Líder da #OutInChurch vê progresso, mas alerta contra retrocessos

Foto: Margaux Bellott/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

O movimento #OutInChurch na Alemanha começou com 122 funcionários da igreja se assumindo como LGBTQ+. Quatro anos depois, não há um veredicto simples sobre o impacto que o movimento teve na Igreja Católica. Em uma entrevista recente ao Kirche-und-leben.de , Rainer Teuber, co-organizador e porta-voz do movimento, afirmou que o progresso foi real, mas árduo, incompleto e ameaçado.

A reportagem é de Sarah Flores, publicada por New Ways Ministry, 26-01-2026.

Teuber deixa uma coisa clara: tudo o que melhorou para as pessoas LGBTQIA+ na Igreja não foi imposto de cima para baixo. Foi conquistado pelos próprios funcionários LGBTQIA+ da Igreja. E a visibilidade, uma vez alcançada, não é garantida. Ela precisa ser defendida constantemente.

Teuber afirma que, desde o início, o #OutInChurch se posicionou como uma iniciativa disruptiva. Ela desafiou o hábito arraigado da Igreja de permitir que apenas bispos e autoridades definissem a narrativa em torno da sexualidade, gênero e emprego. Em vez disso, cerca de 500 funcionários da Igreja Católica, pessoas que se identificam como gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais, queer ou não-binárias, reivindicaram publicamente suas próprias vozes. Ao fazer isso, levaram a instituição a confrontar as realidades LGBTQ+ que ela preferia manter invisíveis há muito tempo.

Uma das conquistas que Teuber destaca como um verdadeiro avanço é a reforma da legislação trabalhista da Igreja Católica na Alemanha. Ele a chama de um “salto quântico católico”. Em 2022, os bispos alemães revisaram as normas trabalhistas, de modo que aspectos da vida privada de um funcionário, como estar em um relacionamento homoafetivo ou contrair um segundo casamento após o divórcio, deixaram de ser motivos automáticos para demissão. Para muitos funcionários da Igreja, essa mudança representou algo profundamente fundamental: a possibilidade de viver honestamente sem o medo de perder o emprego.

Mesmo aqui, a avaliação de Teuber é cautelosa. Ele duvida que essa reforma tenha surgido de uma percepção moral ou reflexão teológica por parte dos bispos. Em vez disso, atribui-a em grande parte à pressão externa, especialmente à atenção pública gerada pela campanha #OutInChurch e por um documentário televisivo que a acompanhou. A lei pode ter mudado, mas Teuber vê poucas evidências de uma mudança cultural mais profunda na liderança da igreja.

Essa tensão entre o progresso simbólico e a realidade vivida também é visível na abordagem da Igreja em relação às cerimônias de bênção para casais do mesmo sexo. Em abril, a Conferência Episcopal Alemã e o Comitê Central dos Católicos Alemães, uma organização leiga oficial da Igreja, adotaram novas diretrizes que permitem a bênção de pessoas divorciadas e recasadas, casais de todas as identidades de gênero e orientações sexuais, e outras pessoas que não podem ou não desejam receber o sacramento do matrimônio. No papel, isso parece um passo em direção à inclusão.

Teuber, no entanto, chama as diretrizes de “embalagem enganosa”. Em sua opinião, elas carecem de clareza e força vinculativa, deixando os agentes pastorais inseguros sobre o que realmente podem fazer e os casais inseguros sobre se serão acolhidos ou rejeitados. O fato de essas diretrizes não terem sido implementadas uniformemente em todas as dioceses apenas aprofunda essa incerteza. A inclusão, quando depende da geografia, permanece frágil.

No âmbito do Vaticano, a perspectiva de Teuber é ainda mais preocupante. Embora o movimento #OutInChurch tenha sido reconhecido em Roma, uma carta enviada ao Papa Francisco, delineando demandas concretas de reforma, não recebeu resposta. Esse silêncio, segundo ele, diz muito. As esperanças de que as coisas pudessem mudar sob o Papa Leão XIV também foram frustradas até o momento, já que o novo papa indicou que mudanças doutrinárias são improváveis ​​em um futuro próximo.

Uma declaração de Leão XIV, em particular, perturbou profundamente Teuber: a sugestão de que pessoas queer fizeram “escolhas” que agora precisavam ser aceitas. Para Teuber, essa abordagem ignora décadas de pesquisa nas ciências humanas e reforça concepções errôneas prejudiciais. Continuar apresentando a homossexualidade como uma escolha, argumenta ele, não é apenas impreciso; perpetua o estigma.

Quatro anos depois, a campanha #OutInChurch serve como prova de que a mudança é possível, mas também como um lembrete da resistência que algumas partes da Igreja Católica institucional ainda demonstram. Reformas legais aconteceram. A visibilidade aumentou. No entanto, sem uma mudança cultural e teológica fundamental, alerta Teuber, o progresso permanecerá precário — sempre vulnerável a retrocessos, sempre dependente daqueles que têm a coragem de se manifestar.

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