24 Fevereiro 2026
A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA emitiu uma crítica contundente ao anúncio do governo Trump de que planeja dobrar sua capacidade de detenção de imigrantes em centros federais.
A reportagem é de Camillo Barone, publicada por National Catholic Reporter, 20-02-2026.
"A ideia de manter milhares de famílias em enormes armazéns deveria desafiar a consciência de todos os americanos", disse dom Brendan Cahill, bispo de Victoria, no Texas, e presidente da Comissão de Migração.
"Independentemente de seu status imigratório, esses são seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus, e este é um ponto de inflexão moral para o nosso país", disse ele em um comunicado divulgado pela conferência episcopal em 20 de fevereiro.
De acordo com o plano, anunciado em 19 de fevereiro, o governo pretende gastar cerca de US$ 38,3 bilhões da lei de reconciliação orçamentária do ano passado para implementar um novo modelo de detenção até o final do ano fiscal de 2026. Esse valor, observou Cahill, supera em muito outras despesas relacionadas à imigração, representando "quase cinquenta vezes o orçamento anual de todo o sistema de tribunais de imigração e quase cinco vezes o financiamento destinado este ano à operação do sistema prisional federal".
Segundo a proposta, as autoridades de imigração abririam oito dos chamados "megacentros", cada um com capacidade para deter entre 7 mil e 10 mil pessoas.
"Além dos campos de internamento usados para encarcerar nipo-americanos na década de 1940, tais instalações não têm precedentes na história americana", diz o comunicado.
Cahill descreveu esses planos como profundamente perturbadores e disse que eles desafiavam a sensibilidade moral dos americanos.
"Esses planos são profundamente preocupantes. O governo federal não tem um histórico positivo quando se trata de deter um grande número de pessoas, especialmente famílias, e a escala proposta para essas instalações é difícil de compreender", disse Cahill.
Ele acrescentou que "a indústria de prisões privadas é quem mais tem a ganhar com essa intensificação da detenção de imigrantes".
Cahill também afirmou que a conferência episcopal se opôs "inequivocamente à deportação em massa indiscriminada de pessoas e manifestou preocupação com as condições existentes nos centros de detenção". A declaração ressaltou a falta de acesso à assistência pastoral para os detidos e reiterou a oposição de longa data dos bispos à expansão da detenção familiar, citando seus "impactos nocivos, especialmente para as crianças".
Em novembro de 2025, durante sua assembleia plenária em Baltimore, os bispos emitiram uma mensagem especial sobre imigração, caracterizada como uma declaração que representava uma "forma particularmente urgente de se manifestar como corpo episcopal", a primeira desse tipo em 12 anos. Esse documento, aprovado por ampla maioria pelos bispos, delineou profundas preocupações sobre as políticas de imigração vigentes e seus efeitos sobre famílias e comunidades.
Nessa mensagem, os bispos disseram estar "perturbados ao verem entre o nosso povo um clima de medo e ansiedade em torno de questões de perfilamento racial e aplicação das leis de imigração". Expressaram tristeza pelo que descreveram como "o estado do debate contemporâneo e a difamação dos imigrantes" e manifestaram alarme específico sobre "as condições nos centros de detenção e a falta de acesso à assistência pastoral".
A mensagem de novembro também abordou o custo humano da aplicação das leis de imigração, lamentando que "alguns imigrantes nos Estados Unidos tenham perdido arbitrariamente seu status legal" e que os pais "temam ser detidos ao levar seus filhos para a escola".
Os bispos fundamentaram suas preocupações na doutrina social católica, apelando para uma "reforma significativa das leis e procedimentos de imigração de nossa nação".
Fazendo eco aos ensinamentos tradicionais da Igreja, eles também reafirmaram que a dignidade humana e a segurança nacional não são inerentemente conflitantes e enfatizaram a necessidade de caminhos seguros e ordenados que protejam os indivíduos da exploração.
Embora os bispos reconhecessem o direito das nações de regulamentar suas fronteiras, eles demonstraram preocupação com a escala e o caráter da atual abordagem federal dos EUA, particularmente sua dependência de detenções em larga escala.
As declarações de Cahill em fevereiro reforçam essa posição, instando tanto o governo quanto o Congresso a "liderarem com a razão", como ele mesmo disse. Ele pediu que reconsiderassem os custos financeiros e morais da expansão proposta dos centros de detenção e que "buscassem uma abordagem mais justa para a aplicação das leis de imigração, que realmente respeite a dignidade humana, a santidade das famílias e a liberdade religiosa".
Na semana passada, o National Catholic Reporter noticiou que um número crescente de bispos católicos havia emitido individualmente cartas pastorais enfatizando a solidariedade com os imigrantes e alertando contra um clima nacional corrosivo. O arcebispo de Baltimore, dom William Lori, em uma carta de 29 páginas divulgada em 9 de fevereiro, afirmou: "A crise política de nosso tempo é, em sua essência, uma crise espiritual."
Sua carta seguiu apelos semelhantes dos arcebispos José Gomez, de Los Angeles, e Paul Etienne, de Seattle, e de dom Anthony Taylor, bispo de Little Rock, Arkansas.
Outros bispos abordaram o impacto humano das ações de fiscalização de forma mais direta. Dom John Keehner, de Sioux City, Iowa, descreveu famílias imigrantes vivendo com "profundo medo e incerteza" enquanto agentes federais realizavam deportações em massa. Keehner escreveu: "Como pastor [dos imigrantes], não posso permanecer em silêncio quando membros de nossa família humana sofrem."
Dom John Wester, arcebispo de Santa Fé, no Novo México, também instou os legisladores a equilibrarem a regulamentação das fronteiras com a compaixão, afirmando: "Políticas rigorosas e tratamento humano não são mutuamente excludentes; na verdade, a justiça exige ambos."
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