O verdadeiro multiculturalismo na música das Reduções jesuíticas

Mais Lidos

  • “Dados indicam que a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de não retorno, principalmente como resultado da combinação entre o desmatamento acumulado no sistema, as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global e os vários fatores de degradação florestal”, afirma o pesquisador

    Capacidade de recuperação da Amazônia é limitada: centro do mundo encontra-se ameaçado por práticas predatórias e ilegais. Entrevista especial com Bernardo Flores

    LER MAIS
  • Mais uma vez nos dizem que a IA pode ser consciente – eu estudo consciência e tenho minhas dúvidas. Artigo de Anil Seth

    LER MAIS
  • "Se Trump perder as eleições de meio de mandato, ele invalidará a votação, arriscando um golpe”. Entrevista com Robert Kagan

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

08 Janeiro 2012

Os missionários jesuítas dos séculos XVI e XVII estavam convencidos de que a música era um caminho para chegar a Deus, um caminho de evangelização assim como a palavra ou a imagem. Hoje, é preciso ousar mais, é preciso propôr aos seres humanos um caminho íngreme, mas rico em aquisições espirituais.

A opinião é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, membro do Comitê Italiano de Bioética e professora da Universidade La Sapienza de Roma. O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 19-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As notas e as vozes maravilhosas dos Ex Cathedra – o grupo vocal e instrumental de Birmingham dirigido por Jeffrey Skidmore, pela primeira vez na Itália, no Teatro Cucinelli, de Solomeo, na Sagra Musicale Umbra – encantaram o numeroso público com um refinado repertório de música das reduções jesuíticas e das missões da América Latina, e composto por artistas do calibre de Araujo, Salazar, Padilla e do pratense Domenico Zipoli.

Poucas horas antes, na igreja de San Francesco di Trevi, um original diálogo musical entre órgão e cravo, ainda com trechos de Zipoli, encheu de alegria os corações dos espectadores. As notas alegres e harmoniosas do cravo se uniam perfeitamente às mais profundas do órgão, sugerindo um diálogo entre prazeres da vida, superficiais mas jocosos, e aprofundamento espiritual, igualmente necessário ao ser humano.

À Sagra Musicale Umbra – evento que revela ser a cada ano mais interessante e importante no panorama da música sacra e da música em geral – vai o mérito de ter dado a conhecer a um público mais amplo essas raridades tão extraordinárias. Composições que, além do prazer da audição, suscitam intensos estímulos intelectuais, justamente por causa daquela harmoniosa e irresistível mistura entre tonalidades e técnicas de matriz europeia e cores musicais locais, e por causa do emprego das línguas faladas pelos índios (como o chiquitano, o nahuatl e o quíchua), alternadas e misturadas ao latim litúrgico.

Hoje, quando falamos continuamente de multiculturalismo, entendendo-o muitas vezes como um amontoado sem sentido de culturas folclóricas mal assimiladas, temos muito a aprender com esse extraordinário experimento de multiculturalismo verdadeiro, que se baseia na criação de nova arte, nova cultura, que nascem do contato inovador entre tradições diferentes.

O sentido profundo de tudo isso é dado pela fé, por aquela apaixonada força de evangelização que animava os missionários e os músicos. Permitindo criar verdadeiramente o novo, enquanto acompanha – e, ao mesmo tempo, suscita – a renovação total da vida de um povo. Há um projeto, um desígnio único ao qual todos olham, ao qual todos colaboram, e não uma aproximação relativista de fragmentos culturais diferentes e incomunicáveis.

Além disso, causa uma admiração quase incrédula a capacidade dos missionários de ensinar aos índios uma música tão diferente das suas próprias tradições – tocada com instrumentos desconhecidos e cantada com novos modos – com uma paciência e um entusiasmo capazes de suscitar neles uma paixão que ainda dura. Porque os missionários estavam convencidos de que a música era um caminho para chegar a Deus, um caminho de evangelização como a palavra ou a imagem, talvez até mais intensa, e não poupavam esforços para ensiná-la e para fazer com que a amassem.

Os sucessos, testemunhados por esses belíssimos textos musicais, ainda em grande parte executados e amados na América Latina, não se fizeram esperar.

Portanto, é preciso refletir sobre a pobreza de muita música litúrgica de hoje, que, no esforço para se modernizar e se aproximar dos gostos de um povo cada vez menos cultivado musicalmente, decai frequentemente em ritmos que lembram as canções populares e não levam a uma tensão religiosa. É música de entretenimento, para cantar em coro para se sentir juntos, e não música que aproxima a Deus, que faz com que o fiel toque, mesmo que iletrado, o poder e o mistério do Criador.

Os missionários dos séculos XVII e XVIII tinham mais coragem: a escuta das maravilhosas músicas da Sagra Musicale Umbra nos ensina que é preciso ousar mais, que é preciso propôr aos seres humanos um caminho íngreme, mas rico em aquisições espirituais, em vez de se acomodar ao imediato favor de um público não mais educado a abrir seus próprios ouvidos para se aproximar de Deus.