Black Friday, assim a grande ‘festa’ do consumo passa a fatura para o meio ambiente e os direitos trabalhistas

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29 Novembro 2021

 

Inicia a temporada de compras natalinas. Começa o consumismo com outra Black Friday cheia de sombras e fumaça. Muita fumaça que aquece o planeta a um ritmo vertiginoso. Os dados evidenciam que o pico de compras registrado nessas datas supõe uma pressão adicional sobre os ecossistemas, com um aumento de emissões associadas ao transporte e a logística, e com uma pegada de resíduos ligada à cadeia de produção, como o curto tempo de vida que a maioria dos produtos vendidos nos mercados possuem durante essas datas.

 

A reportagem é de Alejandro Tena, publicada por Público, 26-11-2021. A tradução é do Cepat.

 

O consumo exacerbado, atraído por ofertas e descontos, aumentou a cada Black Friday em 20%, de 2015 até o momento, com cada vez mais plataformas comerciais que operam na Espanha reduzindo seus preços durante a última sexta-feira de novembro. Tudo isso com um impacto importante na atmosfera. Durante esse dia de compras, uma cidade como Madrid emite 1,7% das emissões anuais de gases poluentes, devido ao aumento do transporte e produção.

 

O grosso das vendas tem a ver com o setor da moda e a denominada fast fashion, roupa e complementos produzidos em fábricas deslocalizadas, com um sistema de acompanhamento obscuro e com uma importante pegada de carbono associada, em boa medida, às emissões de navios e aviões de mercadorias que precisam transportar as cargas da outra ponta do planeta até a Europa. Segundo Statista, em 2020, 53% das compras da Black Friday foram de roupas e 39% de calçados e complementos.

 

Laura Villadiego, jornalista pesquisadora do coletivo Carro de Combate e coautora do ensaio Consumo Crítico (Catarata), destaca a importância do tipo de produto têxtil que impera no mercado e suas consequências ecológicas: “Se promove um produto para usar e jogar, e se busca o consumo mais compulsivo de roupas que são usadas de quatro a sete vezes por ano e que acabam se transformando em resíduos de forma muito rápida, por sua baixa qualidade”.

 

Segundo dados da ONU reunidos pelo Greenpeace, 73% das roupas compradas nessas datas são jogadas fora em menos de um ano e acabam em aterros ou incineradores. Assim, o impacto dos resíduos nos ambientes se soma ao que já é gerado pela produção de roupas, pois 20% da poluição industrial das águas do planeta tem a ver com os processos de fabricação têxtil, assentados em países do sudeste asiático com normativas ambientais frouxas.

 

O outro grande atrativo da sexta-feira negra é a tecnologia. Das compras desse dia, 35% são de eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos ou telefones celulares, segundo o ranking da Statista sobre as vendas de 2020.

 

Embora a Europa trabalhe contra o relógio para acabar com a chamada obsolescência programada, os resíduos desse setor continuam sendo notavelmente altos e difíceis de reciclar. Só 17,4% dos resíduos tecnológicos são reutilizados, segundo o Greenpeace, e o fim rápido dos aparelhos gera 48 milhões de toneladas de CO2 associadas ao consumo de eletricidade e ao aumento da produção na Europa, segundo a European Environmental Bureau (EEB).

 

A passagem das compras para um modelo online também pressiona a escassa estabilidade ambiental do planeta. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, a compra pela internet está cada vez mais estabelecida na Espanha e já representa 2,1% do gasto anual das famílias.

 

Villadiego ressalta como o pico de produção e consumo associado com a Black Friday pode ter consequências negativas em nível ecológico, devido à carga de emissões de CO2 associada à distribuição: “É um estágio a mais da pegada de carbono que tem a ver, sobretudo, com a chamada última milha. Busca-se comprar no último momento, com um envio urgente. Tudo isso significa mais viagens de casa em casa, às vezes sem que o caminhão ou van sequer esteja cheio. Junto a isso se somam os típicos casos de distribuição em que não há ninguém em casa e é preciso voltar mais tarde ou em outro dia. Aumentam-se as emissões não apenas de gases do efeito estufa, que contribuem com a crise climática, também de partículas que pioram a qualidade do ar de nossas cidades”.

 

José A. Mansilla, professor de Antropologia da Universidade de Barcelona e membro do Observatório de Antropologia de Conflitos Urbanos, ressalta como a importância do ecológico na sociedade mudou as preferências do consumidor e forçou as empresas a transformar a linguagem de vendas com “típicas pautas de greenwashing”. “O conceito de sustentabilidade se tornou hegemônico para o bem e para o mal e tivemos que nos movimentar em torno dele. O setor produtivo se deu conta disso e o acrescenta como apelativo a tudo, inclusive por meio de formas de consumo de distribuição ou delivery”, alerta o antropólogo. Todas essas práticas de marketing verde se intensificam em um período como a Black Friday, em que os descontos nas vitrines são edulcorados com mensagens que apelam à boa consciência ambiental do cidadão.

 

Mais pressão para os trabalhadores

 

Em fevereiro deste ano, um acidente provocou a morte de 28 trabalhadores em uma fábrica têxtil clandestina de Tânger que fornecia produtos para marcas importantes europeias. Em 2020, 43 operários morreram por causa de um incêndio em um fábrica de bolsas de Nova Delhi. Quatro anos antes, 1.129 trabalhadores perderam a vida após a queda de um edifício que abrigava oito fábricas. São exemplos que fogem do ocasional. A deslocalização do modelo produtivo afeta o preço final, mas também as condições trabalhistas e a obscuridade das cadeias de abastecimento, tanto no mundo têxtil como em parte do setor tecnológico.

 

Quando se atenta para o início da cadeia de valor, as fábricas que se estabelecem no sudeste asiático e em outras regiões do Sul Global funcionam em condições de semiescravidão, com jornadas de 12 a 14 horas, em sua maioria, realizadas por mulheres que às vezes dormem no próprio centro de trabalho, conforme explicaram especialistas da ONG Setem, no mês de fevereiro, após o mencionado acidente têxtil de Tânger.

 

Para satisfazer a demanda de consumo do ocidente, os centros de produção precisam aumentar a produção e esses empregados assumem um alto custo trabalhista. “Na China, estamos vendo isso claramente, durante este ano. Muitos trabalhadores, além disso, estão deixando de ir ao trabalho devido às quarentenas da covid e não estão sendo feitas novas contratações, deixando o peso do trabalho nas mãos de menos empregados. Este ano a Black Friday terá esse estresse adicional ligado às disrupções da pandemia”, detalha Villadiego.

 

Durante a Black Friday e outras campanhas que estimulam as vendas, as cadeias de produção ressentem em todos os níveis, da fábrica clandestina ao último dos empregados que trabalham diretamente com o público nas grandes superfícies. “Todas as pessoas se veem submetidas a jornadas mais intensas, a mais estresse e mais ritmo de trabalho”, comenta a pesquisadora de Carro de Combate, que também destaca como o caráter temporário dos empregos está cada vez mais presente nas grandes cadeias que operam na Espanha. Isso é algo que foi denunciado, nos últimos anos, por sindicatos como UGT e CCOO, que alertam para a uma perda de postos de trabalho nos comércios devido às vendas pela internet.

 

Consumo sem tradição

 

Mansilla analisa esse fenômeno cada vez mais comum em um país como a Espanha. “Estamos assistindo a uma desconexão no tempo de compra tradicional, que tinha alguns períodos muito destacados ao longo do ano, por acontecimentos determinados como o Natal. A troca de presentes significa o fortalecimento de vínculos entre famílias e amigos, mas quando aparecem acontecimentos como a Black Friday, alheios à nossa tradição, rompemos com qualquer consideração cultural e com os ciclos de consumo habituais”. Embora esteja no início da temporada de compras de presentes natalinos, o pesquisador ressalta que se trata de algo proveniente da comemoração de Ação de Graças norte-americana, “que não faz nenhum sentido para a Espanha para além da esfera do consumo”.

 

Apesar de tudo, as campanhas que estimulam a compra já estão estabelecidas na Europa e na Espanha. A conscientização cidadã pelo meio ambiente não freou o triunfo das marcas, que todos os anos enchem os caixas na última sexta-feira de novembro. As organizações ecologistas e sociais apelam à conscientização cidadã e ao papel do indivíduo para frear o consumo que vai contra os próprios recursos limitados proporcionados pelo planeta.

 

Para o antropólogo da Universidade de Barcelona, o papel do consumidor tem que “caminhar de mãos dadas” com a ação do Estado. “Se tudo fica nas mãos da responsabilidade individual, caminhamos muito mal. É preciso politizar o assunto, só com leis é possível mudar as coisas, porque se você é consciente, existem 7 milhões de pessoas que não, e as empresas seguem a passos largos”, avalia, para mencionar como é possível, a partir da Administração, colocar limites em práticas que incentivam o consumo online, como a cobrança obrigatória dos gastos de envio, para mobilizar o cidadão para os comércios locais, em detrimento das grandes plataformas que estão a caminho de assumir o monopólio.

 

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