Fukushima, o alarme do governo

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20 Março 2011

"É agora ou nunca mais", anuncia na TV o ministro da Defesa Toshibmi Kitazawa. "É o último dia, depois será o desastre". Ele se volta para a tela às suas costas e indica os grandes C-47 Chinook do Exército japonês que sobrevoam os três reatores reduzidos a carcaças fumegantes.

A reportagem é de Daniele Mastrogiacomo, publicada no jornal La Repubblica, 18-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A câmera foca os helicópteros. Encostam no mar, pousam o cesto, o retiram, apontam diretamente para o Fukushima Daiini, viram-no e deixam cair uma cascata de chuva salgada. A água se perde no ar, dispersa por fortes rajadas de vento. São 30 toneladas, mas parecem orvalho quando pousam sobre as placas ardentes dos três reatores.

O impacto levanta uma imensa nuvem de vapor para o céu. Sabe-se lá o que há em seu interior. Os helicópteros fazem duas, três passagens: 40 minutos ao todo. O tempo suficiente para não absorver doses letais de radiação. São 10h, registra-se um pouco de contaminação de isótopos que faz estremecer: 400 milliSievert. Cairão para 8, mas subirão rapidamente para 370.

O governo de Naoto Kan está sob acusação. Por parte dos cidadãos que se sentiram traídos como súditos obsequiosos e agora humilhados diante do mundo. Por parte da comunidade internacional que olha com terror para essa bomba pronta para explodir. Não é mais mistério o forte descontentamento norte-americano: por causa dos dados contraditórios, transmitidos com relutância, muitas vezes com atraso, que assumiram as semelhanças de uma absurda mentira. É um coro de protestos e de acusações que cresce em todo o planeta. O medo do fim, do grande golpe que acertará as contas com as nossas civilizações, se assoma no precipício de Fukushima. A China grita, exigindo "notícias precisas e oportunas logo". A Rússia de Medvedev está gélida, falando de "uma catástrofe". Mas também a Austrália, a Nova Zelândia, até a Papua-Nova Guiné e os pobres atoleiros do Pacífico, já invadidos pelas primeiras nuvens radioativas.

A verdade se impõe com os dados: as radiações continuam vazando. Há um penacho branco sobre a carcaça do reator 3 há quatro dias. Mas aqui não se trata de apagar um incêndio florestal. Falamos de centrais nucleares, atingidas por explosões e descobertas em mais de um ponto. A tentativa dos helicópteros, fruto de um desespero crescente, também fracassa. Têm algum resultado os seis caminhões dos bombeiros enviados ao local. Mas é pouco, parece uma carícia.

Fukushima é quase um deserto, pontilhada por carcaças, emaranhados de lâminas, barras de ferro, pedaços de cimento, estruturas enegrecidas pelo fogo. Ao redor, uma colcha radioativa. A NHK, a TV Pública, mostra-os continuamente: ao vivo, com desenhos, gráficos, relevos. Os japoneses acompanham resignados essa batalha que decide o seu futuro, mas são obrigados a observá-la como espectadores impotentes. A raríssima aparição do imperador também lhes demonstra a gravidade do momento.

O presidente Obama chama o primeiro-ministro Naoto Kan e avisa que, a partir de agora, haverá "uma estreita colaboração". É talvez o início de uma mudança de rota, de uma intervenção direta sem atacar a integridade de um Estado soberano. O Pentágono envia uma equipe de especialistas nucleares. Mas dos EUA chovem acusações: "A situação é bem mais grave do que a que os japoneses descrevem", diz o presidente da Comissão para a Regulamentação da Energia Nuclear, Gregory Jaczko. A chegada a Tóquio do diretor-geral da AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica], Yukiya Amano, faz parte do novo curso. Como responsável pela segurança nuclear, mas também como japonês, poderá bater os punhos e exigir a verdade. Fontes qualificadas da Agência de Viena nos dizem que Amano está furioso com os homens da agência japonesa para a energia atômica e com os técnicos da Tepco que administram Fukushima. Eles lhe repassaram dados genéricos e frequentemente falsos. Por causa daquele pudor de admitir uma culpa que julgam como uma afronta irreparável.

Os norte-americanos apontaram o dedo contra o reator 4, porque o consideram, em uma escala de prioridade, como o mais perigoso. Estava desligado, e as suas barras de combustível exaurido, como ocorre nesses casos, foram colocadas em uma piscina que se encontra acima do reator. Está protegida só por um teto de cimento de um metro e meio de grossura. As barras são extremamente radioativas, porque contêm cerca de 870 isótopos em comparação com os 100 presentes no combustível de um reator em funcionamento, como o número 3, protegido por uma couraça de aço, difícil de ser rachado. Cheios das desmentidas, os norte-americanos denunciaram que o tanque do reator 4 estava vazia: a explosão é iminente.

A Tepco logo negou com raiva e defendeu que a verdadeira emergência é o reator vizinho, o 3, onde está o "mox", a mistura de urânio e plutônio. Portanto, mais perigoso. As próprias fontes da AIEA nos confirmam que se trata de uma tolice: a periculosidade de uma instalação não é medida pelo tipo de combustível, mas pelas suas medidas de segurança. Sempre há urânio e plutônio depois do processo de fissão que gera a energia atômica. A verdade é que o combustível do reator 3 é mais segura, embora agora ele esteja envolvido por uma massa de detritos. Está fechado em um invólucro de aço, que fecha também o núcleo, e envolto por um segundo recipiente de cimento. A menos que estejam trincados: mas isso os japoneses não dizem. O reator 4, livre nos tanques já sem água, pode liberar o seu poderosíssimo veneno de uma hora para a outra.

A mistura explosiva das suas feras feridas dá medo. Todas as embaixadas ordenaram a evacuação do Japão. A França está mais à frente: começou a distribuir pastilhas de iodo para os seus conterrâneos. A Itália, sempre última, se alinha depois de estúpidas resistências. Tóquio se esvazia. Osaka está em colapso. Poucas pessoas pelas ruas, muitíssimas máscaras, rostos tensos, perdidos. É a grande fuga.

O enésimo tremor faz vibrar, poucos minutos atrás, os palácios daqui, do profundo sudeste. A TV imortaliza as vibrações com as suas câmeras posicionadas em todas as cidades. Aparece o mapa com o epicentro do terremoto e as diversas intensidades advertidas. Os trens param, bólidos a 450 quilômetros por hora, advertidos pelos sensores nos trilhos. Recomeçam quando acaba. Tudo transmitido ao vivo. Você também pode ver no celular enquanto caminha pela rua. Esse é o Japão: tecnologia do futuro, impotência do presente.

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