"Quero aprender a andar junto com os religiosos", afirma Dom João Bráz de Aviz

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18 Janeiro 2011

Em sua primeira entrevista para a mídia norte-americana desde que foi nomeado o novo presidente para a vida religiosa do Vaticano, o brasileiro Dom João Braz de Aviz assinalou que está aberto ao diálogo com as religiosas dos Estados Unidos sobre a Visitação Apostólica em curso, dizendo que reconhece que, sempre que uma autoridade superior intervém na Igreja, há um "problema de confiança."

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 07-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O prelado de 63 anos de idade, que espera assumir seu novo posto no Vaticano em meados de fevereiro, falou ao NCR por telefone de sua residência em Brasília, no dia 7 de janeiro.

Braz de Aviz reconheceu candidamente que não entende inglês e nunca viajou aos Estados Unidos, e, por isso, tem "muito a aprender" sobre a situação das religiosas nos EUA. Ele disse que, em algum momento dos próximos dias, planeja se reunir em Brasília com a madre Clare Millea, a irmã norte-americana encarregada da Visitação Apostólica.

Braz de Aviz foi indicado no dia 5 de janeiro como novo prefeito da Congregação vaticana para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, substituindo o cardeal esloveno Franc Rodé, de 76 anos.

Em sua conversa com o NCR, Braz de Aviz falou sobre sua história e sua ampla perspectiva sobre os assuntos da Igreja – em particular, uma ênfase na unidade e em ver as coisas através dos olhos de outras pessoas, que ele disse ter adquirido por meio de uma "amizade longa e muito profunda" com o Movimento dos Focolares.

A entrevista foi feita em italiano, que Braz de Aviz fala fluentemente por ter estudado em Roma nas universidades Gregoriana e Lateranense.

Eis a entrevista.

Quando o senhor soube de sua nomeação e quando vai assumir o cargo?

Eu fiquei sabendo do assunto no dia 14 de dezembro. Eu estava aqui na minha casa, em Brasília, à noite, quando o cardeal Bertone, secretário de Estado, telefonou-me para me falar sobre isso. Estou planejando chegar em Roma em meados de fevereiro, mas os detalhes específicos ainda não foram negociados com Roma. Eu preciso de um pouco de tempo para terminar algumas coisas aqui na minha arquidiocese.

O senhor não vem de uma ordem religiosa, mas tem experiência sobre a vida religiosa?

Eu frequentei um seminário menor aqui no Brasil, em Assis, dirigido por uma ordem chamada Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras, os padres do PIME de Milão. Eu fui um seminarista diocesano lá de 1958 a 1964 e recebi uma educação maravilhosa com eles. Além disso, desenvolvi muitos contatos com religiosos e religiosas por meio do movimento dos Focolares, que tem um departamento dedicado às ordens religiosas. Tive uma amizade longa e muito profunda com o Focolare.

Como se desenvolveu essa amizade com o Focolare?

Quando eu tinha 16 anos, acreditem ou não, um pintor cubista, que fazia parte do movimento dos Focolares, veio ao nosso seminário para dar uma palestra, e, desse ponto em diante, eu me apaixonei por eles. Isso ocorreu em um momento importante para mim, porque era uma época em que as grandes ideologias estavam decolando no Brasil. A teologia da libertação estava nascendo, que tinha essa preocupação incrivelmente bela pelos pobres, mas que também era, às vezes, fortemente ideológica. Nós, jovens, éramos muito atraídos por ela, e os Focolares me deram o sentido correto do equilíbrio.

Muitos poderiam dizer a mesma coisa sobre a Comunidade de Santo Egídio – que também tem uma "opção preferencial" pelos pobres, mas é uma opção de fé e não de ideologia.

Sim, exatamente, e eu também sou um amigo da Santo Egídio.

Alguns brasileiros me contaram que o senhor não vem para o seu novo trabalho no Vaticano com uma agenda forte, mas sim com uma vontade de aprender. É isso mesmo?

Acho que isso diz muito bem, e é a mesma coisa que eu tenho dito às pessoas nestes dias. Em primeiro lugar, eu não trago nenhum sentido carreirista de que esta é uma promoção pessoal. Em meu coração, eu vejo isso como um serviço ao Santo Padre e à Igreja. Devemos ser irmãos e irmãs na Igreja, por isso temos de dar a nós mesmos em serviço.

Além disso, eu tenho que confessar que eu nem sei muito sobre a Congregação em que eu vou trabalhar, por isso tenho muito a aprender. Tenho que caminhar junto com aqueles que já estão lá, com as pessoas que conhecem muito bem esse campo, porque é uma área enorme e muito especializada. Em geral, minha impressão é de que o Santo Padre está contente com o trabalho que tem sido feito, então eu não acho que eu fui escolhido para fazer mudanças drásticas imediatas. Acho que fui escolhido em parte porque o Santo Padre quer um brasileiro no Vaticano, já que no momento não há nenhum outro brasileiro em alguma alta posição no Vaticano.

Nos anos desde o Concílio Vaticano II, alguns analistas falavam de uma "crise" na vida religiosa. O senhor vê essa crise?

Eu acho que seguramente há sinais de dificuldades, como a redução das vocações. Muitas ordens, muitas congregações viram uma significativa diminuição de vocações. Temos que estar atentos ao que está acontecendo, para tentar entender quais são os problemas.

Também temos que reconhecer que as grandes mudanças na cultura do nosso tempo afetam a vida religiosa. Vivemos em um mundo muito diferente daquele em que crescemos. Por exemplo, a globalização é uma realidade que não fomos capazes de governar com eficácia. Temos que perguntar como, nesse novo mundo, um forte compromisso com a consagração diante de Deus ainda pode tornar homens e mulheres felizes, já que existem tantas outras coisas na cultura que prometem felicidade.

A questão que o Vaticano II quis fazer às ordens religiosas ainda é válida: a luz, a inspiração que Deus deu ao fundador da ordem ainda é uma força viva na ordem hoje? O que é necessário para que o núcleo dessa inspiração penetre nesse mundo novo, e para que a ordem se mantenha fiel à luz que brilha a partir do fundador?

Além da crise, o senhor também vê sinais de esperança para a vida religiosa?

Há tantos! Todo carisma dado à Igreja é uma semente da palavra dada em um determinado momento no tempo. A fim de ajudá-los a perseverar e crescer, parece-me, é preciso acompanhá-los – e não com autoritarismo, mas sim com misericórdia e fidelidade.

Alguns diriam que muitas ordens religiosas tornaram-se excessivamente "progressistas" desde o Vaticano II. Qual é a sua opinião sobre isso?

Eu diria que muitas ordens têm tentado buscar uma nova luz, uma nova forma de responder às circunstâncias que mudam, e isso é bom. Às vezes, porém, minha impressão é de que elas não dão importância suficiente para as orientações do Santo Padre sobre como proceder acerca disso. Eu me lembro quando, em 1980, o cardeal [Bernard] Gantin veio ao Brasil para dar algumas orientações à Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos sobre a teologia da libertação. Os bispos receberam essas orientações muito bem, mas que nem sempre foi assim para os teólogos. Eu acredito que nós precisamos das orientações oferecidas pelo Santo Padre, que devemos ver não como uma imposição de autoridade, mas sim como uma espécie de luz para perceber o que Deus pede de nós. Se não tivermos essa visão, é fácil tornarmo-nos excessivamente focados nas nossas próprias circunstâncias individuais e perdermos o contexto mais amplo.

O senhor conhece os Estados Unidos?

Na verdade, não. Entendo muito pouco inglês, e nunca viajei aos Estados Unidos.

O senhor está ciente da visitação apostólica às religiosas nos Estados Unidos?

Estou ciente disso, porque falei recentemente com a madre Clare Millea, a irmã norte-americana que está no comando da visitação. Ela está vindo para me ver aqui em Brasília, em algum momento dos próximos dias, em parte também porque temos que falar sobre a sua congregação [as Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus]. Fora disso, eu realmente não sei mais nada.

O senhor sabe que muitas irmãs nos EUA estão preocupadas porque, para elas, o processo parece "secreto", e estão preocupadas pelo fato de que não terão a oportunidade de responder às possíveis conclusões?

Ouvi isso da irmã que falou comigo. Eu não li mais nada sobre isso, então vou ter que me inteirar assim que chegue à congregação em Roma.

O senhor está aberto para conversar com as irmãs norte-americanas sobre como tornar isso uma experiência construtiva?

Claro. O que o Santo Padre quer é a fidelidade à vida consagrada, mas também temos que estar em diálogo com o mundo e com todas as outras coisas que as religiosas se esforçam para fazer. Eu diria que o "sigilo" não é o espírito dessa intervenção. Você sabe, sempre que uma autoridade mais elevada da Igreja intervém, está fazendo isso porque tem a responsabilidade de desempenhar uma missão, mas muitas vezes há um problema de confiança. Eu quero criar confiança – eu acredito muito nisso. Temos que superar essa visão de vermos uns aos outros como inimigos, acreditando que o "outro" está, de alguma forma, longe de Deus ou é uma ameaça para mim.

Eu aprendi essa visão com os Focolares. Eles me ensinaram que eu sempre preciso tentar entender o caminho em que a outra pessoa está, como ela vê as coisas e aprender com isso. É muito importante encontrar o bem naquilo que a outra pessoa pensa e sente, não condeno-o ou tentando destruí-lo. É um espírito de unidade, que temos que construir juntos. Para mim, não há outro caminho. Aliás, tenho um ótimo relacionamento com os religiosos aqui no Brasil, incluindo com a coordenação nacional para as ordens religiosas.

Então, o senhor está aberto ao diálogo com as religiosas nos Estados Unidos?

Sim, eu quero aprender com elas e andar com elas. Você tem que ver as pessoas de perto, conhecê-las, o que lhe ajuda a superar qualquer problema que houver. Eu diria a mesma coisa sobre a crise dos abusos sexuais que vivemos nos últimos anos. Temos que estar preocupados com a santidade da Igreja, mas também temos que estar muito próximos dos que foram feridos, das vítimas. Eu sou compassivo com relação a isso.

O senhor conhece o arcebispo Joseph Tobin, secretário da congregação?

Não, eu não falei com ele ainda.

Eu sei que este ainda é um trabalho em andamento, mas, no geral, como o senhor descreveria a sua visão da vida religiosa?

Eu colocaria desta forma: cada congregação, cada ordem na Igreja é como uma bela flor. Juntas, elas formam um jardim, e nós temos que nos preocupar não apenas com as flores individuais, mas também com o jardim como um todo. Qual é a relação entre os vários carismas? Essas flores têm a capacidade de ver a beleza nas outras? Para que o jardim seja saudável, as flores têm que crescer juntas. Essa é outra forma de falar sobre o equilíbrio entre unidade e diversidade, que pode ser difícil de alcançar em uma cultura fortemente individualista, em que todos querem fazer da sua visão pessoal das coisas a regra para todos. Em vez disso, temos que ser regidos pela regra da caridade, e eu acho que isso é algo que temos que redescobrir na Igreja.

 

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