Egito. Homicídio no mosteiro. Assassinado o bispo ortodoxo copta Epifânio.

Anba Epifânio, bispo copta, abade do Mosteiro de São Macário, assasinado no domingo, 29 de julho de 2018. Foto: Vatican Insider

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Agosto 2018

Era um homem de oração e comunhão Anba Epifânio, bispo ortodoxo copta e abade do mosteiro de São Macário, o grande. Celebrava o martírio cristão como imitação de Cristo e experiência de vitória, sinal de uma fé que não se cansava de pedir ao Espírito Santo o dom da plena comunhão “entre nós cristãos”. Foi assassinado no seu mosteiro no amanhecer, enquanto se dirigia à igreja para recitar com os demais monges as orações da manhã. E sua morte aparece conotada por um marco martirial. Ainda mais se os assassinos não foram os jihadistas ou algum ladrão chegado de fora, mas sim alguém – hipótese inquietante que de momento não se exclui – que participava na vida ordinária da sua comunidade monástica.

Artigo é de Gianni Valente, publicado por Vatican Insider, em 30-07-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A Igreja Ortodoxa Copta, pelo seu porta-voz, falou de “incertezas em torno das circunstâncias da morte de Anba Epifânio”. Seu corpo foi encontrado em uma poça de sangue ao amanhecer de domingo, 29-07-2018, ao caminho do itinerário que conduzia do seu dormitório à igreja. Segundo as reconstruções dos meios locais, o bispo foi golpeado na cabeça com um objeto pesado e pontiagudo. Nas investigações dispostas pelas autoridades judiciais foram interrogados os membros de sua comunidade monástica para encontrar indícios que ajudam a individuar ao autor e o motivo do homicídio. Enquanto o Patriarca ortodoxo copta Tawadros II segue por meio de alguns enviados pessoais o desenvolvimento do trágico sucesso ocorrido em uma comunidade monástica que por tantos motivos é muito querida por ele.

 


Pátio do Mosteiro de São Macário, Egito. Foto: Wikicommons

Na história recente da cristandade copta, o mosteiro de São Macário, o grande (Dayr Anba Maqar), na região de Wadi Natrun, não é um lugar qualquer. A partir dos finais dos anos sessenta do século passado, esse mosteiro se converteu em um centro de irradiação da obra espiritual de Matta el-Meskin, uma das figuras mais luminosas do renascimento do monarquismo copo na segunda metade do século XX, através da linha que perpetua a tradição dos “Padres do Deserto”. Suas relações com a hierarquia da Igreja copta e sobretudo com o Patriarca Shenuda III foram complicadas e em momentos conflitivas, precisamente nos anos nos quais o renascimento do movimento monástico no Egito se convertia em um instrumento para descobrir o tesouro da fé, salvaguardado durante século de dominação muçulmanas.

Desde sua chegada a Dayr Anba Magar, Matta el-Meskin soube dar vida de novo ao mosteiro de novo ao mosteiro, atraiu numerosos discípulos. Como recordou o estudioso Alberto Elli, em sua intervenção durante Convenção da Comunidade de Bose dedicado a Matta el-Meskin em maio de 2016, o monge: “havia começado a conduzir uma ação ecumênica própria, desligada do Patriarca Shenuda III. Por exemplo, Matta el-Meskin adotou uma atitude conciliadora sobre a questão do Filioque”. Em consequência, papa Shenuda havia proibido vender nas livrarias paroquiais as obras de Matta el-Meskin.

Também Epifânio – como o atual patriarca Tawadros II – havia sido influenciado durante sua formação pela figura de Matta el-Meskin. Em certas resistências, suscitadas pelo magistério espiritual de Tawadros, ainda se encontram rastros dos contrastes que opuseram Matta el-Meskin ao patriarca Shenuda. Anba Epifânio, 64 anos, nascido em Tanta, formado em Medicina, entrou no mosteiro em 1984 e foi ordenado sacerdote em 2002. Os monges do mosteiro o escolheram como abade em fevereiro de 2013, menos de três meses depois que Tawadros II se convertera em patriarca. Do novo patriarca, Epifânio recebeu a petição de continuar a obra para levar o mosteiro de São Macário ao seu antigo esplendor.

Sua mensagem durante a Convenção Ecumênica de Espiritualidade Ortodoxa, organizado pela Comunidade Monástica de Bose, sobre “Martírio e comunhão”, em setembro de 2017, ofereceu uma contribuição importante para se distanciar dos mal-entendidos difundidos, propositalmente, de maneira cada vez mais vergonhosa, sobre a natureza e as dinâmicas próprias e incomparáveis do martírio cristão: “O martírio na Igreja Copta – recordou Anba Epifânio – é uma realidade viva que nunca se interrompeu no curso da história. Pensávamos que, com o progresso tecnológico, a globalização dos meios modernos de comunicação, a luta dos povos e das nações por uma vida melhor e a difusão dos direitos humanos, o fenômeno do martírio desapareceria e ficaria relegado ao passado. Não obstante, nossa Igreja continua oferecendo novos mártires todos os dias no altar do amor celestial”.

Leia mais