Um projeto para o nosso tempo. Artigo de Pedro Gilberto Gomes

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19 Março 2011

"É indispensável, na atual quadra em que estamos vivendo, buscar elementos que ajudem a compreender o momento. Somos de opinião que Inácio de Loyola é um homem que pode trazer processos e conceitos aptos para auxiliar na semantização do presente. Para compreender isso, torna-se importante traçar um esboço da vida de Inácio de Loyola e a conseqüente criação da Companhia de Jesus", escreve Pedro Gilberto Gomes, jesuíta, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e pró-reitor acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Segundo o pesquisador, "hoje a sociedade vive a urgência dc uma nova inculturação que, sem perder suas raízes históricas, assume, com coragem e determinação, o novo que está surgindo. Há um novo apontando no horizonte, não físico, como no século XV e inícios do século XVI, mas teórico, espiritual. Uma sociedade em rede, envolvendo todo o universo, num manto inconsútil, que transforma corações e mentes".

Entre as obras de Pedro Gilberto Gomes, destacamos Filosofia e ética da comunicação na midiatização da sociedade (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006), Comunicação e governabilidade na América Latina (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2008) e Midiatização e processos sociais na América Latina (São Paulo: Paulus, 2008) e Da Igreja Eletrônica à Sociedade em Midiatizaçao (São Paulo: Paulinas, 2010).

Eis o artigo.

É indispensável, na atual quadra em que estamos vivendo, buscar elementos que ajudem a compreender o momento. Somos de opinião que Inácio de Loyola é um homem que pode trazer processos e conceitos aptos para auxiliar na semantização do presente. Para compreender isso, torna-se importante traçar um esboço da vida de Inácio de Loyola e a conseqüente criação da Companhia de Jesus.

Nascido de família nobre, em Azpeitia, região basca da Espanha, Inácio de Loyola foi pajem da corte espanhola, tendo pela frente uma carreira militar promissora. Em 1516, aos 30 anos, foi chamado para defender o território basco dos seus vizinhos franceses. Na batalha de Pamplona, foi ferido na perna. Durante sua recuperação, ao ler sobre a vida dos santos, passa por processo de conversão espiritual e decide deixar a vida militar para seguir e difundir a palavra de Jesus Cristo.

Nesse período de busca existencial, vai estudar na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde ganha companheiros espirituais para sua causa: seguir a palavra de Cristo. Em 1539, ele e os companheiros lançam os fundamentos da Companhia de Jesus, ordem que se empenhou na restauração católica em todas as regiões da terra.  Inácio morre em 1556, aos 65 anos. Em 31 de julho de 1622, é canonizado pelo Papa Gregório XV.

Santo Inácio não possui um apelo devocional popular. Sua devoção não encontrou eco na piedade do povo, tal como aconteceu, por exemplo, com São Francisco de Assis. No entanto, sua vida transformou a história da Igreja Católica. A influência de sua obra perdura.

Hoje, nos questionamos a respeito das causas de tal influência. Em primeiro lugar, Santo Inácio desenvolveu um processo de profundo conhecimento de si mesmo. A partir disso, comprometeu-se amorosamente com o projeto do Reino de Deus anunciado presente entre os homens por Jesus Cristo. Procurando em tudo amar e servir, Inácio de Loyola foi criativo, dedicando-se à missão a que se propunha com heroísmo e sempre na dinâmica do magis: em tudo, a busca do mais.

Não se contentou em fazer sempre o mesmo, em repetir experiências passadas, em trilhar caminhos já percorridos. Desafiando seus primeiros companheiros a estabelecer diferenciais na vida da Igreja, ousou o novo. Depois de profunda reflexão, chegaram à conclusão de que deveriam fundar uma ordem religiosa. Contudo, essa ordem não poderia repetir as demais, ao contrário, era imperioso que se diferenciasse delas, num projeto novo que não perdesse a riqueza da tradição. A ordem deveria ser contemplativa (nisso, ligava-se à tradição) na ação (aqui começava a diferenciação). Sua ordem não deveria padecer das limitações das demais, que impediam uma resposta pronta, imediata e criativa aos desafios do presente. Os membros da ordem fariam os votos de castidade, pobreza e obediência (de acordo com a tradição), mas estes assumiriam uma conotação ativa, com o acréscimo de um quarto voto especial de obediência ao papa (inovavam com respeito às demais).

Foi graças a essa mobilidade, a essa liberdade e a esse espírito criativo que a Companhia de Jesus (aqui outra inovação, ao não dar à instituição que fundava o seu próprio nome) soube adaptar-se ao momento eclesial, social e econômico do século XVI.

O momento do surgimento da Companhia de Jesus na Europa coincidiu com uma intensa transformação social. O mundo (ambiente) conhecido na Europa estava sendo questionado. O Eurocentrismo era desafiado pelos novos descobrimentos marítimos. Espanha e Portugal espalhavam suas naves pelos diversos quadrantes do mundo. Novas culturas, novos modos de vida, novas maneiras de ver e resignificar o mundo. Um vasto mundo, grande parte desconhecido, invadia a Europa, apresentando mundivisões e modos de ser no mundo diferente.

Nesse contexto de ebulição Inácio de Loyola congrega seus companheiros e funda uma nova Ordem Religiosa.

Com poucos anos de vida, a Ordem dos Jesuítas já enviava missionários ao Brasil. Logo se disseminaram pelos mundos conhecidos: Japão, Índia, China, América. Um dos primeiros companheiros, Francisco Xavier, foi para Índia e Japão e morreu tentando entrar na China. Na América, os jesuítas foram os criadores de uma das mais originais propostas de evangelização: as reduções.

A aquisição de territórios enormes, pelas nações católicas de Espanha e Portugal, fez com que a Companhia de Jesus se incorporasse na colonização dessas nações. Em 1749, os jesuítas se encontravam distribuídos nos cinco continentes.

No Brasil, os primeiros jesuítas chegaram ao país em 1549. Os padres Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e Manoel de Paiva iniciam suas atividades em Piratininga, em 25 de janeiro de 1554, construindo um colégio, que viria a ser o núcleo em torno do qual se ergueria o povoado (e posteriormente a cidade) de São Paulo. No atual estado do Rio Grande do Sul, os jesuítas desenvolveram intensa atividade missionária conhecida como Missões Guaranis.

A Companhia de Jesus interliga o compromisso histórico, a formação antropológica e a visão ética da vida em sociedade. Compromete-se com a promoção da fé, do amor, da justiça, da liberdade, do respeito à dignidade humana, da solidariedade, do diálogo cultural e inter-religioso, estando aberta a conhecer e reconhecer a alteridade e o diverso. Os ideais de qualidade de vida sustentada por esses valores constituem o magis. A dinâmica do mais é essencial na espiritualidade inaciana e ilumina todas as ações jesuítas.

Este disseminar-se pelo novo mundo exigiu adaptações que, sem desfazer-se das raízes culturais em que foi criada, impunha à Companhia de Jesus uma abertura ao novo e a criação de novos conceitos e hábitos adequados para a apresentação da mensagem evangélica. A nova realidade determinou que a Companhia desenvolvesse uma dinâmica de inculturação nas culturas recém-encontradas.

Esse processo não se realizou sem conflitos. De um lado estavam aqueles que, permanecendo no velho ambiente, acreditavam que, junto com a evangelização, dever-se-ia proceder à europeização das culturas com as quais se encontravam. De outro, estava a Companhia de Jesus (os jesuítas) que distinguiam entre as duas realidades. Evangelizar as culturas não implicava em levar para elas (ou trazê-las para) a cultura européia. Daí o embate ferrenho para adaptar os ritos na Índia, China, Japão.

Hoje estamos vivendo uma situação análoga. Outra vez estamos no limiar de uma nova cultura, de um novo ambiente, consubstanciado pelo processo de midiatização da sociedade. Essa situação exige disponibilidade, abertura para o novo e criatividade. Os critérios do antigo ambiente do mundo moderno não mais dão conta da realidade que se está gestando. Isto é, eles não alcançam semantizar corretamente esse novo modo de ser no mundo.

Aceitar a midiatização como um novo modo de ser no mundo coloca-nos numa nova ambiência que, se bem tenha fundamento no processo desenvolvido até aqui, significa um salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal. Mesmo que as mediações, tanto materiais quanto simbólicas, estejam unidas no processo de midiatização, essa não é um passo a mais num processo evolutivo, mas um novo qualitativo.

Essa nova forma de inteligibilidade ultrapassa uma visão de técnica que, mais que estimular, disciplina as pessoas para agir em determinada direção, para assumir certas condutas sociais, configurando uma idéia de poder que permanece ainda na modernidade. A técnica fica apenas como um instrumento para o exercício do poder. Portanto, não permite a compreensão dessa totalidade nova. Na sociedade do grande irmão, a tecnologia midiática é uma ambiência que trabalha na construção de sentido, induzindo uma forma de organização social. A midiatização está configurando a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade. A estruturação de uma visão totalizante não mais dar-se-ia mediante a reflexão e o pensamento, mas através da prática glo(tri)balizante.

Aqui entra a espiritualidade da Companhia de Jesus e os princípios formulados por Santo Inácio de Loyola.
Nessa situação, o mundo das comunicações apresenta um desafio considerável. Por certo que a Igreja e a Companhia de Jesus estão presentes no mundo da comunicação. Entretanto, está se criando um novo ambiente, chamado por alguns pesquisadores como midiatização social, para o qual nem a Igreja, como um todo, nem a Companhia de Jesus parecem estar conscientes. Sedimentadas ainda no ambiente da mecânica e da modernidade, elas vêem os meios de comunicação como dispositivos tecnológicos destinados a serem suportes de sua evangelização.

Os dispositivos tecnológicos, entretanto, são apenas uma mínima parcela, a ponta do iceberg, de um novo mundo, configurado pelo processo de midiatização da sociedade. A questão transcende as dimensões dos dispositivos tecnológicos e aponta para um projeto de totalidade e de unificação social, consubstanciado numa sociedade de redes.

É uma mudança de época, com a criação de um novo ambiente midiático que incide profundamente na sociedade. Surge uma nova realidade comunicacional (1) . É uma vida virtual. Mais do que uma interação pela técnica, está surgindo um novo modo de ser no mundo, representado pela midiatização da sociedade. A midiatização é a re-configuração de um ambiente comunicacional. Torna-se um princípio, um modelo e uma atividade de operação de inteligibilidade social. Noutras palavras, a midiatização é a chave para a compreensão e interpretação da realidade. Nesse sentido, a sociedade percebe e se percebe a partir do fenômeno da mídia, agora alargado para além dos dispositivos tecnológicos tradicionais. Por isso, é possível falar da mídia como um local de compreensão da sociedade.

A midiatização está configurando a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade. A pergunta que se impõe é: que conseqüências haverá para a Igreja e a Companhia de Jesus se, permanecendo ainda na antiga ambiência, aventuraram-se idilicamente no mundo da mídia? A sociedade midiatizada, com a sua vocação de totalidade, deixar-se-á dominar pelo mundo da religião? Como se pode dominar, domesticar, algo que nos sobrepassa? O projeto unificador da midiatização não irá condicionar o projeto religioso, competindo com ele no domínio de corações e mentes?

Esta é uma nova fronteira que se coloca no horizonte da ação dos jesuítas e para a qual a 35a. Congregação Geral desafia a examinar a nossa maneira de viver.

O modo de proceder de Santo Inácio de Loyola, os princípios fundamentais hauridos dos Exercícios Espirituais são marcos e balizas para a entrada nesse novo tempo. Indiferença (2), magis, tanto quanto, atitudes geradoras do modo de proceder da Companhia de Jesus, transformam-se em princípios orientadores para a sociedade na aventura de viver na nova ambiência que se está gestando.

Hoje a sociedade vive a urgência dc uma nova inculturação que, sem perder suas raízes históricas, assume, com coragem e determinação, o novo que está surgindo. Há um novo apontando no horizonte, não físico, como no século XV e inícios do século XVI, mas teórico, espiritual. Uma sociedade em rede, envolvendo todo o universo, num manto inconsútil, que transforma corações e mentes.

Estamos no limiar de um novo mundo para dentro do qual somos atraídos. Ainda não chegamos lá, mas já saímos do antigo porto. Não há mais volta. Quem teimar em permanecer na antiga ambiência será devorado pelo vórtice do futuro.

Para acompanhar-nos no mergulho desse vórtice do futuro, a espiritualidade de Santo Inácio é uma baliza confiante. Por isso, afirma-se que o modo de proceder de Inácio de Loyola configura um projeto adequado para o nosso tempo.

Notas:

1.- As idéias que seguem e embasam a reflexão foram desenvolvidas em: GOMES, Pedro Gilberto. A filosofia e a ética da comunicação no processo de midiatização da sociedade. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2006. Ver, principalmente, o capítulo 6.

2.- Princípio de Indiferença, na espiritualidade de Santo Inácio, significa o perfeito equilíbrio nos afetos, não desejando nada que não seja para o bem da missão. O afeto não deseja nada desordenamente. Escolhe apenas o que mais ajuda para o fim que se pretende.

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