""A Igreja precisa de pessoas como Hans Küng e Bento XVI’"

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24 Janeiro 2011

Manuel Fraijó é teólogo e filósofo, aluno, entre outros, de Hans Küng e Joseph Ratzinger. Como tal, conhece como poucos a amizade e a tensão entre ambos pensadores católicos. Neste 27 de janeiro, a Uned – de que é decano de Filosofia – outorgará o doutorado Honoris Causa a Hans Küng, o primeiro que o teólogo suíço recebe na Espanha. Ao evento, assistirão a nata do pensamento espanhol, e também da política. Entre eles, o ministro da Educação, Ángel Gabilondo.

A reportagem foi publicada no sítio Religión Digital, 24-01-2011. A tradução é de Anne Ledur.

Fraijó conta como viveu, em primeira pessoa, o momento em que Ratzinger renunciou a docência em Tübingen. "Ele tomou uma decisão coerente consigo mesmo. Renunciou à sua cátedra para ir a um seminário diocesano, sem pena nem glória... e olha aonde foi parar".

Entre as razões, seu distanciamento com o teólogo suíço. "Tem muito do Ratzinger professor em Bento XVI", assegura Fraijó, quem agora sim tem de responder perguntas que não fazia suas em seus anos como docente: o dinheiro da Igreja ou "o celibato dos padres".

Küng vem com 14 doutorados em Honoris Causa... mas jamais havia conseguido na Espanha. "Dada sua contribuição ao campo do pensamento e da história das religiões."

Ao longo da entrevista, o decano de Filosofia da Uned insiste na "dilatada história de serviço à teologia e à filosofia", de sua tese de doutorado La justificación (1957), um tema que tinha dividido a cristandade "desde a Reforma". "Aí já se viu o que Hans Küng ia ser: um homem ecumênico, que advogava pelo respeito, pela tolerância e pelo diálogo".

"Küng foi sempre pioneiro, tem sido sempre valente", sustenta Fraijó, que adiciona que, com sua trajetória ,"se tem a impressão de que o Espírito foi indo sobre ele".

Küng e Ratzinger são antíteses? "Têm antíteses entre eles", admite o decano, que recorda como seus enfrentamentos datam de 1965, e de como Paulo VI acabou escolhendo a Ratzinger frente a Küng. "Confie em mim, disse Paulo VI, e Küng respondeu que, sim, confiava nele, mas não em seu entorno. Nessa mesma época, Paulo VI fez a mesma oferta a Ratzinger, e ele aceitou."

São dois personagens, dois antigos amigos que merecem um enorme respeito e que têm servido muito bem à Igreja, cada um no seu âmbito, por caminhos diferentes. Não tem que colocar pra brigar uma biografia contra outra. A Igreja não seria nada sem pessoas como Hans Küng ou como Bento XVI", insiste o especialista, que admite, contudo, que a teologia atual "está influenciada pela perseguição de João Paulo II para a teologia. Esse ir chamando um a um, ir abrindo expedientes, foi minguando a possibilidade que houvesse teologia. Houve medo, desde Paulo VI".

Entretanto, vê mais importante "a crise do religioso em nosso tempo, a crise de Deus, como talvez não tenhamos tido nunca uma crise sem retorno".

Uma crise em que influíram uma série de fatores, como a bioética. "A vida se cria de muitas formas, e o protagonismo, que adjudicávamos a Deus, é uma parcela perdida". O mesmo acontece ao final da vida. "A fé em um final benévolo, na ressurreição, entrou em uma profunda crise", sustenta.

"Não há grandes projetos teológicos. Faz quarenta anos que não se move nada em teologia", constata Fraijó.

Se existe mesmo uma busca de um sentido último. "Há mais de dez mil religiões". Precisamente, Hans Küng sustenta, em um livro que emprestou a Bento XVI em seu encontro em Castelgandolfo, "que tem que dar um não redondo à nada, e apostar redondamente pela outra vida. E essa aposta, mesmo que se perca, serviria para iluminar esta vida". Todas as religiões postularam a continuidade. "Isso segue em muita gente, talvez cada vez em menos pessoas".

A transcendência, no fundo do debate, seja ou não em outra vida, seja ou não através do pensamento. "No cemitério de Tübingen está enterrado Ernst Bloch, e em seu epitáfio pode-se ler: `Pensar é transcender`", culmina.

A vueltas con la religión é um dos últimos livros de Manuel Fraijó. Para onde vai a religião? A religião tem futuro? "Há um desgaste muito forte das religiões, que perderam um terreno importante, Mas há que pontuar. Uma secularização muito forte é a que se deu na Europa, onde o Cristianismo, por culpa própria (principalmente a Igreja hierárquica), rebaixou excessivamente Jesus e tem se centrado especialmente na sexualidade. Temos oferecido um cristianismo de liquidação".

Essa secularização, fora da Europa, não se dá tanto. "Por isso, insiste Küng, na necessidade de dialogar entre as religiões. Contudo, muitos países vão do braço das religiões. Não devemos enfocar nunca as coisas só do nosso âmbito.

"Todas as religiões são verdadeiras, mas não todas são iguais de verdadeiras", sustenta Fraijó citando Küng, que assinala que a veracidade de uma religião virá "quando mais ajuda o necessitado". O que estraga é a condição de absoluto.

Porque a verdade se pode compartilhar, mas o absoluto, por definição, é só um. E o Cristianismo enfureceu o caráter absoluto, o que faz difícil o diálogo com outras religiões."

Outra atividade de Manuel Fraijó, entre seus muitos compromissos, é o projeto de formação de imames na Espanha. "É uma das coisas mais gratificantes que fez nos últimos anos", aponta o decano de Filosofia da Uned. "Nesses cursos se estuda o Islã na Espanha, sua dimensão jurídica e histórica... os fundamentos e sua diferença de fundamentalismo... A experiência está sendo muito boa, porque há uma receptividade muito forte. Há 600 imames na Espanha, e já passaram por esses cursos, uma centena deles.

O trabalho não é questionar a fé islâmica, "mas dizer-lhes como os países onde têm que levar a cabo a sua missão lhes vê". No horizonte, "despedimos do fundamentalismo, através de – ainda – tímidas tentativas de aplicar o método histórico-crítico.

O Islã está pendente de sua Reforma, seu Renascimento? Não sei. Alguém disse que ao Islã, tem que sair um Lutero, mas todo mundo se cuida muito de ser ele, ou de assinalar datas. Efetivamente, lhe faz falta uma reforma. Ao Islã, não faz falta um Concílio Vaticano II, mas um Concílio de Trento ainda, porque Islã segue pensando que seu livro foi ditado diretamente por seu Deus desde o céu".

 

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