07 Mai 2026
O combate ao narcotráfico, as relações comerciais bilaterais e os elementos de terras raras estão entre os temas a serem abordados no encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil.
A reportagem é de Macarena Vidal Liy e Naiara Galarraga Gortázar, publicada por El País, 07-05-2026.
Os presidentes das duas democracias mais populosas das Américas — dois políticos em extremos opostos do espectro ideológico — se reunirão nesta quinta-feira na Casa Branca para tratar de questões pendentes após os Estados Unidos e o Brasil terem superado recentemente uma das crises mais graves em dois séculos de relações bilaterais. Será a primeira visita de Luiz Inácio Lula da Silva a seu homólogo Donald Trump na Casa Branca e o segundo encontro entre os dois, uma reunião que se espera ser discreta, pois, 24 horas antes do encontro e com o presidente brasileiro já a bordo do avião, ainda não havia sido oficialmente confirmada. Entre os temas da agenda bilateral estão o combate ao narcotráfico — Lula defende a cooperação, não listas de grupos terroristas —, as relações comerciais e os elementos de terras raras.
O governo Trump orquestrou discretamente esta visita, finalmente acordada após inúmeras reviravoltas. Originalmente agendada para março, ela foi interrompida pelo escândalo da guerra do Irã. A confirmação extraoficial veio de um alto funcionário americano que, falando sob condição de anonimato, corroborou o encontro entre o ex-magnata do setor imobiliário e o ex-líder sindical. Para a diplomacia brasileira, o encontro representa mais um passo na construção de confiança com o imprevisível líder da maior potência mundial.
Olha Lula ao descer em Washington. 12h (BSB) se reune com Trump. Deu na Globo News que Trump mandou um “i love you” para o Lula no telefonema em que combinaram o encontro. Vale lembrar que Bolsonaro disse “i love you Trump” ao vê-lo na ONU e foi ignorado. pic.twitter.com/AkA4xouOdb
— GugaNoblat (@GugaNoblat) May 7, 2026
Até o último minuto, a logística do encontro, descrito pelo alto funcionário e pelo Brasil como uma reunião de trabalho, permanece incerta. Não se sabe se Lula será recebido por Trump na entrada principal da Ala Oeste, como era costume ao receber líderes estrangeiros na Casa Branca, ou se o protocolo das recentes visitas de autoridades não-chefes de Estado será seguido: chegada por uma entrada lateral e reunião a portas fechadas, como ocorreu nos casos do presidente colombiano Gustavo Petro e do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
O momento da reunião é carregado de tensão. Washington está considerando adicionar os cartéis de drogas brasileiros à sua lista de organizações terroristas, assim como já fez com os cartéis mexicanos e colombianos. Tal medida poderia levar à imposição de sanções americanas a partes do sistema financeiro brasileiro, caso o governo republicano opte por isso.
A possibilidade de Washington designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas causa profunda preocupação ao governo Lula. Para o presidente brasileiro, que está bem ciente da incursão na Venezuela, isso representaria um ataque direto à soberania e abriria caminho para uma possível intervenção militar. Diante dessa situação, Lula defende um acordo de troca de informações e inteligência com Washington para atingir os cartéis de drogas brasileiros, visando seu financiamento e armamento. O presidente brasileiro tem uma lista de pedidos específicos.
O lado brasileiro acredita que Trump demonstrará interesse em elementos de terras raras, dos quais o Brasil possui as segundas maiores reservas do mundo, atrás apenas da China. Uma empresa americana, com apoio da Casa Branca, adquiriu recentemente a única empresa brasileira que produz esses materiais tão cobiçados. Washington tem grande interesse em diversificar seu fornecimento em um mercado dominado pela China. E o governo brasileiro busca parceiros para fornecer tecnologia e participar da cadeia de valor.
Lula também quer que Washington encerre as investigações sobre concorrência desleal abertas após as tarifas impostas por Trump para tentar impedir o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O governo americano está de olho no sistema de pagamentos instantâneos Pix, que revolucionou a economia brasileira e, segundo Washington, ameaça as principais empresas de cartão de crédito. Também está incomodado com a oposição do Brasil à prorrogação da moratória sobre impostos para serviços digitais como streaming e downloads de filmes e músicas. Há um mês, Brasília enviou uma missão técnica de alto nível a Washington para reforçar seus argumentos com dados.
Nas últimas semanas, Lula intensificou suas críticas à beligerância de Trump e ao seu total desrespeito ao direito internacional e à ONU. O discurso internacional do brasileiro se baseia na defesa do multilateralismo e da negociação como meios para a resolução de conflitos.
No ano passado, a flagrante interferência de Trump no Brasil para proteger Bolsonaro de processos judiciais permitiu que Lula demonstrasse sua firmeza contra a superpotência e emergisse significativamente fortalecido após uma crise de popularidade. Com tato, diplomacia e paciência, o presidente conseguiu que Trump aliviasse as tarifas, deixasse de lado o líder da extrema-direita e estabelecesse uma relação harmoniosa com ele.
Agora, Lula espera que a visita a Washington o projete de volta ao seu país como um líder internacional relevante, após duas dolorosas derrotas parlamentares na semana passada, e impulsione seu apoio nas pesquisas para as eleições de outubro, que apontam para um empate técnico com Flávio Bolsonaro, filho de seu antecessor.
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