Entre o urso e o homem: o horror invisível de Obsessão. Artigo de Mônica Lima

Cena do filme "Obsessão" | Foto: Divulgação

01 Agosto 2026

O que Obsessão ensina sobre a violência que se esconde atrás do "cara bonzinho"?

O artigo é de Mônica Lima, graduanda em Jornalismo pela Unisinos e membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Eis o artigo.

"Você prefere encontrar um urso ou um homem sozinho em uma floresta?"

Nos últimos anos, essa pergunta tomou conta das redes sociais e provocou reações intensas. Para muitos homens, a resposta dada por inúmeras mulheres, o urso, pareceu absurda, exagerada ou até ofensiva. Afinal, argumentavam, um urso certamente atacaria, enquanto um homem poderia simplesmente oferecer ajuda. Mas a força dessa pergunta nunca esteve na probabilidade de um ataque. Ela está na experiência cotidiana do medo das mulheres.

Ao encontrar um urso, sabe-se exatamente o que ele é: um animal selvagem, imprevisível e potencialmente letal. Já diante de um homem desconhecido, o perigo reside justamente na incerteza. O medo não nasce apenas da possibilidade de violência física, mas da impossibilidade de saber se aquele homem aceitará um "não", respeitará um limite ou compreenderá que nenhuma mulher lhe deve atenção, afeto ou qualquer outra forma de reciprocidade.

É justamente essa inquietação que Obsessão (Obsession), estreia do diretor norte-americano Curry Barker, transforma em horror. Embora seja apresentado como um filme sobrenatural, o verdadeiro terror da obra não está no objeto mágico capaz de realizar desejos. Está na forma como esse desejo revela uma masculinidade que, sob a aparência da sensibilidade, esconde um profundo sentimento de posse.

A trama acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem que trabalha em uma loja de discos ao lado de Nikki (Inde Navarrette), sua amiga de infância. Secretamente apaixonado por ela, Bear jamais encontra coragem para confessar seus sentimentos. A rejeição sequer acontece, porque ele nunca se coloca na posição de ser rejeitado. Em vez disso, encontra um artefato mágico capaz de realizar um único desejo e pede que Nikki o ame "mais do que qualquer outra pessoa no mundo".

O pedido é atendido imediatamente, mas não da forma romântica que imaginava. O amor transforma-se em uma devoção absoluta, irracional e violenta. Nikki perde sua autonomia, passa a viver exclusivamente em função de Bear e elimina qualquer pessoa ou obstáculo que ameace essa relação. A cada tentativa de desfazer o erro, o protagonista percebe que seu desejo não criou amor, criou uma prisão.

A armadilha da empatia

O grande mérito de Curry Barker está em fazer o espectador, em um primeiro momento, sentir empatia por Bear. Ele parece apenas mais um rapaz inseguro, gentil e silencioso, apaixonado por alguém que talvez nunca o enxergue da mesma forma. Sua tristeza é familiar. Afinal, quem nunca sofreu por um amor não correspondido? A identificação inicial é importante porque ela reproduz exatamente o olhar que a sociedade costuma lançar sobre homens como ele. Bear encaixa-se perfeitamente no estereótipo do “cara bonzinho”: educado, prestativo, sensível, aparentemente incapaz de fazer mal a alguém. É justamente por isso que muitos espectadores demoram a perceber quando ele deixa de ser vítima para tornar-se o verdadeiro agressor da história.

O mito do “cara bonzinho”

Essa construção dialoga diretamente com o chamado Nice Guy Syndrome, ou síndrome do “cara legal”, conceituada pelo terapeuta e educador americano Dr. Robert A. Glover. Embora o termo tenha sido popularizado na internet, ele descreve um comportamento amplamente discutido por psicólogos e pesquisadores das masculinidades. Não se trata de homens genuinamente gentis, mas de homens que transformam a gentileza em uma estratégia para obter afeto.

Glover descreve o 'cara bonzinho' como alguém incapaz de estabelecer relações honestas justamente porque transforma a aprovação do outro em necessidade. Bear leva essa lógica ao extremo: prefere destruir Nikki a aceitar que ela nunca o escolheu.

A bondade deixa de ser uma virtude para tornar-se uma moeda de troca. Quando essa recompensa não chega, surgem o ressentimento, a vitimização e a sensação de injustiça. É o homem que insiste que fez "tudo certo" e, por isso, acredita que a rejeição representa uma espécie de traição moral. Bear nunca verbaliza esse discurso de forma explícita, mas suas ações revelam exatamente essa lógica. O problema nunca foi amar Nikki. O problema começa quando ele decide que sua dor é mais importante do que a liberdade dela.

Quando o amor deixa de ser consentido

Existe um momento muito específico em que Bear deixa de ser um jovem apaixonado e torna-se o verdadeiro vilão do filme. Esse momento não acontece quando faz o desejo. Ele acontece quando percebe que Nikki já não possui vontade própria e, mesmo assim, escolhe continuar.

A mulher por quem ele dizia estar apaixonado já não existe. Sua personalidade foi completamente substituída por uma compulsão mágica. Nikki já não pensa, não escolhe, não decide. Ela apenas responde ao desejo de Bear. Ainda assim, ele continua aceitando sua devoção, sua companhia e, inclusive, mantém relações sexuais com ela.

Esse é talvez o aspecto mais perturbador da narrativa, porque desmonta uma compreensão extremamente limitada sobre violência sexual. Ainda existe uma tendência de associar estupro exclusivamente ao uso da força física. Entretanto, consentimento não é a mera ausência de resistência. Ele pressupõe autonomia, liberdade e a possibilidade real de dizer "não". Nikki não possui mais nenhuma dessas condições. A pessoa que Bear dizia amar deixou de existir enquanto sujeito. Permanecer se relacionando com ela significa utilizar um corpo cuja vontade foi completamente anulada. Não há consentimento possível quando não existe autonomia.

Mesmo diante dessa evidência, Bear continua insistindo naquela relação. Isso revela que seu amor nunca esteve direcionado à Nikki enquanto pessoa. O que ele desejava era a experiência de ser amado.

Essa percepção torna-se ainda mais evidente quando Bear telefona para o suporte responsável pelo objeto mágico. O atendente pergunta se ele deseja cancelar o pedido. A resposta é imediata: "Não. Só quero alterá-lo." A frase revela toda a lógica do personagem. Se sua preocupação fosse Nikki, libertá-la seria sua única prioridade. Mas Bear não quer perdê-la; quer apenas tornar sua obsessão administrável. Seu problema nunca foi a ausência de autonomia dela, mas o fato de aquela devoção começar a atrapalhar sua própria vida.

A impossibilidade de amar sem liberdade

A sequência mais devastadora do filme acontece quando Nikki recupera, por alguns instantes, parte de sua consciência. Pela primeira vez, a verdadeira Nikki consegue romper o controle imposto pelo desejo e implora para morrer. Ela diz que não suporta mais continuar vivendo daquela forma, presa dentro do próprio corpo, assistindo sem qualquer controle às atrocidades que é obrigada a cometer.

A resposta de Bear talvez seja a maior prova de que seu amor nunca foi sobre Nikki. Em vez de perguntar como pode ajudá-la, libertá-la ou pedir perdão, ele apenas pergunta: "É tão ruim assim namorar comigo?" Mesmo diante de uma mulher que afirma preferir morrer a continuar naquela condição, Bear continua interpretando seu sofrimento a partir do próprio ego.

Quando Nikki responde "Eu nunca quis isso", toda a fantasia romântica construída até então desmorona. Ela nunca escolheu aquela relação, nunca consentiu e jamais desejou viver ao lado de Bear. O relacionamento existia apenas porque sua liberdade havia sido roubada.

Nesse momento, torna-se impossível afirmar que Bear ama Nikki. O que ele ama é a sensação de ser amado, o conforto emocional, a companhia e a validação que ela lhe proporciona. Quem ama aceita a liberdade do outro, inclusive quando isso significa deixá-lo partir. Bear nunca aceita essa possibilidade. Seu amor não suporta a autonomia porque nunca foi amor, mas uma necessidade transformada em posse.

Sua covardia acompanha toda a narrativa. Primeiro, ele não encontra coragem para declarar seus sentimentos. Depois, quando percebe o desastre que provocou, também não encontra coragem para desfazer imediatamente o desejo. Adia a decisão, procura alternativas, tenta tornar a situação mais confortável para si mesmo. Até o final, evita enfrentar plenamente as consequências de suas escolhas.

Entre o urso e o homem

É justamente por personagens como Bear que tantas mulheres responderam "o urso". Não porque todo homem represente uma ameaça, mas porque o perigo raramente se apresenta com a aparência de um monstro. Muitas vezes ele sorri, escuta, ajuda, demonstra sensibilidade e insiste que só quer amar. O problema começa quando esse amor exige a renúncia da liberdade do outro.

Obsessão expõe uma forma de violência que permanece amplamente invisível. Uma violência que não deixa hematomas, mas destrói subjetividades. Que não depende de gritos ou agressões físicas, mas da convicção silenciosa de que o sofrimento de um homem pode justificar a perda da autonomia de uma mulher.

Esse é o maior mérito de Curry Barker. O filme nos obriga a abandonar a imagem confortável do abusador como alguém facilmente identificável. Bear não parece perigoso. É justamente por isso que é tão assustador. Porque seu comportamento revela uma lógica que ainda é frequentemente romantizada: a persistência tratada como prova de amor, a rejeição entendida como injustiça e a ideia de que um homem "bom" merece ser escolhido.

Enquanto continuarmos confundindo insistência com romantismo, posse com afeto e necessidade com amor, a velha pergunta da floresta continuará fazendo sentido para muitas mulheres. Afinal, um urso pode matar um corpo, mas homens como Bear são capazes de destruir algo muito mais difícil de reconstruir: a liberdade de existir como sujeito.

No fim, o monstro de Obsessão não usa máscara, não empunha uma faca e não parece ameaçador. E por isso que quando os créditos terminam, ainda existe quem o chame de "cara legal", porque nossa cultura ainda insiste em reconhecer a violência apenas quando ela deixa marcas no corpo. Talvez seja por isso que continue tão difícil perceber que retirar de alguém sua autonomia também é uma forma de violência, ainda que ela se apresente sob o nome de amor.

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