Assim Abelardo enfrentou a contenda entre os monoteísmos

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02 Março 2011

No início de julho de 1141, Pedro Abelardo, a caminho para Roma, chegou a Borgonha, na grande Abadia de Cluny. Em Sens, um concílio dos bispos da França o condenou como herege, e ele apelou ao Papa e, por isso, está viajando para a Itália. Enquanto descansa na Abadia, chega-lhe a notícia de que o Papa Inocêncio II ratificou a condenação de Sens, o excomungou e lhe impôs a obrigação de "calar para sempre".

o artigo é do jornalista e vaticanista italiano Luigi Accattoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 02-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Abelardo renunciou à viagem a Roma e morreu em Cluny nove meses mais tarde, no dia 21 de abril de 1142, de sarna ou de leucemia, readmitido in extremis na comunhão católica. Nos meses passados em Cluny, observou o silêncio que lhe foi imposto, mas a sua intenção não é a do "perpétuo silêncio", porque vinha compondo a sua última obra, a mais madura e sinfônica, conciliando filosofia e teologia, Grécia, Jerusalém e Roma: Dialogus inter Philosophum, Judeum et Christianum, republicado agora pelo Corriere, na coleção Classici del Pensiero Libero, com o título Dialogo tra un filosofo, un giudeo e un cristiano [Diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão], com o prefácio de Mariateresa Fumagalli Beonio Brocchieri.

Diálogo imaginário, protagonistas que ele tinha dentro de si e conseguia fazer falar com igual dignidade. Obra incompleta – Abelardo morreu em sua produção –, ela é como um barquinho confiado um dia ao mar aberto e que ainda vem traçando a sua rota, na mente de quem a lê. "Em uma visão noturna, vi três homens que chegavam por caminhos diversos": é a alegórica frase inicial do Dialogo. Os três se apresentam a Abelardo e lhe informam que, depois de terem "discutido longamente" sobre as respectivas fés, decidiram recorrer ao seu "juízo".

Aqui, portanto, o mestre assume um papel super partes. Não tendo nenhuma dúvida sobre a validade da sua própria doutrina, ele se coloca como árbitro no conflito das fés e faz dizer ao filósofo do Dialogo: "Sabemos que tu conheces bem tanto a força das argumentações filosóficas, quanto os fundamentos de ambas as leis". Ainda esse filósofo, mais adiante, afirma que o que faz de Abelardo um juiz "capaz de resolver essa nossa contenda" são todos os títulos e a fama conquistados nesse campo, e existe, por último, "aquela tua admirável obra de teologia que a inveja não pôde suportar". Ele alude ao tratado Theologia Christiana, escrito em 1132-34, do qual os adversários haviam retirado as proposições pelas quais ele havia sido excomungado. Ele não reconheceu como válida a condenação. Não só porque o seu último protetor, o ecumênico Pedro de Cluny, vulgo "o Venerável", lhe abriu as portas da Abadia e se empenhou pela anulação da excomunhão junto ao Papa. Não a reconheceu como válida porque considerou que não havia sido entendido e estava certo de que seria reabilitado pelos pósteros, como de fato foi.

Orgulhoso e às vezes temerário, Pedro Abelardo se destaca por uma disposição natural à disputa e está entre os primeiros a instruir o método escolástico da peneira de toda opinião em campo antes de solucionar uma quaestio disputata (questão discutida). Precursor nisso de Tomás de Aquino e do seu grandioso empenho a fazer da teologia uma ciência com um pleno estatuto metodológico. Ele também foi antecipador de Tomás devido à sua relação equilibrada que propõe entre filosofia e teologia, em dialética com a tendência dos teólogos místicos liderados por Bernardo de Claraval, que foi o seu adversário.

Intui-se de qual envergadura o raciocínio de Abelardo era capaz a partir das páginas em que ele coloca na boca do judeu – no Dialogo – uma apaixonada defesa da própria estirpe: "Não se sabe de nenhum outro povo que tenha suportado tantas provas em nome de Deus como as que nós suportamos continuamente".

Com a morte de Abelardo em Cluny, Pedro o Venerável manda seu corpo a Heloísa, que agora é freira, mas que havia sido a sua aluna, amante e esposa e lhe havia dado um filho de nome Astrolábio. Pela audácia desse amor, Abelardo havia sido castrado por três sicários enviados pelo tio dela, Fulberto. Morta também ela – duas décadas mais tarde –, os dois são unidos no mesmo túmulo, que é ainda hoje visível no cemitério do Père Lachaise, em Paris.

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