13 Junho 2026
"Segundo Lohfink, o povo escatológico de Deus não deve ser uma teocracia, como os zelotes esperam e buscam alcançar por meio da violência e do terror; com o êxodo do Egito, Israel foi libertado de uma vez por todas da ordem sinistra da 'teocracia'".
O artigo é de Roberto Mela, teólogo e professor da Faculdade Teológica da Sicília, publicada por Settimana News, 10-06-2026.
Eis o artigo.
Gerhard Lohfink (1934-2024) foi professor de estudos do Novo Testamento na Faculdade de Teologia Católica da Universidade Eberhard Karls de Tübingen. Em 1987, solicitou sua demissão do cargo para viver e trabalhar na Comunidade Católica de Integração (KIG) em Munique, onde continuou sua intensa atividade como acadêmico, palestrante e escritor.
Neste volume, ele analisa setenta "ditos" (lóghia) de Jesus, particularmente importantes por sua concisão, densidade de conteúdo e profundidade de impacto no ouvinte/leitor. Os "ditos" analisados estão divididos em sete partes: 1) O evento do senhorio de Deus (10 ditos); 2) O envio dos Doze (seis ditos); 3) A existência dos discípulos (13 ditos); 4) Vivendo à luz do senhorio de Deus (dezoito ditos); 5) A reivindicação de autoridade de Jesus (seis ditos); 6) A crise de Israel (10 ditos); 7) Diante da morte (sete ditos).

O evento do senhorio de Deus
Na primeira parte de sua obra, Lohfink analisa dez ditos referentes ao evento do senhorio de Deus. Jesus proclama o senhorio de Deus, afirma que o menor é maior que o maior, diz aos Doze que bem-aventurados os olhos que veem o que veem, realiza os milagres do tempo da salvação, expulsa demônios e testemunha a queda do adversário. Ele proclama: "Bem-aventurados sois vós, os pobres", referindo-se aos presentes; pede odres novos para o vinho novo do estabelecimento do reino e pergunta se é possível jejuar durante um casamento.
A "violência" do senhorio de Deus
Vamos nos concentrar na passagem sobre aqueles que "violam" o domínio de Deus (Mt 1,12-13). A tradução do grego é um tanto controversa. Nesse "dito de ataque", é possível traduzir o verbo para a voz passiva, e o dito seria: "Desde os dias de João Batista até agora, o domínio dos céus tem sido oprimido, e os violentos o tomaram." Traduzido dessa forma, as palavras de Jesus são um lamento amargo: "Tudo o que eu faço é destruído pelos meus adversários."
Mas o verbo da prótase na versão de Mateus também pode ser traduzido na forma média/intransitiva: "Desde os dias de João Batista até agora, o senhorio dos céus se estabeleceu pela violência, e os violentos o conquistam." Nesse caso, o "apelo verbal" não seria uma recriminação, mas exatamente o oposto: seria um grito de vitória. O domínio de Deus vem com poder, e essa poderosa ação de Deus corresponde a todos aqueles que fazem tudo o que é possível, com grande empenho e determinação, para participar do reino de Deus.
Segundo o autor, o "dito do ataque" está entre os poucos ditos de Jesus cuja compreensão tem sido tão incessantemente debatida na exegese do Novo Testamento. Lohfink questiona se Jesus deveria realmente ter dito que o senhorio de Deus havia sido submetido à violência. "Deus não pode sofrer violência. De ninguém. Nem mesmo de seus piores adversários. A afirmação de que o senhorio de Deus está irrompendo violentamente, se afirmando e ganhando terreno em todo Israel é bem diferente. Essa afirmação se encaixa perfeitamente com a proclamação triunfal de Jesus sobre o senhorio de Deus."
Alguns objetam que o verbo biazō (exercer violência, suprimir) tem um significado completamente negativo, assim como o substantivo biastḗs (violento). Embora isso seja verdade, argumenta Lohfink, esse argumento ignora o que é tão característico de Jesus: sua habilidade de brincar com termos, imagens e até mesmo gêneros textuais convencionais. Ele usa termos puramente negativos para fazer uma afirmação positiva.
O estudioso oferece um exemplo típico da liberdade de linguagem de Jesus: sua resposta às calúnias sobre seu celibato. Jesus rebateu: sim, existem "eunucos para o reino dos céus" (Mt 19,12), isto é, pessoas que permanecem celibatárias voluntariamente por amor ao senhorio de Deus. Da mesma forma, no "dito do ataque", Jesus brinca com o conceito de pessoas violentas. Certamente são figuras negativas, mas agora existem "pessoas violentas" sob o senhorio de Deus, que se deixam transformar por ele: impõem a violência sobre si mesmas, não têm consideração por si mesmas, arriscam tudo, dão a vida — e assim conquistam o reino de Deus.
Lohfink fornece outros exemplos desse tipo de figura retórica, especialmente em parábolas. Basta lembrar a parábola dos talentos (Mateus 25,14-30), na qual os dois primeiros servos dobram seu capital, envolvendo-se em especulações arriscadas. Também podemos pensar na parábola do administrador desonesto (Lucas 16,1-8). Aqueles de quem Jesus fala são "heróis imorais" (Ummoralische Helden). É precisamente através dessas figuras que Jesus esclarece o que está em jogo: ninguém pode impedir o domínio de Deus, porque é obra de Deus. No entanto, apenas aqueles que arriscam tudo, inclusive a própria existência, participam dele.
Os Doze e a vida dos discípulos
Na segunda parte de sua obra, Lohfink analisa seis ditos referentes ao envio dos Doze: ir como cordeiros entre lobos, sem levar nada para a jornada, sem parar para cumprimentar ninguém pelo caminho, do comportamento a ser observado na casa em que se entra, do pão para o dia seguinte e da certeza de que quem ouve os Doze ouve Jesus.
Na terceira parte, são examinados treze ditos referentes à existência dos discípulos. Jesus lhes diz que as raposas têm tocas, mas ele não tem onde reclinar a cabeça; os mortos devem ser deixados para que os mortos sejam sepultados; quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do reino de Deus. Jesus ilustra o significado do celibato para o reino dos céus. O ditado sobre o que deve fazer quem quiser ser o primeiro entre os discípulos é completamente radical e contraintuitivo: cada um deve carregar a sua cruz, mas quem perder a sua vida, essa a salvará.
Mortos enterrando mortos
Particularmente severo é o lóghion sobre o fato de que os mortos devem ter permissão para enterrar seus mortos, enquanto o discípulo deve seguir Jesus (cf. Lc 9,59-60). "Os mortos — os mortos": uma retórica calculada com extrema precisão, afirma Lohfink. Todos sabem que os mortos não podem enterrar os mortos. Portanto, aqui, são aqueles que estão "espiritualmente mortos" que deveriam se preocupar com os enterros: aqueles que não estão abertos à mensagem de Jesus, que não entenderam que a hora chegou.
Talvez, porém, o que Jesus disse naquela ocasião fosse ainda mais exigente. Talvez quisesse dizer: "Agora se trata de anunciar o reino de Deus — agora se trata da vida em um novo mundo. Que me importam os mortos agora? Que os mortos, isto é, os falecidos, sepultem uns aos outros." Seria a ironia levada ao extremo. Para ele, haveria apenas um ultimato: viver no reino da morte ou no reino da vida, isto é, na história de Deus que agora se inicia.
O autor questiona se, com esse lógio, Jesus se colocou acima dos mandamentos de Deus. Não — responde ele firmemente —, mas os interpretou de forma autônoma e com autoridade, como se ele próprio fosse o legislador. Os escribas debatiam acaloradamente cada letra. Jesus é diferente! Ele realmente fala e age como se estivesse no lugar de Deus.
Viver à luz do senhorio de Deus
Na quarta parte, Lohfink concentra-se no tema de viver à luz do senhorio de Deus, examinando dezoito ditos de Jesus: a proibição de qualquer culto sem reconciliação, a afirmação do adultério cometido já à vista de todos, a afirmação do crime capital de divórcio. Melhor uma mão decepada do que entrar no inferno com as duas; não devemos jurar de forma alguma e devemos renunciar à violência. Jesus exige amor pelos nossos inimigos. Ninguém pode servir a dois senhores, e a riqueza é um grande problema: a imagem do camelo e do buraco da agulha é bem conhecida.
O imposto a César e a Deus
Jesus, de forma admirável, evita a questão delicada de pagar ou não impostos. Ele responde: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." A primeira parte do versículo critica claramente os zelotes e sua recusa em pagar o imposto a César. Mas o kái na versão grega tem aqui um valor adversativo, e a tradução correta seria "mas", não "e". É precisamente nessa pausa que Jesus chega com força ao âmago do seu ser: "Mas deem a Deus o que é de Deus." E esta é uma repreensão contundente à classe dominante de Jerusalém, que não questiona qual é a vontade do Deus vivo.
Segundo Lohfink, o povo escatológico de Deus não deve ser uma teocracia, como os zelotes esperam e buscam alcançar por meio da violência e do terror; com o êxodo do Egito, Israel foi libertado de uma vez por todas da ordem sinistra da "teocracia". O verdadeiro povo de Deus deve ser absolutamente livre de violência. Jesus não rejeitou o Estado como força de ordem, conclui o estudioso. Mas teria desaprovado veementemente que as pessoas servissem à alegre mensagem do senhorio de Deus por meio do Estado, com a ajuda do Estado ou imitando formas de governo estatal.
A reivindicação de Jesus à autoridade
Na quinta parte, Lohfink aborda a reivindicação de autoridade de Jesus. Os seis lóghia examinados recordam a afirmação radical de Jesus ao paralítico: "Os teus pecados estão perdoados" (Marcos 2,5). Em Mateus 8,10, Jesus afirma a fé do centurião — um comandante estrangeiro. A afirmação "em verdade/amém", pronunciada antes do gesto, revela toda a reivindicação de autoridade de Jesus. "Eis aqui alguém maior do que Salomão", afirma Jesus. Jesus traz a paz, mas também não; ele carrega a espada da decisão para o Reino (Mt 10,34-36). À pergunta do sumo sacerdote sobre se Jesus é o Cristo, ele responde: "Eu sou. E vocês verão o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu" (Mc 14,61-62).
A crise em Israel
Na sexta parte, Lohfink examina as dez lóghia de Jesus que se referem à crise de Israel. Jesus repreende severamente seus interlocutores, os escribas e fariseus, chamando-os de "hipócritas": eles coam um mosquito, mas engolem um camelo (cf. Mt 23,24). Em Lucas 11,52, Jesus repreende os doutores da lei: "Ai de vós, doutores da lei! Porque tirastes a chave do conhecimento; não entrastes, e impedistes os que estavam a entrar."
Lohfink argumenta que o ditado com a "chave do conhecimento" é mais difícil do que aquele que menciona o "reino de Deus". Textos mais difíceis são frequentemente mais autênticos do que seus paralelos mais fluidos. "Jesus repreende os escribas por não fazerem o que sua profissão exigia: abrir as Sagradas Escrituras ao povo. Na verdade, eles fizeram o oposto: não abriram as Escrituras ao povo, mas as fecharam. Jogaram fora a chave necessária para a compreensão da Bíblia, não apenas para aqueles que se voltam para eles como mestres, mas também para si mesmos."
Terna e trágica é a metáfora da galinha aplicada a Jerusalém: "Jerusalém, Jerusalém, matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a tua casa te será abandonada" (Lc 13,34-35).
Diante da morte
Na sétima e última parte, Lohfink comenta sete lóghia de Jesus referentes à face da morte. Em Lucas 12,49-50, Jesus confessa seu anseio, misturado com angústia, pelo batismo da morte. O destino dos Doze será serem juízes das doze tribos de Israel (Mt 19,28).
A vida como resgate para muitos
Fundamental para a soteriologia cristã é o dito registrado em Marcos 10,45: "O Filho do Homem [...] não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." Com a mesma autoridade com que usa as Escrituras, Jesus agora também se refere a Isaías 40-55, o chamado Deutero-Isaías. "Filho do homem" refere-se a Daniel 7. A palavra "resgate" refere-se diretamente a Isaías 43,3. Jesus dá a sua vida como "resgate" por "muitos", "em favor de muitos".
Lohfink escreve: "O esvaziamento de si mesmo era um fato desde o início do ministério de Jesus. Quando um dia ele falou em dar a sua vida 'por muitos', o caminho já estava preparado há algum tempo. Em uma nova situação que piora impiedosamente, Jesus interpreta a morte que o ameaça como o ato final de salvação de Deus. E ele o faz com termos que lhe foram predestinados pela Bíblia, mas sobretudo por Isaías 40-55."
Os dois últimos lóghia comentados por Lohfink são dedicados às palavras da Última Ceia (Mc 14,22-24) e às referentes ao encontro no banquete escatológico (Mc 14,25). O texto do autor flui suavemente, com uma dicção simples e muito compreensível, sem tecnicismos, e com notas de rodapé reduzidas ao mínimo. Não há quem não veja a enorme riqueza contida no volume de Gerhard Lohfink como quase um canto do cisne. O grande número de ditos comentados — muitas vezes difíceis de interpretar — juntamente com sua importância crucial para a compreensão da pessoa e do pensamento de Jesus, fazem dele uma preciosa mina de ouro da qual vale a pena se apropriar.
Referências
GERHARD LOHFINK, As palavras mais importantes de Jesus. Uma Análise da Lóghia no Novo Testamento (Biblioteca di Teologia contemporanea 228), Queriniana, Brescia 2025 (orig. ted. Freiburg i. Br. 2022).
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