As “Memórias” de José María Castillo: “nem João Paulo II, nem Bento XVI governaram a Igreja como papas”

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19 Junho 2021

 

“As 'Memórias' desse livro aludem ao fato de que, em uma variedade de casos sagrados e plurais, as instituições civis, como as relacionadas com os Direitos Humanos e sua proteção, têm mais doses do Evangelho que uma boa parte dos catecismos romanos”, escreve Antonio Aradillas sobre o novo livro de Memórias do teólogo espanhol José María Castillo, em artigo publicado por Religión Digital, 17-06-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Ao escrever suas “Memórias: Vida e pensamento”, José María Castillo “deixou na tinta da caneta” os nomes das cabras que formavam o rebanho que, sendo criança, chegou a pastorear nas proximidades de Granada, distrito judicial de La Puebla de Don Fadrique, equipado com bolsa e outras ferramentas facilitadas por seu avô, em tempos coincidentes com a “Guerra Civil Espanhola”. Ademais da voz evangélica e vocacional do “Siga-me” que escutou com tanta certeza e discernimento, por aqueles campos distantes, que até poderiam ter chegado os ecos dos tiros que acabaram com a vida do poeta Lorca, da peça “Mariana Pineda”, bordadora da bandeira da liberdade...

Certamente, e como dado curioso, La Puebla pertencia, e pertence, canonicamente à diocese de Guadix, em cuja catedral foi ordenado padre José María, e que sua mãe, ajoelhada, pediu-lhe que a primeira benção pessoal fosse para ela, dada antes que os beijos e abraços das exigências familiares... pois o ritual, ainda nas melhores famílias e naqueles, e nestes, tempos, teria de primar sobre o humano e o natural..., isso é, o divino. Da defesa destas teses verdadeiras e nitidamente evangélicas e religiosas, é, e segue sendo doutor em teologia e evangelizador, o “pastor” José María.

As “Memórias” – “relação ou escrito sobre as lembranças e acontecimentos da vida de uma pessoa”, e mais com subtítulo de “vida e pensamento” – são termos afincados e mantidos filosófica e teologicamente por um autor do texto da categoria, humildade, humanidade e vivência, como para que possamos e devamos nos fiar de sua veracidade, certeza e oportunidade, e mais no entardecer-amanhecer de sua vida. O livro publicado por Desclée De Brouwer, com prólogo de Pedro Miguel Lamet, e 280 páginas, se lê de uma vez, e se releem seus 34 capítulos, repensando-os e inteirando-se de não poucas coisas, e ainda, sobretudo, rezando...

Pois, a “vida” e o “pensamento”, do que é portador e mensageiro fiel de seu autor, dão muito de si, tanto para o leitor como para quem estes podem influenciar de alguma maneira em outros, graças ao sacrossanto mistério do pertencimento e integração no Corpo de Cristo, e no marco convivencial da cidadania.

Pois, as “memórias” referidas e atualizadas no livro, não são apenas de sua autoria. Elas são da sociedade em que ele viveu e continua a viver. São “memórias” da Igreja. E da sociedade. E da Companhia de Jesus, condecorada duas vezes – e de que forma! – com o “ex” correspondente.

Essas são “memórias” – e às vezes, “esquecimento” – perdão de situações, comportamentos, reações, modos de ser e pensar – pensar? – principalmente “em nome de Deus”, daqueles que se distanciaram dos Evangelhos e confiaram plenamente na formulação de votos de obediência, nos braços dos artigos do Código de Direito Canônico e de “dogmas” que nunca existiram, nem jamais o serão, nem mesmo podendo aspirar a atingir os limites da verdade em um caminho salvador revelado, mesmo que se fizesse, e se siga usando um atrevimento tão desprezível...

Em mais de uma ocasião, as “Memórias” desse livro aludem ao fato de que, em uma variedade de casos sagrados e plurais, as instituições civis, como as relacionadas com os Direitos Humanos e sua proteção, têm mais doses do Evangelho que uma boa parte dos catecismos romanos, poupando-me, nesta ocasião, de descer a casos e comportamentos específicos, dos quais com generosidade ecoa até na “imprensa ímpia e blasfema”.

Pois, como assegura nosso respeitoso e cortês “memorial”, para citar um exemplo, de Paulo VI a Francisco, a Igreja careceu de papas... Um deles – João Paulo II – dedicou-se a viajar e tentar “polonizar” (da Polônia) a Igreja universal, com todas as suas triunfantes consequências imperiais. Bento XVI, após ter atuado inquisitorialmente desde sua prefeitura, como guardião e orientador da Fé, dedicou seus anos às dissertações teológicas de toda a sua vida, deixando o governo da Igreja nas mãos da toda-poderosa Cúria Romana e de seus subordinados, os quais mal cabem no saco de “maus pastores”, por tantas denúncias, condenações e desqualificações – “Caverna dos ladrões” – pelo Papa Francisco, com frequente assentimento judicial civil, além do canônico, e sem limites humanos ou “divinos”, misericórdias e indulgências.

Não deixem de ler este novo livro de José María Castillo! É um manual documentado de história e histórias. De testemunhos e de vida. É o Evangelho, embora cânones, ritos e liturgias brilhem reverentemente por sua ausência.

É um livro de interesse para bispos, arcebispos, teólogos “oficiais”, membros da Companhia de Jesus, a cuja ordem é dedicado, curiais, leigos e leigas e o próprio Papa Francisco, que acompanha seus escritos. O livro não precisa do “Nihil Obstat” canônico, pois traz implícita as aprovações “franciscana”, do padre Ellacuría e de uma parte muito notável do povo de Deus.

 

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