco anos houve um grande aumento de manifestações de rua como veículo para articular demandas políticas. Houve centenas de greves e protestos de rua nos últimos anos em diferentes partes do Egito. Emergiu uma cultura de protesto. Isso não foi produzido simplesmente pela internet, apesar de a rede ter sido usada para arregimentar manifestantes.

Para alguns analistas, há uma nova geração de árabes conectados à internet e influenciados por valores ocidentais como liberdade de expressão e eleições livres. O senhor concorda?

Considero equivocado dizer que é dada importância a valores ocidentais. Se você perceber a forma como esses movimentos emergiram, o futuro dessas pessoas foi barrado por regimes ditatoriais e autoritários. O que propiciou essas manifestações foi a demanda pela abertura de um campo político no qual as pessoas teriam voz e poderiam moldar seu próprio futuro sem empobrecimento, falta de acesso a serviços de saúde, detenções rotineiras e torturas. Essas coisas não são valores ocidentais. O desejo de não ser torturado, de poder decidir o próprio futuro, de poder levar crianças à escola com segurança e esperar que elas aprendam, não é específico dos valores ocidentais. É um erro pensar que isso é aspiração de uma nova geração e que a velha gostava de viver sob a tirania.

Segundo alguns, a democracia não seria adequada ao Oriente Médio, uma vez que eleições teriam levado à vitória do Hamas em Gaza, do Hezbollah no Líbano e, obviamente, o regime iraquiano não seria inspirador. Assim, seria melhor uma ditadura sólida do que uma democracia sequestrada.

A questão é: melhor para quem? O fato de que os palestinos de Gaza, no que consideramos eleições democráticas justas, terem decidido eleger o Hamas não tem nada a ver com falta de adequação do Oriente Médio à democracia. Apenas significa que as pessoas na região pensaram que o Hamas refletia seus próprios interesses e desejos. As políticas do Hamas foram tidas como mais “realistas”, dadas as condições em que as pessoas vivem em Gaza. Isso não me parece nenhum desafio à adequação da democracia para o Oriente Médio, mas apenas um desafio aos interesses europeus e americanos. Se você vê a democracia apenas pelo ângulo de que ela deve servir aos interesses americanos, então esse é um argumento segundo o qual ditadores são uma solução melhor. Se leva em consideração o bem-estar dos habitantes da região, então a defesa das ditaduras não significa nada.

O senhor esteve muitas vezes no Cairo e conhece militantes da Irmandade Muçulmana. Qual é sua visão desse grupo e sobre o papel que desempenhará no futuro do Egito?

A Irmandade abandonou a militância como método de ação política décadas atrás. Por muitos anos, esteve dividida em um grande número de linhas, cada uma referente a uma geração. Muitos jovens da Irmandade afastaram-se das políticas e das estratégias das gerações mais antigas. Foi dito que a Irmandade Muçulmana “perdeu o bonde” nas manifestações, mas o fato é que estava muito presente. Simplesmente, a velha guarda não estava participando ativamente do comando das mobilizações, mas muitos membros mais jovens desempenharam papel importante. A velha guarda já estava, de certo modo, sendo marginalizada há alguns anos, e há um setor mais jovem que já vinha trabalhando em coalizão com outras forças democráticas. Esse setor colabora com grupos seculares de esquerda, com partidos de oposição mais novos, mas principalmente com líderes de organizações democráticas como a Kefaya e grupos do Facebook.

Qual é a razão de os partidos fundamentalistas terem um papel secundário?

Não há o que se possa chamar de “partidos fundamentalistas” no Egito. A maioria vem da Irmandade, mas eu não os chamaria de fundamentalistas, dado que, por muitos anos, eles foram provavelmente o partido que pressionou mais pela transformação democrática. Há, isso sim, tendências religiosas. Uma delas é a dos salafistas que, pelo que sei, desempenha um papel menor e que talvez, por vezes, tenha apoiado mais o regime do que os manifestantes. Esse é um aspecto muito interessante. As instituições religiosas estatais mais antigas, controladas pelos mufti, criticavam os protestos. Os salafistas centram-se mais ao redor dos pregadores que são populares na TV por satélite e na internet. Alguns deram apoio caloroso à revolução, e alguns a criticaram. Acho que houve, de fato, uma fratura em alguns dos grupos religiosos do Egito. Simplesmente houve um divórcio entre política e religião.

Os religiosos ficaram divididos entre Mubarak e a Praça Tahrir?

Alguns setores estavam divididos, sim. Não foi um evento religioso, mas, por outro lado, atores religiosos desempenharam nele um papel significativo. É por isso que também reluto em definir o processo egípcio como secular. Foi um fenômeno político que emergiu nos últimos anos por fora da divisão entre fundamentalismo e secularismo que regia a política no Egito. Tudo começou com pessoas que vinham de partidos islâmicos e seculares e partilhavam uma agenda política. Assim, a revolução egípcia é pós-secular e pós-religiosa e retira energia das duas vertentes.

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