O santo. Clarice Lispector na oração inter-religiosa desta semana

Thomas Merton | Foto: Sociedade Thomas Merton

26 Novembro 2021

 

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG.

 

O santo

 

O benefício maior do santo

é para com ele mesmo, o que não importa:

pois quando ele atinge a própria largueza,

milhares de pessoas ficam alargadas

pela sua largueza e dela vivem,

e ele ama tanto os outros

assim como ama o seu próprio

terrível alargamento,

ele ama seu alargamento

com impiedade por si mesmo.

O santo quer se purificar

porque sente a necessidade de amar o neutro?

De amar o que não é acréscimo,

e de prescindir do bom e do bonito.

A grande bondade do santo –

é que para ele tudo é igual.

O santo se queima até chegar ao amor do neutro.

Ele precisa disso para ele próprio (...)

Viver é uma grande bondade para com os outros.

Basta viver, e por si mesmo

isto resulta na grande bondade.

Quem vive totalmente

está vivendo para os outros,

quem vive a própria largueza,

está fazendo uma dádiva,

mesmo que sua vida se passe dentro

da incomunicabilidade de uma cela.

Viver é dádiva tão grande

que milhares de pessoas se beneficiam

de cada vida vivida.

 

Fonte: Clarice Lispector. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020, p. 169-170.

 

Clarice Lispector (Foto: Acervo Instituto Moreira Sales - Wikimedia Commons)

 

Clarice Lispector (1920 - 1977): Escritora e jornalista ucraniana, naturalizada no Brasil. É vista como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, de grande influência na literatura nacional e no modernismo. Escreveu diversos romances, contos e ensaios, Clarice publicou uma vasta obra literária, com mais de 20 livros. Além de livros infantis, como, O mistério do coelho pensante (1967) e A mulher que matou os peixes (1968), é autora de Perto do coração selvagem (1943); O lustre (1946); A cidade sitiada (1949); A maçã no escuro (1961), A paixão segundo G. H. (1964), Água viva (1973), Um sopro de vida (1978), entre outros. 

 

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